Publicidade

O POVO.com.br Leia O POVO DIGITAL

Últimas Notícias



Periférica

periférica

A alma encantadora das ruas

Vaivém da hora do almoço. Grupo de homens em roda espiando o jogo de damas dos velhos em volta de uma dessas mesinhas de cimento...


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

07/07/2008 22:22

Vaivém da hora do almoço. Grupo de homens em roda espiando o jogo de damas dos velhos em volta de uma dessas mesinhas de cimento que povoam o calçadão, indiferentes às moças de botas altas e cabelos lisos, uma negra magnífica passa numa calça tão justa que parece que nasceu com ela. Mas há um baticum diferente, se sobrepondo às vozes que anunciam compro ouro, compro dólar, são alfaias de maracatu, na praça da figueira. O som irresistível e ninguém dança, apenas ficam ali ouvindo o bater do tambor sob o sol frio.

Escada longa de madeira verde antiga, um dos muitos restaurantes a quilo, no centro da cidade. Diante do prato de comida (destaque para a tainha grelhada, é temporada delas, o mar está cheio de barcos e pescadores consertam tarrafas espichadas nas cercas de casa), vejo subir os últimos degraus o homem de bengala. Bate a ponta no chão, num barulhinho surdo, alguém vem atender aquele freguês em particular, um garçom gentil. O homem é alto e louro, veste um casaco jeans sobre um colete cor de gema de onde aponta a gola bem passada da camisa azul caixão-de-anjo. No anular esquerdo, a aliança. Compenetrado, senta-se, ajeita a bengala na cadeira ao lado, logo volta o garçom gentil com um prato enorme, um ovo estrelado sobre a arrumação de arroz, feijão e couve, em separado ele corta a carne em bocadinhos, ajeita a tigelinha da sobremesa ao lado, num tinido leve no prato, é mesmo um garçom gentil, este. O homem que é observado sem se dar conta faz movimentos fortes e suaves, apóia o garfo entre o indicador e o dedo médio, ao modo de um pincel, e pinça bocados da comida, com precisão, a faca apoiada na outra mão junto ao prato e um pouco acima, gestos mínimos. Nada a mais.

O homem espia em volta com estranhos olhos azuis, parece ver tudo ao redor no apuro das orelhas, a cabeça se move sutil à esquerda e à direita, enquanto as mãos agem com afinco e determinação, os bocados de comida chegam precisos aos lábios, sequer um fragmento fora de lugar. O telefone, ele interrompe as garfadas e explica aonde está, a mesa ao pé da escada, termino o suco de melancia junto com a curiosidade, ainda soam tambores na rua, já longe, o que ressalta a flautinha do cara que vende toucas de lã e bolsas de alpaca, nesta ruinha transversal que tem a igreja de esquina, uma bela igreja branca com detalhes em amarelo, de torre sineira, no adro ficam esmolando mulheres guaranis caladas e seus meninos de cabelos pretos e olhos arcaicos. Um lixeiro feliz meio que dança ou balança as trancinhas que repartem meticulosamente o pixaim, é mesmo um rapaz jovem e bonito.

Voltar pra casa não será tão difícil como na semana que passou – a greve de ônibus me isolou aqui no Morro das Pedras, consegui chegar à universidade por conta de uma providencial carona, a volta de táxi custou caro, a cidade é cara e eu sou dura, mas sorrio de canto de boca, tudo vale a pena, navegar é preciso, tudo é divino maravilhoso ou não, o jeito é inventar. Pensar bobagens enquanto caminho nestas veredas de areia beirando as casas, ruazinhas periféricas que se chamam: servidão. Vizinho ao prédio onde moro, e paisagem da janela, o beco que termina quase na beira do mar, a servidão Dona Severina. A dona Severina mora na rua, mais acima, agora até melhorada – pavimentada com losangos de cimento. As ruas: férias e meninos jogam bila cavando covinhas pelo chão, soltam arraias, brinquedos que têm outro nome por aqui, mas a ação é a mesma, a mesma feliz algazarra. Uma roseira simpática se oferece ao beija-flor, numa esquina território de ninguém. O cachorro pensa em latir, desiste, e fico ouvindo só o mar. E os meus passos.


Compartilhe esta Notícia o que é isso?

  • Linkar esta matéria ao Delicious
  • Linkar esta matéria ao Menéame
  • Linkar esta matéria ao Technorati
  • Linkar esta matéria ao My Yahoo
  • Linkar esta matéria ao Bookmarks
  • Linkar esta matéria ao Rec6

Comente esta Notícia



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato