Moda 13/05/2016 - 15h33

Cronista do seu tempo

O estilista Ronaldo Fraga tem o dom de falar, de forma poética, sobre arte, questões políticas, meio ambiente, juventude e amor. Mais do que fazer moda, ele proporciona o que poucos se propõem: uma reflexão do presente
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Larissa Viegas larissaviega@opovo.com.br
Fotos: Alex Costa

Poucos estilistas no Brasil têm tanto carisma quanto Ronaldo Fraga. E a ideia de que ele é muito mais que um estilista só se torna mais real a cada contato. Ronaldo é daqueles homens que você consegue puxar conversa sobre qualquer assunto e ele, sozinho, o desenvolve de uma forma que suas falas saem quase como poesia. Sabe daquelas pessoas que você conversa desejando ter um bloquinho para anotar as suas frases? Pois esse é ele.

Ronaldo Fraga esteve em Fortaleza para participar, juntamente com mais dois grandes nomes da moda cearense (o estilista Lindebergue Fernandes e a designer Celina Hissa, diretora da premiada marca de acessórios Catarina Mina), de uma bate-papo sobre criação de moda durante o Dragão Pensando Moda, uma programação de cursos, palestras e workshops que integra o Dragão Fashion Brasil.

Memórias e histórias
Autor dos livros “Uma festa de cores – memórias de um tecido brasileiro” e “Ronaldo Fraga – caderno de roupas, memórias e croquis”, Ronaldo explica que os cadernos que deram origem à última obra nunca foram relevantes, tanto que os registros das primeiras coleções iam parar no lixo ou viravam presentes para as assistentes. Porém, hoje ele vê como um material essencial, um registro gráfico do processo. “Eu me coloco no lugar do estudante de moda nos anos 1980, o tanto que a gente sofria e padecia com a falta de registros. Hoje o que a gente tem ainda é muito incipiente, ainda é muito fraco, nós temos grandes nomes da moda brasileira que sequer são citados no meio acadêmico.”

Processo criativo
Pina Bausch, coreógrafa alemã, foi citada pelo estilista quando questionado acerca do seu processo criativo. “Ela dizia que não aguentava essa conversa. Para cada espetáculo, ela procura um tema, um lugar que não tenha transitado antes, que possa revirar do avesso e que cobre construções do processo de criação que eu nunca tenha feito. Isso já se configura um processo criativo.”

Para ele, apesar da rigidez do termo “processo”, o momento não tem nada de estanque ou duro. Visto como uma fase solitária e angustiante pelo estilista, ela é resolvida do jeito que melhor lhe convir. Por isso, hoje essa fase da criação é menos penosa e tem um prazo de validade, com a finalidade de não “ser angustiado a vida inteira”.

Vinda de todos os lugares, a criação é, para ele, como o título do livro do estilista Paul Smith: You Can Find Inspiration in Everything - And If You Can't, Look Again (Você pode achar inspiração em tudo. E se não achar, olhe de novo). A partir dessa premissa, todas as suas coleções foram criadas. “Me interesso por valores que hoje são caros ao nosso tempo. Eu acho que na moda é muito fácil você falar do passado e é muito fácil você tentar imaginar o futuro, mas a coisa mais difícil da moda é você olhar o presente. É você falar do tempo que está vivendo. O estilista tem que ser um pouco cronista do seu tempo.”


See now, buy now
Sistema que está a cada temporada de moda mais em alta, o “see now, buy now” (veja agora, compre agora) proporciona aos consumidores a oportunidade de comprar nas lojas as peças que foram vistas há pouco tempo nos desfiles. É uma possibilidade de vendas, mas também, para Fraga, é uma angústia a mais. Comparando a produção de moda com um bistrô, ele explica que a espera faz parte do processo de elaboração dos pratos, já que a comida é feita na hora é especial.  

“É mais uma opção de um mundo muito diverso. Só que as pessoas [os estilistas] precisam entender o que é pra elas, o que é para o cliente delas. Porque se elas saem ‘desembestadas’ tentando fazer isso quando o negocio delas é a moda com cuidado, fazer só porque a grande massa está fazendo, elas vão levar ferro.”

Efemeridade e gastronomia
Contra o preceito de que tudo tem que ser consumido e tudo tem um preço, o estilista critica os tempos atuais. “Vivemos um tempo da mercantilização da educação, da cultura, dos amores. Mas quando falo em Ronaldo pessoa física, eu viro para você e digo assim: É um momento de crise no mundo, uma crise de consumo da própria moda”. Para ele, a moda não é mais o foco principal, mas sim, a gastronomia. Para provar, ele cita a quantidade de programas de gastronomia frente a de programas de moda na televisão.

Mesmo com o futuro da moda sendo uma incógnita, ele diz que ela não vai deixar de existir e, em paralelo, afirma que há teorias que afirmam que o desfile vai retomar a importância que estava perdendo. As pessoas terão que se inspirar no desfile e ele vai ter que ser esmero e sedutor, emocionando o consumidor. Por outro lado, quem não souber fazer um desfile, não deve se preocupar. “Não é como se não vender depois do desfile, não vai vender nunca mais. As lojas vão continuar funcionando. Não é aquela coisa de quem não fizer tá fora.”

Interpretando as mudanças do mundo da moda com novos caminhos que surgem, Fraga diz que os profissionais são direcionados não só por questões econômicas, mas também históricas. “[A moda] tá o tempo inteiro ligada ao que o mundo está vivendo. E ele está em transformação.” Dentre as mudanças que ele viveu, ele exemplifica o seu quadro de funcionários, que chegou a ser composto por 120 funcionários e, hoje, possui trinta, produzindo a mesma coisa.

A verdade
Sem saber se o motivo do sucesso de seus desfiles é o olhar para o presente, o estilista constata que faz e pensa da mesma forma de quando começou. “Fiz uma constatação muito boa e uma muito ruim. A muito boa é que eu, hoje, falo exatamente o que eu falava naquela época. E a constatação ruim é que eu continuo fazendo a mesma coisa de lá de trás.” A diferença, para ele, é que no passado achavam justificativas para o que ele fazia. Hoje, seu trabalho é visto como o que o mundo quer.

“Acho que a vida inteira eu acreditei que um produto só tem vida longa se ele tiver verdade. Não tem ‘marqueteiro’ que sustente um produto, um governo, que segure nada. Uma hora a coisa vai furar. E nós queremos consumir a verdade, cada vez mais procuramos isso. Não dá pra ter um truque mais. Então aquela coisa de ´ah, a imagem é linda, a modelo é linda’. Mas é um trabalho escravo no Vietnã. Houve um tempo em que as pessoas não ligavam muito para isso. Hoje isso acaba com o império de uma marca. Então nós andamos muito.”

Polêmicas e dúvidas
Sem saber como será a reação do público. Assim é o desfile para o estilista. Um resultado que é uma dúvida, tendo como única certeza o que ele quer fazer. No último, apresentado na edição N41 – Verão 2017 do São Paulo Fashion Week, diz que esperava levar muita “pedrada”, devido ao tema que falava sobre os refugiados do mundo e a crítica a intolerância. “Eu tava discutindo algo que, com a rasa cultura de moda que a gente tem, as pessoas acham que não devem ser discutidas”, explica.

O tema soou, para muitos, distante. O ideal, eles disseram, seria falar da situação do Brasil. Por outro lado, para o estilista, existe algo muito maior no País e no mundo, a intolerância. Os conflitos mundiais, vistos antes como assuntos longínquos, hoje rompem fronteiras. “Somos todos refugiados. Os nordestinos já viveram isso. E hoje a gente vive no mundo e vive dentro do próprio país. A moda e a arte são os únicos dois vetores, talvez, que conseguem enxergar poesia em terreno árido, conseguem, naquela matança defasada, achar uma folhinha e pensar que aqui pode trazer poesia. Moda significa dar uma renovada e nela tem o desafio da gente trazer a crítica, a análise, o desconforto, mas aumentando a voz da poesia, porque só a poesia pode nos salvar.

Outro desfile que ele destaca por conta de sua polêmica foi o do Verão 2014, apresentado em 2013 e que trazia inspirações no futebol dos anos 1930, 1940 e 1950, onde discutia sobre a única vitória da mestiçagem no Brasil, o futebol, já que antes o esporte era praticado apenas pela elite brasileira e que, em seguida, os negros precisavam ser maquiados e ter seus cabelos alisados para participar das partidas.

Usando perucas feitas de palha de aço para chamar atenção para a questão (apresentada à imprensa nos releases da sala de desfile), Ronaldo Fraga foi acusado de racismo e precisou responder a processos judiciais. “No entanto, eu tinha certeza que o preconceito era com a própria moda, porque se aquela história estivesse na exposição de arte contemporânea, no teatro, no cinema, tava ótimo. Mas na moda as pessoas querem ver é a modelo loira, anglo-saxônica, de saia de oncinha, com a corrente dourada, com a música eletrônica gritando.”

A ignorância e o desentendimento são, para o estilista, características dos tempos atuais, que ele chama de “tribunal do Facebook”, onde você se expõe de uma forma e as pessoas entendem como querem. Apesar de tais desentendimentos, Fraga não se sente “podado”. “Eu tenho couro de dinossauro! (risos) Eu não me condiciono a isso de jeito nenhum. Você tem que entender o que é a ignorância do seu tempo, a cegueira do seu tempo, e escolher se você vai ser um cego. É claro que eu leio, escuto, olho, mas eu pondero.” E diante das críticas, ele afirma não mudar sua “rota”, pois ser aceito por todo mundo custa um preço que, às vezes, “é vender a sua alma. E esse preço eu nunca paguei.”

Trabalho solitário
O trabalho do criador, do autor é solitário. É assim que o estilista define o seu trabalho. Para ele, a autoria nunca vem da massa. Assim, para ser autor, “é entender o seu ofício. Isso é muito mais do que a forma de se ganhar dinheiro. Daqui a seis meses, um ano, dois anos, dez anos, você não vai lembrar quanto você ganhou para esse trabalho, mas você vai ganhar lembrando ou entendendo o quanto você se transformou sendo verdadeiro com o seu ofício e eu acho que cada vez mais a gente tem que falar sobre isso.”

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