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KELMÉRICAS

Trilha da Vida Loca - LAMA

Oito horas da noite. Lena põe o CD no aparelho de som e sobe o volume até o máximo. A música que toca, estridente, é um bolero de fossa...

Ricardo Kelmer
27 Abr 2007 - 10h33min

Ilustração: Harley Maquiavel (harley.almeida@gmail.com)
Se quiser fumar eu fumo
Se quiser beber eu bebo
Não interessa a ninguém


Oito horas da noite. Lena põe o CD no aparelho de som e sobe o volume até o máximo. A música que toca, estridente, é um velho bolero de fossa, cantado por Núbia Lafayette. Na calçada as pessoas passam curiosas, olhando para dentro do bar. Mas Lena não as vê. Encostada à porta do bar, acende um cigarro, dá uma longa tragada e solta a fumaça para cima. Do outro lado da rua ela pode ver o movimento dentro da igreja, os pastores já no palco, os fiéis sentados nos bancos a aguardar. Na entrada uma moça e um rapaz convidam os transeuntes a entrar e aceitar o Senhor Jesus. Lena sorri de vê-los constrangidos pela música que toca. Então ele surge. Bem à entrada da igreja, de paletó, a bíblia na mão. O rapaz aponta para o outro lado da rua e ele se vira para olhar. É nesse momento que seus olhares se cruzam. E é como se dez anos não houvessem se passado. Seus olhares se mantêm fixos um no outro, intercalados pelos carros que passam pela rua. Lena se delicia ao constatar a imensa surpresa nos olhos dele. Pega o copo na mesa ao lado e toma um gole de campari. Quando olha novamente, ele já voltou para o interior da igreja.

Se o meu passado foi lama
Hoje quem me difama
Viveu na lama também


Olhai, irmãos, olhai em vossa volta e vereis a Babilônia a seduzir com seu hálito de bebida e suas promessas de luxúria!!! A voz dele, amplificada, extrapola os limites da igreja, atravessa a rua e parece duelar com o bolero. Lena, imperturbável, toma mais um gole de seu campari. O garçom se aproxima e comenta algo sobre o volume da música mas ela não responde, permanece na mesma posição, o olhar distante. Olhai, irmãs, e vereis as mensageiras de Satanás na porta dos bares, essas almas perdidas cuja especialidade é levar os homens junto com elas para o Inferno!!!

Comendo da minha comida
Bebendo a mesma bebida
Respirando o mesmo ar


Ele era um garoto quando ela o conheceu. A paixão foi instantânea, mútua... e avassaladora. Semanas depois seu marido descobriu, expulsou-a de casa e ela alugou para eles um pequeno quarto no centro, cuja cama passou a ser o templo sagrado de seus desejos insaciáveis. E, uma vez juntos, perderam-se ainda mais. Para sustentar os vícios, que não eram poucos, enganaram, roubaram e assaltaram. Foi por amor que várias vezes ela foi buscá-lo no hospital, tantas brigas que ele arrumava pelas ruas. Foi por amor que várias vezes, louca de ciúmes, ela bateu nas mulheres que ele insistia em cortejar descaradamente em sua presença. E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que decidiu alugar o corpo na praça da Central.

E hoje, por ciúme ou por despeito
Acha-se com o direito
De querer me humilhar


Foram oito anos de praça. Oito anos suportando o bafo de cachaça dos operários e o suor fedido dos mendigos. Oito anos vendendo por meia hora aquilo que deveria ser dele, apenas dele, durante toda a vida. No fim da noite ela levava o arrecadado para ele, que aguardava no bar com os amigos, bebendo e jogando. Uma noite, porém, ela não o encontrou lá. Procurou-o pelas ruas mas lá ele também não estava. Quando chegou em casa, já de manhã, ela o encontrou em sua cama, com outra mulher. Ela não lembra exatamente do que fez mas nos autos consta que os policiais, alertados pelos vizinhos, a encontraram sentada no chão, ainda segurando a faca, tranquila e cantarolando um bolero. Ao lado dos dois corpos ensanguentados.

Quem és tu?Quem foste tu?
Não és nada
Se na vida fui errada
Tu foste errado também


Quinze anos depois foi libertada. Deixou o presídio e foi diretamente ao prédio onde antigamente morava. E foi lá, depois de muito perguntar, que soube onde ele estava. Rumou para lá. Era uma igreja que uncionava no salão do segundo andar de um prédio velho. Ela chegou, sentou-se no último banco para que ele não a reconhecesse e o escutou pregar. Ele falava de amor, fraternidade e perdão. Era um sermão bonito, que tocava o coração. Mas o dela não tocou. Antes do final ela levantou-se, interrompendo o culto, e de dedo em riste na cara dele, gritou tudo que se acumulara em seu coração naqueles quinze anos em que ele sequer fora visitá-la. Sequer lhe mandara um lençol limpo. Sequer lhe escrevera um mísero bilhete. Ele não conseguiu dizer nada, assustado e constrangido por ver exposto, diante dos fiéis e de sua esposa, todo o seu passado sombrio. Quando ela fez uma pausa, ele aproveitou e disse, em voz alta, para todos ouvirem, que ela estava possuída por Satanás. Nesse instante os seguranças avançaram e a seguraram, enquanto o outro pastor assumia o ritual de exorcismo. Ela gritou e se debateu. Mas foi inútil. Minutos depois, vencida pelo cansaço, pelo desânimo e pela decepção, deixou-se cair no chão, chorando todas as lágrimas que em quinze anos não chorara, enquanto os fiéis louvavam a glória do Senhor.

Não compreendeste o sacrifício
Sorriste do meu suplício
Me trocando por alguém


Foram várias noites em claro, lutando contra sua própria alma dilacerada e dividida. Uma parte ainda o amava, muito, loucamente, mas a outra não conseguia perdoá-lo. Durante quarenta dias e quarenta noites amor e ódio fizeram de sua alma campo de batalha, ambos com sua força total. Até que um dia ela, enfim, adormeceu sorrindo. E dormiu o sono justo dos que finalmente compreendem aquele que talvez seja o maior dos mistérios do amor: que ele perdoa até mesmo o que não tem como ser perdoado. No outro dia ela foi ao culto, disposta a contar-lhe a boa nova que alegrava seu espírito feito uma brisa de verão. Mas quando chegou à porta do salão, foi enxotada pelos próprios fiéis que, ajudados pelos seguranças, a levaram para fora e, no beco ao lado, a apedrejaram. No chão, quase desfalecida, ela ainda o viu se aproximar, jogar um punhado de areia sobre seu corpo e dizer: Pra mim você já morreu.

Se eu errei, se pequei
Pouco importa


A voz do garçom chega novamente, se misturando às lembranças. Enquanto ele comenta algo sobre clientes indo embora, dez anos se passam rapidamente em sua mente, dez anos em que ela apenas trabalhou e trabalhou e trabalhou, inteiramente obcecada. E o resultado está aí, na forma desse pequeno bar, que ela inaugura exatamente essa noite. Nesse instante um casal entra, observa o interior do recinto, dá meia-volta e sai, com jeito de assustados. O garçom, perdendo a paciência, diz que ali ele não trabalha e vai embora. Lena dá outra tragada no cigarro e entra. Caminha até o centro do bar, entre as mesas, e toca o caixão. É um caixão branco de madeira brilhosa, suspenso sobre o pedestal de ferro. Grudada pelo lado de dentro do vidro, por onde se veria o rosto do defunto, o que se vê é uma foto desbotada, onde, sentado numa mesa de bar, um homem jovem sorri.

Se aos teus olhos estou morta
Pra mim morreste também



Ricardo Kelmer é escritor, letrista e roteirista e mora em São Paulo, Terra, 3a. pedra do Sol

(“Lama”. Autor: Alce Chaves e Paulo Marques. Intérprete: Núbia Lafayette.)

Leia e publique comentários sobre este texto: www.ricardokelmer.net/rktxttrilhalama.htm



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3. FIM DA TURNÊ

A turnê nordestina durou dois meses. Campina Grande, Natal, Fortaleza, Juazeiro do Norte, Assaré e Jericoacoara. Lancei os livros novos, fiz sessões de autógrafos e realizei palestras e cursos. Volto pra Sampaulo com a bateria recarregada. Da viagem eu trouxe a alegria de reencontrar a família e os amigos e de conhecer novos leitores. Matei a saudade do cuscuz com boi ralado do Roque Santeiro e do jeitinho dengoso de falar (e de ser) que as mulheres cearenses possuem. E plantei a semente da Cooperativa de Autores Independentes em Fortaleza - que espero que dê bons frutos. Quando voltarei ao Ceará? Não sei. Quem sabe logo mais surge algum convite pra algum curso ou palestra... e aí eu tô de volta. Tomara.



4. AFORROZARAM O HOTEL CALIFORNIA

Lembra do EAGLES, aquela banda de rock estadunidense que brilhou nos anos 70 e 80? Lembra do maior sucesso da banda? Exatamente, era HOTEL CALIFORNIA. A letra original começa assim (tradução livre): "Numa estrada escura e abandonada, vento fresco em meus cabelos / Cheiro ardente de baseado se arguendo pelo ar / Mais à frente na distância eu vi uma luz cintilante / Minha cabeça ficou pesada e minha visão escureceu / Tive de parar para dormir". A pessoa então se hospeda no Hotel California, onde vive estranhas experiências e no final descobre que está presa lá para sempre. A letra é meio psicodélica, a melodia é ótima e o solo de guitarra é dos mais famosos da história do rock. Pois bem. Com essa mania dos forrozeiros de fazer versões forró de tudo que é música, até que tava demorando alguém fazer a de "Hotel California". Pois já fizeram. Escutei dia desses, em Fortaleza, e tomei um susto. A melodia até que não mudou muito. Mas a letra... Olhassó como ficou: "Só quero saber onde você mora... Aonde está você que não vem me ver?... Eu queria você... Essa falta que você me faz vai me sufocar... Eu queria você..." Na versão forró a letra, além de ser absolutamente infiel à idéia original, virou uma coisa banal, melosa, sem qualquer criatividade. O que os compositores da música diriam se soubessem? Morreriam de vergonha? Teriam um ataque de riso? Ou internariam os forrozeiros assassinos de letras originais no Hotel Califórnia pra nunca mais saírem de lá? Jack é assim, então vou dar minha humilde contribuição a esta esculhambação. Aí vai minha versão:
"Quebramo a cama do Motel Esbórnia / Só cabiam três / Mas nós era seis / O maior preju no Motel Esbórnia / Foi bom demais / Mas custou mil reais..."


5. UTILIDADES KELMÉRICAS

>> CAUIN - Cooperativa de Autores Independentes, núcleo Fortaleza - cauinfortaleza@gmail.com. Comunidade no Orkut: www.orkut.com/Community.aspx?cmm=29656180

>> PALESTRAS RK EM FORTALEZA - Falar com Cristina Cabral (85-9141.0614). Para saber mais: www.ricardokelmer.net/rkpalestras.htm




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