Ricardo Kelmer
Velha tendência feminina, essa ansiedade louca pelo amor, essa mania de fazer a relação ocupar todo o espaço na vida de ambos...
10/01/2008 22:24

O texto desta semana foi extraído do blog Kelmer Para Mulheres
O reino hostil dos sentimentos
Mulher é um bicho capaz de conversar dias e dias seguidos, sem cansar, sobre seus sentimentos, sobre o namoro, o casamento, o que vai bem, o que vai mal, como seria se fosse ou como não seria se não fosse... O assunto é sentimento? Então pra mulher cada aspecto dele é um fractal, que pode ser ampliado, ampliado, ampliado e sempre haverá novos detalhes que surgirão a cada ampliação. E, putz, como mulher se excita quando o assunto é sentimento! Mulher é apaixonada pelo amor.
Já a maioria dos homens prefere conversar sobre futebol, trabalho, política, arte, filosofia, automóvel, sexo, pescaria, qualquer coisa menos sentimento. Homem vê mais sentido em falar sobre o que pensa do que sobre o que sente. Às vezes eu faço este teste: pergunto a um amigo o que ele sente por sua mulher. Geralmente ele resume a resposta em duas ou três palavras e acabou. Isso quando ele não rebate, desconfiado: que pergunta é essa?
É claro que homem sente. Mas como há milênios somos programados desde a infância pra nos mostrarmos fortes e infalíveis, e sentimento é algo que pode fragilizar qualquer um, nós evitamos expor o que sentimos, até pra nós mesmos. E de tanto reprimir os sentimentos, acabamos muitas vezes até mesmo sem saber o que realmente sentimos. Ô racinha... E, assim, o reino Yin dos sentimentos a cada dia se torna pro homem uma terra cada vez mais confusa, estranha e hostil. Melhor manter distância dela. Melhor falar de algo que seja mais racional.
Coisa de fracote
A mentalidade patriarcal, sobre a qual foi construída nossa querida cultura, sempre desprezou os valores ligados ao feminino, ao Eros. Claro, pois só assim essa mentalidade poderia se manter, sempre fazendo parecer menos importante o que é ligado à mulher. Dessa forma, a agressividade vale mais que a suavidade, cultura e civilização valem mais que a Natureza e a razão é mais importante que o sentimento. O Yang é melhor que o Yin. Logos é melhor que Eros.
Pra grande parte dos homens, sentimento é sinônimo de fraqueza. Mesmo que sinta, o homem evita demonstrar pois sabe que isso pode comprometê-lo diante dos outros homens. Com os amigos, ele dificilmente se sente à vontade pra falar de seus relacionamentos sob a ótica do sentimento. Amigos dificilmente se perguntam sobre o que sentem, como anda a relação com a mulher, se estão felizes, inseguros... Imagina! Tá metendo?, então tá tudo ótimo!
Se joga!
Mas as coisas estão mudando. Até porque a evolução psicológica da espécie não prosseguirá se ela não conseguir equilibrar os princípios femininos e masculinos que compõem a psique - algo cada vez mais urgente. E essa evolução se dá à medida que cada um se torna um ser psicologicamente mais equilibrado, mais autoconsciente. No homem isso significa reconhecer valores Yin e integrá-los à consciência, e na mulher é o oposto.
Se a mulher já tá numa segunda fase de sua revolução feminista, repensando os exageros e entendendo que não tem de ser igual ao homem (aleluia!), o homem ainda tá procurando o isqueiro pra queimar o sutian, quer dizer, a cueca. Aos poucos, porém, nós perdemos o medo de assumir os sentimentos e de mostrar que nem sempre somos fortes e infalíveis. Os que fazem isso costumam ser mal interpretados, até pelos próprios amigos, mas é assim mesmo, sempre haverá os soldados da linha de frente, aqueles que recebem as primeiras balas.
Mas as mulheres ainda têm o que aprender também. Se o homem precisa urgentemente reconhecer o valor dos sentimentos e aprender a cuidar mais das relações, a Homa sapiens necessita, por exemplo, entender que não se pode pôr mais peso numa relação do que ela suporta carregar. É bom se atirar nos braços do homem amado, sim, claro. É maravilhoso se jogar de braços abertos e ser amparada pela própria relação, sim, é maravilhoso, é lindo, é tudooo!!! Mas cuidado, fia. Senão ele perde o equilíbrio e a relação desaba com esse peso todo.
Como afugentar um homem
Vai mais devagar, boneca. Não é você quem sempre faz questão das preliminares no sexo? Por quê? Porque seu ritmo é outro. A rapidez e a ansiedade masculina na hora do sexo já fizeram você se sentir quase que estuprada? Já? Poizentão. Ele às vezes se sente assim na relação, sabia?
Velha tendência feminina, essa ansiedade louca pelo amor, essa mania de fazer a relação ocupar todo o espaço na vida de ambos... Isso costuma sufocar o homem, que tende a valorizar a individualidade mais que a mulher. Quer afugentar um homem que tá começando a gostar de você, fia? Então não perca uma chance de pressionar o infeliz em relação a seus sentimentos. Sufoque o desgraçado todo dia com o doce travesseirinho da relação. É tiro e queda.
- O que você tem, Maria Adélia?
- Tô chateada com você, Lindomar.
- Por quê?
- Você esqueceu que dia é hoje.
- Eu? Calma, deixa ver... Tem um calendário aí?
- Tá vendo? Você não se importa nem um pouco com a gente. Pra você tanto faz. Mas aposto como você sabe direitinho o dia em que o Fortaleza vai jogar a semifinal, ah, isso tenho certeza que você não esquece.
- Peraí, Maria Adélia, peraí... Hoje é... hoje... Ah, desisto. Que dia é hoje?
- Hoje, Lindomar, exatamente hoje, faz quatro dias que a gente se conheceu.
Ricardo Kelmer é escritor, letrista e roteirista e mora em São Paulo, Terra, 3a. Pedra do Sol - www.ricardokelmer.net - kelmerparamulheres.blogspot.com