Mobile RSS

rss
Assine Já
Literatura 06/03/2013

Francisco Carvalho: o adeus de um poeta universal

O poeta Francisco Carvalho faleceu na última segunda-feira, vítima de falência múltipla de órgãos. Natural de Russas, Carvalho deixa uma obra grandiosa que contrastava com uma vida discreta. Foram 32 livros publicados e, entre os prêmios, o da 1ª Bienal Nestlé de Literatura
IGOR DE MELO
Carvalho em fotos dos anos 90: o poeta dedicou a vida aos livros e à universidade. Nos últimos meses, colaborava com o projeto Memorial da UFC
Compartilhar


A manhã de ontem nasceu turva para as artes no Ceará com a perda de um dos imortais da Academia Cearense de Letras (ACL). Aos 85 anos, o poeta Francisco Carvalho morreu na noite da última segunda-feira, 4, no Hospital Gênesis, após falência múltipla de órgãos. Por volta das 18 horas, ele foi levado ao hospital passando mal e, às 23 horas, foi dada a morte. O poeta era natural de Russas e foi servidor da Universidade Federal do Ceará (UFC).


O velório aconteceu ontem à tarde, no Cemitério Jardim Metropolitano, na cidade do Eusébio (Região Metropolitana e Fortaleza). O corpo será cremado ainda hoje. “Vou reunir a família toda, ainda estamos pensando no que vamos fazer com as cinzas”, conta Dora Carvalho, viúva de Francisco. Segundo ela, o escritor já estava bastante debilitado devido a uma ferida no pé agravada pela diabetes. Discretamente, ele vinha sendo cuidado por enfermeiros na própria casa.


Autor de 32 livros, Francisco Cavalho era um intelectual ativo. Ao longo dos anos, colecionou uma infinidade de títulos, além de ter vencido vários prêmios, incluindo o da 1ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, em 1982, com o livro Quadrante Solar; e o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional, em 1997, com Girassóis de Barro. “Tem tanto livro aqui no escritório que não sei nem de onde vêm”, relata a esposa, orgulhosa dos estudos do companheiro, com quem completaria 54 anos de casada em 2013.

 

Universidade

Para o poeta, a universidade, sem dúvidas, era seu maior recanto. Desde 1965, esteve participando das atividades em ambientes acadêmicos da UFC. O reitor Jesualdo Pereira Farias ainda contava com a contribuição do poeta para a implementação do Memorial da UFC, que aos poucos vem sendo construído e ficará disponível para visitação em diversos espaços. “O Francisco, durante muito tempo, foi secretário dos órgãos superiores da universidade. Era uma pessoa preocupada com a preservação da instituição. Temos escritos importantes narrando uma historia da UFC e o pensamento dele, colocando sua visão sobre problemas da universidade, que ainda são atuais”, relata o reitor.

Conhecido por ser um homem tímido e desprovido de vaidades, Francisco dificilmente dava entrevistas. Contudo, em 2007, ao Vida & Arte, não hesitou falar do seu amanhã. “Estou numa faixa etária em que as pessoas costumam morrer. Não se trata de uma questão de pessimismo. Velho otimista não passa de uma fraude. Aos 80 anos, não existem razões biológicas, nem ontológicas para uma pessoa posar de otimista. Nessa idade estamos à mercê do imponderável. Um minúsculo trombo nas artérias erosadas, e tudo desmorona. E um velho não tem o direito de ignorar quando o bonde chega ao fim da linha”, afirmou.


A pesquisadora Mailma Vasconcelos possui três livros publicados sobre a obra de Francisco e confirma que, entre as temáticas, sempre havia espaço para refletir sobre vida e morte. “Lamento porque ele não teve o reconhecimento que merecia, ele não era um poeta do Ceará ou do Brasil. Ele não se diferencia de Manuel Bandeira ou Fernando Pessoa. Era um poeta universal. Ele ia do soneto ao cordel ou à prosa poética”, destaca.


Firme, a esposa Dora relata que o marido deixou tudo preparado para o momento da partida. “Já estava tudo pago, ele organizou tudo, e pediu para ser cremado. Era um homem íntegro, bom marido, bom pai”, comenta. Francisco deixa três filhos, oito netos e quatro bisnetos. “Ele ficará sempre vivo para as pessoas que o amam e para os leitores de sua belíssima poesia. Seria importante a edição de sua obra completa e um seminário para estudos de sua poesia com a produção de nova fortuna crítica”, sugere a escritora Ana Miranda.


Pedro Henrique Saraiva Leão, presidente da ACL, lamenta a perda do poeta, que, desde 1996, ocupava a cadeira número 31. “Nossa relação é antiga, de respeito e admiração. Ele fez resenhas de alguns livros meus. Francisco era o maior poeta vivo do Ceará. É uma lacuna imensa para o Estado porque ele se renovava, tinha criatividade como poucos no Brasil”, afirma.


O secretário de cultura de Fortaleza, Magela Lima, também se manifestou sobre a despedida do poeta. “Fortaleza, entre os seus muitos privilégios, ganhou de Russas o presente da vida e da poesia do mestre Francisco Carvalho. A cidade fica órfã de seu silêncio e talento desafiadores. Nossa sorte é que a arte não tem fim”, conclui.

Compartilhar
espaço do leitor
Nenhum comentário ainda, seja o primeiro a comentar esta notícia.
0
Comentários
300
As informações são de responsabilidade do autor:

Mais comentadas

anterior

próxima