Periférica
PERIFÉRICA
Pense numa arrumação...
Senador Pompeu fica dentro de um buraco. Melhor comparando, numa panela. Com fogo por cima. Estive aí, no sábado para o domingo, pra ver o III Festival Internacional de Trovadores e Repentistas
29 Jan 2007 - 22h03min
Do ônibus, já quase em cima, e você não vê a cidade. Só numa curva do caminho, a torre da igreja, em forma de cebola. Senador Pompeu fica dentro de um buraco. Melhor comparando, numa panela. Com fogo por cima. Quente, menino. Abafado que só. Pois bem. Estive aí, no sábado para o domingo, só pra ver o III Festival Internacional de Trovadores e Repentistas. Fui ao primeiro. No Quixadá. Sob a batuta de Rosemberg Cariry, que teve a idéia. Acalentada há muito tempo. Até que deu certo, dentro deste projeto de interiorização da cultura levado adiante pela Cláudia Leitão e sua equipe. Este terceiro, como escrevi no Vida & Arte de hoje, bem mais modesto - de internacional, o pajador argentino Gustavo Guichón e a incrível dançarina indiana Ratnabali, acompanhada pelos sons da estranha e bela sitar, do Krucis. (Lá pelas dez da noite, enquanto no palco duelavam as duplas de repentistas, Ratnabali passou pelo meio da Praça do Mercado envolta em seus panos coloridos, o altivo perfil moreno, a leveza, ao lado de Krucis -
cabelo longo num rabo de cavalo, uns fios brancos brincando de tempo. O
rosto de um homem pacificado).
A noite começou com o trançado de pés maravilhoso dos homens do Coco do Iguape. Quem estava vivo caiu na dança, moças saracoteando, os bêbados - ah, os bebos são uma comédia. Dançam feito aqueles bonecos de ar de posto de gasolina. Bem, aí começou o desafio de viola, a praça lotada, tanta gente veio ver. Intervalo. No telão, ao lado do palco, imagens das edições anteriores do festival. Vejo os olhinhos azuis no rosto totalmente enrugado de dona Zabé da Loca, tocadora de pife, o passo dos Anicetos, e seu Raimundo fazendo arte com as facas duplas do Severino Brabo . Geraldo Amâncio e Zé Maria de Fortaleza improvisando ao lado de uma orquestra sinfônica . A beleza da cidade de Quixadá... A próxima atração, antes das duplas finais do festival de violas, é o poeta declamador Raudênio Lima, de Caruaru, Pernambuco. Usa chapéu de couro e tem a língua presa! Todo verde, feito um abacate. Lê o poema Paisagem de Interior (o defeito fonético desaparece na hora de declamar). O Arievaldo Vianna, que veio participar, com o mano Klévisson e o poeta Rouxinol do Rinaré, os três mosqueteiros ensinando pra quem quisesse o beabá do cordel e da poesia popular, me escreve contando o que não vi. O que rolou na derradeira noite do festival, domingo: "VOCÊ VIU GERALDO AMANCIO CANTANDO COM O ARGENTINO NAS TOADAS DELE E DE IMPROVISO? Ô CABRA DA GÔTA!".
Domingo, o dia seguinte. Ainda na noite de sábado, Pedro Jr, um gentleman, vem me dizer ao pé do ouvido as opções de volta. Um carro saindo às oito da manhã, mas é um pinga-pinga, me diz, porque tem que passar em Quixeramobim pra pegar os indianos. (Senador Pompeu tem apenas uma pousada, a produção arranjou um sítio para os "vips" descansarem - eles ficaram mesmo no hotel recém construído na cidade do Conselheiro). Outra opção, voltar no carro com a assessoria de imprensa, às duas da tarde. Bem, preferi sair logo de manhã, aproveitar a companhia dos músicos - sempre rola alguma coisa divertida. Foi só o que deu. Adivinha quem vinha no carro, sem ter pregado o olho, e depois de tocar o melhor forró do mundo até as três da manhã? Seu Zé de Manú, anfoneiro do bom, com seu bonezinho característico e o corpinho de Genival Lacerda. Zé de Manú celebra 50 anos de sanfona, e vem no caminho ao meu lado, contando divertidíssimas histórias desta vida de artista. Uma delas, envolvendo ele e o poeta Geraldo Amâncio, seu conterrâneo. Foram gravar um disco em Recife, foram teimando daqui até lá. Um dos músicos que acompanham o talentoso sanfoneiro, o baixista Ivanildo, reforça: - Seu Zé de Manú gosta mesmo é de teimar.
Zé de Manú era um "menino véi" quando começou a tocar, acompanhando um tio sanfoneiro. Tocava era tudo de corda, viola, banjo, bandolim. Mas de olho no teclado do acordeão... O tio porém não deixava o garoto nem chegar perto. Até que um dia Manú, seu pai, empombou-se com o irmão, vendeu um animal, deu o dinheiro pro filho comprar a sonhada sanfona. No caminho, vieram, filho e pai, pela vereda, o pai dizendo, toca, menino, pra todo mundo (especialmente o mano sovina) saber que ali estava um talento do fole. Com sua sanfoninha, Zé de Manú viajou o Brasil todinho, mostrou seus forrós e mazurcas em São Paulo, Rio de Janeiro. E era presença sempre benvinda na fazenda Asa Branca, do inesquecível e genial Luiz Gonzaga. Zé de Manú vai desfiando a lembrança, era ele, Dominguinhos, seu Eurides e o filho, um pivetinho, que se tornaria um dos maiorais do instrumento - Waldonys. Nessa conversa boa, lá pras tantas os indianos também começaram a fazer parte da prosa animada, a viagem passou rapidinho. Ainda deu tempo de ouvir a última presepada - contada pelo motorista Beto. Na casa que a produção conseguiu pra eles, Beto armou a rede, foi tirar um cochilo, quando um amigo, que não via há muito tempo, tibungou na tipóia. A coluna onde a rede estava armada veio abaixo, arrastando telhado e tudo. Uma demolição perfeita. O amigo saiu com o braço partido e o Beto com apenas um arranhão.
cabelo longo num rabo de cavalo, uns fios brancos brincando de tempo. O
rosto de um homem pacificado).
A noite começou com o trançado de pés maravilhoso dos homens do Coco do Iguape. Quem estava vivo caiu na dança, moças saracoteando, os bêbados - ah, os bebos são uma comédia. Dançam feito aqueles bonecos de ar de posto de gasolina. Bem, aí começou o desafio de viola, a praça lotada, tanta gente veio ver. Intervalo. No telão, ao lado do palco, imagens das edições anteriores do festival. Vejo os olhinhos azuis no rosto totalmente enrugado de dona Zabé da Loca, tocadora de pife, o passo dos Anicetos, e seu Raimundo fazendo arte com as facas duplas do Severino Brabo . Geraldo Amâncio e Zé Maria de Fortaleza improvisando ao lado de uma orquestra sinfônica . A beleza da cidade de Quixadá... A próxima atração, antes das duplas finais do festival de violas, é o poeta declamador Raudênio Lima, de Caruaru, Pernambuco. Usa chapéu de couro e tem a língua presa! Todo verde, feito um abacate. Lê o poema Paisagem de Interior (o defeito fonético desaparece na hora de declamar). O Arievaldo Vianna, que veio participar, com o mano Klévisson e o poeta Rouxinol do Rinaré, os três mosqueteiros ensinando pra quem quisesse o beabá do cordel e da poesia popular, me escreve contando o que não vi. O que rolou na derradeira noite do festival, domingo: "VOCÊ VIU GERALDO AMANCIO CANTANDO COM O ARGENTINO NAS TOADAS DELE E DE IMPROVISO? Ô CABRA DA GÔTA!".
Domingo, o dia seguinte. Ainda na noite de sábado, Pedro Jr, um gentleman, vem me dizer ao pé do ouvido as opções de volta. Um carro saindo às oito da manhã, mas é um pinga-pinga, me diz, porque tem que passar em Quixeramobim pra pegar os indianos. (Senador Pompeu tem apenas uma pousada, a produção arranjou um sítio para os "vips" descansarem - eles ficaram mesmo no hotel recém construído na cidade do Conselheiro). Outra opção, voltar no carro com a assessoria de imprensa, às duas da tarde. Bem, preferi sair logo de manhã, aproveitar a companhia dos músicos - sempre rola alguma coisa divertida. Foi só o que deu. Adivinha quem vinha no carro, sem ter pregado o olho, e depois de tocar o melhor forró do mundo até as três da manhã? Seu Zé de Manú, anfoneiro do bom, com seu bonezinho característico e o corpinho de Genival Lacerda. Zé de Manú celebra 50 anos de sanfona, e vem no caminho ao meu lado, contando divertidíssimas histórias desta vida de artista. Uma delas, envolvendo ele e o poeta Geraldo Amâncio, seu conterrâneo. Foram gravar um disco em Recife, foram teimando daqui até lá. Um dos músicos que acompanham o talentoso sanfoneiro, o baixista Ivanildo, reforça: - Seu Zé de Manú gosta mesmo é de teimar.
Zé de Manú era um "menino véi" quando começou a tocar, acompanhando um tio sanfoneiro. Tocava era tudo de corda, viola, banjo, bandolim. Mas de olho no teclado do acordeão... O tio porém não deixava o garoto nem chegar perto. Até que um dia Manú, seu pai, empombou-se com o irmão, vendeu um animal, deu o dinheiro pro filho comprar a sonhada sanfona. No caminho, vieram, filho e pai, pela vereda, o pai dizendo, toca, menino, pra todo mundo (especialmente o mano sovina) saber que ali estava um talento do fole. Com sua sanfoninha, Zé de Manú viajou o Brasil todinho, mostrou seus forrós e mazurcas em São Paulo, Rio de Janeiro. E era presença sempre benvinda na fazenda Asa Branca, do inesquecível e genial Luiz Gonzaga. Zé de Manú vai desfiando a lembrança, era ele, Dominguinhos, seu Eurides e o filho, um pivetinho, que se tornaria um dos maiorais do instrumento - Waldonys. Nessa conversa boa, lá pras tantas os indianos também começaram a fazer parte da prosa animada, a viagem passou rapidinho. Ainda deu tempo de ouvir a última presepada - contada pelo motorista Beto. Na casa que a produção conseguiu pra eles, Beto armou a rede, foi tirar um cochilo, quando um amigo, que não via há muito tempo, tibungou na tipóia. A coluna onde a rede estava armada veio abaixo, arrastando telhado e tudo. Uma demolição perfeita. O amigo saiu com o braço partido e o Beto com apenas um arranhão.
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