balé 26/02/2016 - 15h04

Direto para o mundo

Dos 34 anos de vida, Thiago Soares passou 15 imersos no balé clássico, com uma rotina de inúmeras horas de ensaios, malhação e viagens. O resultado? O posto de melhor bailarino do Brasil
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Larissa Viegas larissaviega@opovo.com.br
Fotos: Balletto/Divulgação

Indo contra os padrões, Thiago Soares sempre surpreendeu – a si, à família e aos especialistas em dança. Com 12 anos (uma idade considerada avançada para quem deseja atuar em dança), ele começou a praticar street dance. Pouco tempo depois, seus dons já começaram a ser notados, marcando o início da história do melhor bailarino do Brasil.

 

Aos 15 anos, passou a estudar balé clássico no Centro de Dança Rio e, aos 17, já ganhava a Medalha de Prata no Concurso Internacional de Dança de Paris. Os olhares aumentaram e, no mesmo ano, iniciou seu trabalho no Ballet do Theatro Municipal, conquistando, em pouco tempo, papéis principais em espetáculos como 'O Quebra-Nozes', 'Don Quixote' e 'O Lago dos Cisnes'. Era o começo de uma carreira histórica.

 

O carioca criado em Vila Isabel foi o primeiro bailarino brasileiro a conquistar, em 2001, a Medalha de Ouro no Concurso Internacional de Balé do Bolshoi, da Rússia, rendendo-lhe um estágio no renomado Balé Kirov. Para se ter ideia, em 100 anos de existência, a companhia só recebeu dois estrangeiros. Mas ainda não era o suficiente para o brasileiro.

 

No ano seguinte, Thiago Soares disse “sim” ao convite do inglês Royal Ballet e iniciou uma nova fase da sua carreira. Começando em uma posição mais baixa da hierarquia, ele deu início a mais um trabalho significativo até se tornar o que é hoje: o primeiro bailarino (cargo mais importante) da companhia.

 

Recentemente, em turnê pelo Brasil, em comemoração aos seus 15 anos de carreira, Thiago mostrou não apenas o seu talento, mas também a sua representatividade no cenário. Com quatro coreografias, o espetáculo conta com duas criadas especialmente para ele, a ‘La Bala’, do português Arthur Pitta, e ‘Paixão’, com a coreógrafa Deborah Colker, que “despendurou” as sapatilhas exclusivamente para Thiago. Para completar, o bailarino também lançou uma linha de roupas. Recupere o fôlego e confira agora entrevista exclusiva com o profissional:

 

O POVO - Você sempre fala que não sofreu preconceito, mas uma certa dúvida sobre viver da dança. Qual foi a reação da sua família quando você se profissionalizou, foi morar fora etc.?

Thiago Soares - Eu nunca sofri preconceito. É óbvio que a minha família tinha dúvidas se eu ia ganhar dinheiro, se eu ia me sustentar. E esse era o maior problema no meu início de carreira. Mas logo que eu comecei a viver disso e pude até ajudar eles um pouco, acho que esse fantasma foi embora. E, pelo contrário, acho que foi até uma reviravolta que o meu próprio pai, que sempre foi preocupado com isso, viu que eu realmente poderia me sustentar disso e ter uma carreira com a dança.

 

OP - Quando você percebeu que viveria da dança?

Soares - Quando comecei a me estabelecer com não só os meus professores dizendo que eu era bom, mas também pessoas de outros países. Acho que esse foi um momento crucial, que eu me dei conta: “olha, não são só meus amigos e minha família dizendo que eu posso viver disso, são outras pessoas”. Foi quando eu tive uma visão real de que não era só uma brincadeira de dançar. Eu fui representando o Brasil fora e ganhei medalhas. Aí realmente notei que não era só um hobby, mas uma possibilidade de virar uma profissão. 

 

OP - Como é a sua rotina de ensaios?

Soares - Meu dia a dia é uma loucura porque eu tenho que me dividir entre as minhas tarefas com o Royal Ballet, que eu sou empregado da companhia e tenho que fazer os meus espetáculos e ensaios com eles, e a minha agenda pessoal, que é de viagens, de espetáculos, a minha linha de roupa que agora é uma coisa que toma muito tempo do meu dia a dia. Então o meu dia são seis horas de trabalho entre academia, ensaio, treinamento, repetição (repetir os movimentos), ensaios com outras bailarinas... Enfim, a parte física me toma seis horas mais ou menos. E tem a outra parte que é papelada, encontros, reuniões, telefonemas, com os quais levo mais outras duas horas.

 

OP -Quais são os principais desafios que você enfrenta, fisicamente falando?

Soares - Manter a melhor forma possível. Quem está acostumado a ter uma carreira internacional ativa sabe o que é uma vida de avião, fusos horários, países diferentes... Desde que eu voltei para Londres, depois de ter estado no Brasil, ainda não parei. Foi Itália, Espanha, México agora. Então o corpo tem essas oscilações e é saber lidar com isso, com a fadiga, e estar no máximo na melhor forma física. Então mesmo que eu esteja cansado, quem está no México para ver um espetáculo não quer saber disso, quer pagar o ingresso e assistir o teatro da melhor forma possível. Então é isso, fazer esse malabarismo de conseguir fazer todas as coisas e me manter. 

 

 

OP - Em 2001, você conquistou a Medalha de Ouro no Concurso Internacional de Balé do Soares - Bolshoi e foi estagiar na Rússia. Como foi essa mudança?

Foi incrível. Na verdade, essa medalha sempre aparece na minha vida, porque foi um ponto muito crucial da minha carreira e até pela época, pelo que representa o concurso do Teatro Bolshoi. Hoje a gente tem uma relação muito mais presente, o Bolshoi agora tem uma escola no Brasil, tem muitos brasileiros lá. A gente tem uma relação. Mas na época não existia isso. A gente tava muito distante e o Bolshoi era um mito, onde brasileiros nem tinham chegado a ir ao concurso. Então foi um break through, foi um momento muito especial para mim, muito importante. Porque mudou a minha vida. O concurso do Teatro Bolshoi é o mais importante. Existem outros, mas de perspectiva diferente, acadêmica, escolar. Ele é um concurso que host os profissionais de qualquer lugar do mundo, então é um superprêmio e a gente não tinha essa medalha de ouro. Pra mim foi uma coisa incrível, que mudou a minha vida, e foi uma coisa que marcou muito, que ficou timbrado realmente.

 

OP - Como foi a sua recepção na Rússia e, em seguida, na Inglaterra?

Soares - Na época foi incrível. O concurso é muito sério em relação à dança. Então foi uma coisa muito marcante. Depois tive a oportunidade de morar lá um tempo, bebi de uma fonte incrível, porque a tradição russa no balé é incrível, tanto em Saint Petersburg ou Moscou. Então pra mim foi muito válido ter passado um período lá e ter tido esse contato com a dança direto. E já na Inglaterra eu cheguei na companhia para ficar, tinha planos para ficar. E foi um processo um pouco lento. Levei quatro anos até chegar a ser um artista protagonista, mas foi um processo fundamental, passar essas etapas desde o começo. Então foi um passo pra trás que me fizeram dar vários passos para a frente.

 

OP - Como é ter coreografias criadas para você por grandes nomes como Arthur Pita e Deborah Colker?

Soares - Incrível. Na verdade é isso que um artista no clímax quer, não só dançar coreografias tradicionais, que já existem e que eu já dancei várias vezes, mas também de pegar coreógrafos para criar obras para mim. E eu to tendo bastante sorte nos últimos três anos de poder ter gente como você mesmo falou, o Arthur Pita, o Christopher Rodgers-Wilson, a Deborah Colker, coreógrafos top de linha, trabalhando diretamente comigo e em coisas que vão ficar diretamente para mim, para o meu repertório. Então isso faz eu me sentir um privilegiado.

 

OP - Qual foi o espetáculo mais marcante da sua carreira?

Soares - É delicado falar no mais marcante. Sem dúvida esse último espetáculo que eu fiz no Brasil, pelo meu aniversário de 15 anos (Paixão), foi realmente de um quadro sentimental incrível. O artístico também, fizemos obras novas, tivemos uma recepção maravilhosa, foi realmente um espetáculo de sucesso. Mas ele teve uma história dentro do meu coração que eu acho que outros não tiveram, porque ele marcou um período, uma geração inteira, todos os meus 15 anos de tudo que eu passei, as bailarinas que eu dancei, as obras que eu dancei, as medalhas que eu ganhei, os lugares que eu passei. Então ele teve uma historinha pessoal pra mim e sentimental muito especial.

 

OP - Você fez uma parceria com a Balleto e lançou sua linha de roupas masculinas. Qual é a sua relação com a moda?

Soares - Levou um ano o processo de fazer a linha e é uma coleção destinada ao fitness e dança para o público masculino. Eu sempre tive vontade de fazer alguma coisa pra ele porque na América latina não tem muita roupa de dança feita para rapazes. A gente sempre pega carona nas coleções das meninas ou em coleções de esportes, que não são feitas para dançar, mas para treinar, malhar. Então eu queria ter feito uam coisa para esse público que eu faço parte. Eu me aliei a Baletto, que é da Luciana Mantegazza e virou uma amiga, uma parceira, e me sugeriu desenhar uma coleção. Há um ano eu embarquei nesse desafio e assim foi. Comecei a colocar um pouco do que eu gosto e do que eu acho que é relevante para o dia de hoje, para quem quer treinar, dançar, fazer ioga e também mergulhei no mundo de outras coleções, tirei algumas tendências da Uniqlo, da All Saints, Zara Homem. Eu entrei em um mundo meio que desconhecido para tirar influências de um mundo muito conhecido para mim, que é a dança.

 

OP - Quais são os seus próximos projetos?

Soares - Eu tenho algumas datas importantes em lugares diferentes do mundo, vou agora para o México para dançar daqui a três dias em um festival internacional, aí volto pra cá, fico aqui uns dias, e depois vou para Nova York dançar com a Deborah Colker o Paixão no Lincoln Center. E depois disso eu to indo dançar com o balé da China o Lago dos Cisnes. E um pouquinho mais tarde em Amsterdã e tenho aqui no Opera House um espetáculo Romeu e Julieta em outubro. Então eu to focado agora nessas datas, nesses espetáculos. Mas a longo prazo, daqui pra um ano, eu to trabalhando em um espetáculo que vai ser bem interessante, que eu acho que tem tudo a ver como eu cheguei na dança. Meus caminhos de dança urbana, lá atrás. Então vai ser um espetáculo que vai entrar no túnel do tempo e lidar com a minha vida hoje e no passado. É um projeto que tá tomando forma e tá ficando muito interessante e eu to muito empolgado para fazer. E vou passar aí no Brasil.

  

 OP - Nesse projeto você pensa em voltar com o hip hop ou trazer outros estilos?

Soares - É delicado eu definir, porque é um espetáculo que está bem aberto em relação ao movimento, mas é um espetáculo de dança urbana a princípio. Mas com a minha experiência de dança clássica e outras danças a gente vai se permitir novidades.

 

OP - O que é a dança para você?

Soares - É tudo. Falar de dança para mim não é só falar de um modo de vida. É falar de algo que trouxe as maiores felicidades da minha vida. A dança me define como pessoa, como individuo. Porém eu também desejo ter mais vida fora da dança para o dia que eu não puder mais dançar. Mas a dança trouxe tudo que eu tenho, tudo que eu uso, todos os lugares que eu vou e as coisas mais lindas da minha vida foi a dança que me deu. Então o meu trabalho é devolver para a dança o melhor de mim, sempre. 

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