REVISTA O POVO CARIRI 13/07/2016 - 14h34

Fé em família

A prática da Renovação do Sagrado Coração de Jesus e Maria, ainda tão presente no Cariri, já percorre gerações, unindo famílias por meio da fé
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Sabryna Esmeraldo sabryna@opovo.com.br
Foto: Helio Filho

Desde criança, Maria José Ratts de Almeida vivenciou a religiosidade, ensinada já em casa pela avó, que levava a neta para missas desde que ela tinha cinco anos. Participação em eventos religiosos variados também fez parte da educação que Mazé, como é conhecida, recebeu da mãe e da avó. E a fé, tão presente na história da família, manteve-se também em tradições que já duram algumas gerações, como é o caso da Entronização e Renovação do Sagrado Coração de Jesus e Maria.

“Eu sou ministra da eucaristia e faço questão. Esse mês é todo para ele”, conta a técnica em assuntos educacionais, referindo-se ao mês de junho, período dedicado à celebrações do Sagrado Coração de Jesus e Maria. Após uma mudança recente de endereço, inclusive, uma das primeiras preocupações de Mazé foi logo entronizar uma nova imagem no novo imóvel. No dia 17 de junho deste ano, então, ela realizou a primeira Renovação dessa imagem, reunindo cerca de 100 convidados.


Sob a benção
A família que deseja estar sob as bênçãos do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria deve seguir duas etapas. Em um primeiro momento, deve ser realizada a Entronização. Na residência da família, um padre abençoa o quadro ou imagem, que deve ser colocado em um lugar de destaque da casa. “Entronização significa colocar no trono, no caso, as famílias colocam no trono de um lar, no lugar de honra da casa, como a sala de visitas”, explica Armando Lopes Rafael, chanceler da Diocese de Crato, licenciado em história, pela Universidade Regional do Cariri (Urca), autor de artigos e livros sobre personalidades e fatos históricos do Cariri cearense.

A tradição, então, completa-se com a Renovação, que deve ser feita em todos os anos seguintes, na mesma data em que foi feita a Entronização. É feita uma novena e a família recebe parentes e amigos para a ocasião. “No aniversário dessa Entronização, ocorre outra cerimônia litúrgica doméstica, em memória da primeira, conhecida como Renovação, ou seja, é feita a renovação das promessas feitas ao Sagrado Coração de Jesus”, explica Lopes. Segundo o historiador, em geral, as famílias escolhem datas especiais para Entronização, como aniversário de casamento ou data do santo de devoção. O mês de junho, por ser o mês em que se celebra o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria, também é um dos períodos em que a celebração mais ocorre.

Para Maria José Ratts, a Renovação vai além do agradecimento da família pelo ano que passou. “A gente já agradece o ano todo pelas graças, pelas bênçãos que a gente recebe. [Na Renovação] a gente não renova a imagem, a gente renova nosso coração, dizendo que Jesus é quem manda em nossa casa, ele é o rei da nossa casa. Somos nós que renovamos nossos corações com o coração de Jesus”, afirma Mazé.

A tradição
Uma das convidadas para a celebração na casa de Mazé, a funcionária pública Adalva Briseno da Silva tem grande apreço pela tradição. “Já fui a mais de 20. Gosto bastante. É uma forma de a família agradecer as bênçãos que foram recebidas durante o ano”, afirma Dalvinha, como é conhecida. Se for para eleger, entretanto, as renovações de que mais gostou, Dalvinha aponta as realizadas na zona rural da região, onde a tradição permanece com características das renovações de antigamente. “É uma maravilha ir aos sítios, com mesinhas com toalhinhas de fitilho ou rendadas, muitas flores, muitos quadros nas paredes, e é muito participativo, é uma festa para eles. Eles convidam familiares, amigos. Depois, de costume, serve-se algo, como um café, sequilhos, bolachas”, detalha.
Foto: Helio Filho
Maria José Ratts de Almeida

Segundo Armando Lopes Rafael, o Cariri é, hoje, a única região do Brasil a conservar de forma persistente, em grande número de famílias, a Entronização e a Renovação do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria. De acordo com o historiador, a tradição chegou ao Ceará com os franceses. Com a criação da Diocese do Ceará, o primeiro bispo, Dom Luís Antônio dos Santos, teria trazido, da França para Fortaleza, uma comunidade de padres da Congregação Lazarista, para administrar o Seminário da Prainha. Conforme Lopes conta, esses padres iniciaram a divulgação da devoção ao Sagrado Coração de Jesus entre as famílias da capital da Província. Um dos alunos dos padres lazaristas foi Cícero Romão Batista, o Padre Cícero, que levaria as solenidades de Entronização e Renovação para o Cariri.

“Aqui no Cariri, até como forma de atrair bom público para essas solenidades litúrgicas domésticas, as famílias eram incentivadas a oferecer aos presentes, após a solenidade religiosa, ou um jantar ou um lanche”, aponta o chanceler, sobre as características da tradição. De acordo com Lopes, as famílias mais abastadas ofertavam jantar com arroz, galinha assada, farofas de peito de peru, leitão assado, entre outros pratos. As famílias mais modestas ofereciam lanches, com opções da culinária da terra, como Aluá (suco feito com as cascas de abacaxi), bolo de puba (produto da mandioca), bolo de milho, café, beijus, filhós, canjica, pamonha etc. Hoje, com o que Lopes chama de “mudanças sociológicas inevitáveis”, a celebração já incorporou pratos como cajuínas, refrigerantes, salgadinhos, bolos, tortas e massas.

Como tudo começou
No século XVII, na localidade de Paray-le-Monial (França), conta-se que Jesus Cristo fez várias aparições para uma freira (hoje, Santa Margarida Maria Alacoque), a primeira em 27 de dezembro de 1673, quando Jesus teria dito à religiosa: “Meu coração está tão apaixonado de amor pelos homens, e por ti em particular que, não podendo mais conter em si as chamas de sua ardente caridade, é preciso que as espalhes por teu intermédio e lhos reveles, para que se enriqueçam com seus preciosos tesouros.” A Entronização surgiria, então, como forma de restituir Cristo à família e a família a Cristo, tendo como base as palavras de Nosso Senhor a Santa Margarida Maria: “Eu hei-de reinar por meio do Meu Coração. Abençoarei as casas onde a imagem do meu coração for exposta e honrada! “Farei reinar a paz em suas famílias!”

A terceira aparição, em junho de 1675, foi marcada pelo pedido de Jesus para que a Igreja Católica criasse uma festa especial para festejar seu Sagrado Coração. Ele anunciou, ainda, 12 grandes promessas para as famílias que honrassem a imagem de seu Sagrado Coração no lugar de honra de suas residências.
Foto: Helio Filho
Algumas imagens de santos de Maria José Ratts de Almeida

A tradição se espalhou pela França católica e, depois, pelo restante das nações católicas do mundo e, conforme explica Armando Lopes Rafael, historiador e chanceler da Diocese de Crato, a cerimônia evoluiu com o tempo. “A partir de 1917, com as aparições de Nossa Senhora em Fátima, em Portugal, introduziu-se também a entronização e a renovação do Imaculado Coração de Maria. Hoje se diz Entronização das imagens do Sagrado coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria”, explica.

Fonte: Armando Lopes Rafael, chanceler da Diocese de Crato, licenciado em história, pela Universidade Regional do Cariri (URCA), autor de artigos e livros sobre personalidades e fatos históricos do Cariri cearense.

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