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A mídia sou eu

Confira a 2ª parte do texto da coluna de Ricardo Kelmer

Ricardo Kelmer
30 Out 2008 - 22h08min

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(2a parte)

Se criticamos a mídia por ser socialmente irresponsável, deveríamos primeiro dar o bom exemplo. O que você acharia se uma emissora de tevê divulgasse um texto como sendo de um autor quando, na verdade, é de outro autor? Já pensou a confusão que isso poderia causar na cabeça dos estudantes? E se um jornal noticiasse que uma criança doente precisa de ajuda em tal hospital quando, na verdade, lá não há nenhuma criança assim? O hospital teria que contratar várias telefonistas só para explicar e desfazer o engano a quem telefonasse. E se uma rádio divulgasse que tal empresa está dando celulares para quem enviar e-mails a seus amigos e conhecidos – e nada disso fosse verdade? A rádio certamente seria processada. Em todos esses casos, as empresas perderiam crédito diante de seu público e de toda a sociedade.

É exatamente isso que as pessoas estão fazendo, agora que possuem o poder de mídia. Fazem justamente aquilo com o qual jamais concordariam se a mídia fizesse. Algumas se justificam, alegando que checar a veracidade da informação dá muito trabalho. Bem, se dá trabalho, então deveriam ao menos não contribuir para a disseminação de algo que não sabem se é ou não verdadeiro. Isso é responsabilidade social. Isso é fazer a nossa parte. O passarinho que leva uma gota dágua para apagar o incêndio na floresta certamente não conseguirá apagá-lo sozinho – mas ele está fazendo o que pode fazer.

Outro dia, intrigado com uma mensagem que recebi, liguei para uma empresa de cosméticos e perguntei se era mesmo verdade que um tal xampu continha uma certa substância altamente nociva à saúde e que podia até matar, conforme dizia a mensagem. Alguém do setor de comunicação da empresa me informou que tudo não passava de boato e que já haviam denunciado o caso à polícia. Fiquei satisfeito por não ter repassado uma informação falsa. Se a empresa localizasse e processasse o boateiro por calúnia, eu acharia ótimo, bem feito. Mas... e os que repassaram o boato? Não seriam tão culpados quanto quem o criou? Aliás, na nova lei sobre crimes cibernéticos há um tópico justamente sobre a responsabilidade do usuário, onde ela começa e até onde vai.

Produtos ruins, mal atendimento naquele restaurante da moda, assalto no shopping... Muitas dessas mensagens que parecem ser de utilidade pública são criadas por pessoas que deliberadamente inventam mentiras e as usam em e-mails para prejudicar pessoas e empresas. Elas fazem isso porque sabem que há usuários de internet que repassam informações sem ter certeza de sua veracidade. E aqueles poemas bonitos, aquelas crônicas maravilhosas que recebemos... Por melhores que sejam certos textos, você pode estar fazendo papel de bobo ao repassá-los pois a autoria pode estar incorreta ou o próprio texto pode estar adulterado.

Geralmente são os amigos os primeiros a sofrer com a falta de noção dos que repassam tudo que lhes chega, desde falsas informações travestidas de utilidade pública a correntes da felicidade. Então devem ser os amigos os primeiros a alertar para tal comportamento. Talvez não seja muito simpático chamar a atenção sobre isso mas é o tipo de atitude que faz um bem enorme a toda a sociedade.

Eu, por exemplo, criei um texto automático que sempre segue após minha assinatura nos e-mails que envio ou respondo. Alguns amigos gostaram e o incorporaram em suas mensagens. O texto é este e, se você quiser, pode copiá-lo para usar também: "CAMPANHA PROTEJA SEUS AMIGOS - Ao enviar mensagens coletivas de e-mail, jamais deixe os endereços dos destinatários expostos pois é justamente isso que municia os criminosos da rede, que catam endereços nas mensagens para enviar suas armadilhas e infectar nossos computadores. No campo do destinatário ponha o seu próprio endereço ou deixe em branco e no campo da (cco ou bcc) ponha os demais endereços - assim, quem receberá a mensagem verá apenas o endereço do remetente, estando os demais invisíveis."

A tecnologia já nos permite exibir filmes em nosso site pessoal ou em nosso blog, assim como retransmitir notícias em tempo real... O usuário de internet cada vez mais adquire status de emissor ou retransmissor, o que aumenta ainda mais a responsabilidade de cada um. Pode estar perto o dia em que cada cidadão comum, como eu e você, poderá montar na internet sua própria rede de tevê e de notícias, escolhendo aquilo que achar mais conveniente exibir e transmitir ou até mesmo gerando a notícia em primeira mão. Se isso realmente acontecerá, seria ótimo se começássemos, agora mesmo, a aperfeiçoar nossas noções de ética e responsabilidade nos e-mails que enviamos.

É, o mundo mudou. Com a internet, o cidadão comum não é mais um mero coadjuvante dos acontecimentos do mundo nem apenas um passivo consumidor de informações. Agora somos todos peças fundamentais pois podemos, mesmo sem sair de casa, influenciar idéias e atitudes no mundo inteiro. Mas para isso precisamos entender que agora nós também somos a mídia. E que, para criticar o comportamento dos meios de comunicação, devemos primeiro fazer a nossa parte. Sim, nossa parte representa apenas uma gota dágua. Mas é justamente por causa de uma gota que o copo transborda.


Ricardo Kelmer é escritor e roteirista e mora em São Paulo. RK está em Fortaleza para lançar seu novo livro, Vocês Terráqueas e para participar da Bienal Internacional do Livro. Site pessoal: Blog do Kelmer - Um escritor em liberdade incondicional, blogdokelmer.wordpress.com

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31/10/2008
18:14

Quero apenas parabenizar pelo texto, pela abordagem ffeita a esse assunto, muito bom e será ainda melhor quando todos nós fizermos a nossa parte e deixarmos de olhar o mundo tão de fora da nossa visão, pois tudo começa por nós, é como o próprio Ricardo fala, "a mídia sou eu" então vamos olhar mais para dentro de cada um de nós, vamos criticar nosso atos e atitudes para depois criticarmos o que realmente deve ser criticado. Obrigado Ricardo pelo texto e mais uma vez Parabéns.

Cláudio Amaral

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