Revista O POVO Cariri 24/03/2016 - 15h39

São João do Cariri

O meio do ano guarda a festa mais tradicional do Ceará, mas até que as bandeirinhas coloridas sejam penduradas para o São João, os quadrilheiros preparam a festa durante todo o ano
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Janaina Flor janainaflor@opovo.com.br
União Junina

O Brasil é marcado culturalmente por festas que são aguardadas com ansiedade pela população. Quem não passa o ano inteiro esperando pelas festas de São João? Seja pelo colorido, pelas comidas típicas ou para se encantar com a apresentação de uma quadrilha, a tradição da dança rebuscada trazida de Portugal adaptou-se no Brasil como uma festa caipira que, pela dança, comemora um casamento no dia do santo festeiro.

Para as pessoas que estão diretamente envolvidas com o festejo, a preparação acontece durante o ano todo. Quando uma temporada acaba, já é hora de começar os preparativos da que virá. Indo além da chita, renda e fita, a região do Cariri tem grupos de quadrilhas juninas que se destacam em competições do Estado, se colocando entre as dez melhores do Campeonato Estadual de Quadrilhas Juninas do Estado do Ceará, o Ceará Junino. São grupos independentes, criados e administrados por pessoas que se apaixonaram pela oportunidade de manter viva a tradição.

Do baião ao xaxado

egundo Kiko Sampaio, presidente da União Junina do Ceará, o movimento junino do Cariri na década de 1980 foi, sem dúvida, o mais importante do cenário estadual, mas com o passar dos anos foi perdendo importância, principalmente em termos quantitativos. Contudo, nos últimos cinco anos, a região do Cariri recuperou sua importância e relevância cultural no segmento “por conta dos lindos trabalhos realizados por suas quadrilhas juninas, além das valorizações e premiações nos eventos. Hoje vários grupos do Cariri têm projeção estadual e nacional."

As quadrilhas do Cariri não se limitam ao que é tradicional, já que os grupos que têm ganhado mais destaque são chamados de estilizados. A indumentária característica é cheia de glamour, com rendas, fitas, bordados e momentos de passos leves ao som de um baião cantado ao vivo pelo Regional, como é chamada a banda que viaja com os dançarinos.

A particularidade matuta, por sua vez, está presente em períodos das apresentações com pisadas fortes que lembram o xaxado dos cangaceiros. “As quadrilhas do Cariri são apreciadas pela maneira única de marcar o passo e pela garra e criatividade. Sem falar no sotaque inconfundível que dá um toque final nas interpretações dos casamentos matutos”, acrescenta Sampaio.

Gente integrada à luta
A Quadrilha do Gil é uma das mais tradicionais e antigas da região. Completando 36 anos ininterruptos de apresentações em 2016, o grupo está classificado entre os dez melhores do Estado. O presidente e fundador Gilberto Soares lembra que a ideia começou como uma brincadeira entre amigos e, para animar a comunidade, começou a fazer apresentações cada vez melhores e maiores.

A quadrilha junina, que hoje tem até 80 integrantes, leva o nome do fundador. “Um dos nossos brincantes foi nos inscrever no primeiro festival que participamos e nos cadastrou como Quadrilha do Gil.” Para que não aparentasse uma posse, Gil buscou outro significado para as três letras do apelido que deu nome ao grupo: Gente Integrada à Luta.

De acordo com o profissional, o gasto por temporada é de, aproximadamente, R$ 70 mil. Algumas vezes o grupo consegue contemplar os projetos nos editais do Governo do Estado, receber ajuda do poder público ou de instituições privadas. O custo do figurino fica, em media, por R$ 1.500 para o par de brincantes e para os destaques (noivo, noiva, rainha e marcador) o valor pode dobrar.

Mesmo com todas as dificuldades encontradas para manter viva a tradição, Gil é um apaixonado pelo São João e, principalmente, por fazer quadrilha junina. “Fui pego de surpresa, pois nem eu sabia que gostava tanto do movimento junino. Hoje, não sei como seria a minha vida sem o junino. Já deixei de terminar minha faculdade por duas vezes, a entrega é tanta que não tem preço.”

Arriba Saia
Fundada em 24 de maio de 2004, o grupo Arriba Saia começou com jovens que gostavam de danças culturais. No início, era uma pequena quadrilha de bairro, na cidade de Várzea Alegre, que fazia apresentações no Município e nos distritos. O grupo se apresenta com 20 pares, mas envolvido com o trabalho são, em média, 60 pessoas.

Administrada por dois irmãos, Érico e Ítalo Bastos, o Arriba Saia realiza promoções como bingo, rifa, aluguel de figurinos de temporadas passadas, e tem apoio de alguns empresários para conseguir o dinheiro necessário para a temporada junina. Os irmãos, além de administrarem o grupo, também participam como brincantes. Érico é o marcador, responsável pela liderança durante a apresentação, e Ítalo é o noivo.

O grupo recebe qualquer pessoa que tenha interesse de dançar, desde que tenha responsabilidade com os horários e aprenda a coreografia, mesmo aqueles que não sabem dançar o passo básico. “Antes de termos uma quadrilha para dançar São João, exercemos um trabalho social muito importante no Município. A gente ocupa o tempo ocioso dos jovens. Vale a pena continuar fazendo cultura porque tem muita gente que participa por amor, que se envolve, que tem vontade de difundir essa tradição.”, destaca Ítalo.

Os irmãos destacam que na visão da sociedade, quem dança quadrilha é um “desocupado”. “Hoje, quadrilha junina é uma das poucas culturas que envolvem dança, teatro, música, artes plásticas. Pra mim é um trabalho completo, uma cultura completa” explica Érico.

Felicidade certa

Laiane Ortiz, de 20 anos, foi a noiva da Quadrilha do Gil em 2015. A brincante tem uma preparação pessoal para aguentar a rotina de ensaios e também as apresentações com vestido pesado, salto alto, apliques no cabelo e arranjo na cabeça. “Cuido da alimentação, pois a dança exige que estejamos sempre saudáveis por conta do esforço ser grande. Cuido do cabelo e rosto, hidratando durante todo o ano por conta dos penteados e maquiagens por longo período.”

A rotina junina é cansativa, são muitos ensaios e apresentações. Ou seja, todos os dias penteado e maquiagem, além da apresentação que dura 35 minutos em quadra. Mas, para ela, qualquer sofrimento é esquecido e compensado quando a apresentação começa. “Nada supera a felicidade que sinto ao ouvir o som da sanfona, ouvir a cantora anunciando o nome da quadrilha. É uma explosão de sentimentos, uma felicidade que nos faz esquecer qualquer problema pessoal.”

“Dançar é minha vida”

Lanna Souza, 29 anos, é professora e radialista. Está no mundo junino há cinco anos e integra o grupo Arriba Saia há três. Conciliar a rotina de trabalho com os ensaios e apresentações é a maior dificuldade que a brincante encontra. “Para mim é sempre uma correria, mas faço com amor e satisfação. Já perdi domingos para ensaiar o dia inteiro, pegando passos. Eu acho que dançar é a minha vida.”

Dançando na posição de noiva, ela destaca que os vestidos são pesadíssimos e têm que ser bem acinturados, para deixar a menina modelada, e os penteados machucam muito. “Uma vez precisei colocar 70 grampos no cabelo para prender bem e não cair durante a apresentação”, conta. “Às vezes, eu quero desistir, mas quando penso que não tenho mais fôlego, lembro que muita gente está me esperando para dançar, para ver a minha quadrilha, e aquilo apaga todo o sofrimento que passei o ano inteiro.”

A avaliação das quadrilhas

Para não perder pontos os grupos juninos devem seguir certas orientações nos festivais. De acordo com as regras da União Junina do Ceará, os critérios avaliados são:

•  Cada quadrilha Junina tem 35 minutos para realizar sua apresentação (incluindo a encenação do casamento matuto);
•  O grupo é avaliado pela coreografia, evolução, harmonia, animação, figurino e casamento;
•  Para não perder pontos, o grupo deve apresentar, no mínimo, oito passos tradicionais;
•  Noiva e noivo são avaliados, individualmente, pela desenvoltura, interpretação, animação e figurino;
•  A rainha é avaliada pela animação, desenvoltura e figurino;
•  O marcador é avaliado pela desenvoltura, liderança, animação e figurino;
•  O repertório é avaliado a partir da letra, ritmo, relação com o tema do grupo e com a tradição da festa junina.

 

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