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Legado 12/09/2012

Boêmio romântico

Longe do O POVO desde o último dia 8 de agosto, Airton Monte despediu-se em definitivo na última segunda-feira. Um câncer vitimou nosso cronista, deixando saudades muitas e um legado de histórias que ficam para sempre
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“Se eu disser que não tenho medo do tempo eu estaria mentindo. O meu medo do tempo não é o medo de morrer, não é o medo de envelhecer. (...) Aquilo que eu aprendi está aprendido. Mas tanto na medicina quanto na literatura, meu medo é o de ficar obsoleto. De ficar um velho gagá. Aqueles antigões, parados no tempo, sem diálogo com ninguém, que passam a vida num tempo ilusório, um tempo passado”, foi assim que arrematou o médico-escritor-tricolor-boêmio Airton Monte sobre sua relação bem particular com as questões da temporalidade, em entrevista publicada nas Páginas Azuis do O POVO, dia 8 de janeiro de um 2006 que começava a desabrochar.


Cearense da Capital, nascido em 1949 de parto normal e fruto do “descuido” de primeiro amor, Airton Monte viveu e foi criado em uma Fortaleza dos “territórios mágicos” da Gentilândia, do Benfica e do Jardim América. O encanto foi tanto que essa Cidade, esses espaços e seus personagens nunca deixaram de permear sua obra literária: um mundo cabia em todos eles. Médico psiquiatra por formação (profissão e sobrevivência), graduado pela Universidade Federal do Ceará em 1976, Airton estreou em livro com os contos de O Grande Pânico, publicado em 1979. Na década seguinte, lançou Homem Não Chora (1981) e Alba Sanguínea (1983). Em 2002, nas Edições Demócrito Rocha, escreveu o perfil do amigo e “companheiro de copo” Rogaciano Leite Filho. Foi também fundador da revista O Saco (1976, “revista mensal de cultura”) e do Grupo Siriará (com o Manifesto Siriará, de 1979).


Mas foi por meio da crônica, exercício que realizou cotidianamente neste caderno durante quase duas décadas, que Airton se notabilizou e ganhou a vida de uma Cidade com seu olhar peculiar. Em 5 de março de 1993 - completado exato um ano desde que o jornalismo, a literatura e a boemia fortalezense perdia um de seus ilustres representantes, o jornalista Rogaciano Leite Filho - Airton Monte foi anunciado como substituto de “Roga” nas páginas do O POVO. A estreia como colunista viria três dias depois, em uma segunda-feira (8), quando Airton pôde “recuperar o estilo e o espírito” que o amigo imprimiu nas páginas 2 do Vida & Arte, mas aplicando seu jeito próprio e o “espírito da molecagem cearense”. Na primeira das muitas que vieram, a coluna recebeu o título Congresso de Mulher e abordou questões as mais diversas sobre o universo feminino. Passados os anos de cronista, em 2004, Airton reuniu 62 textos entre 11 anos de conversas diárias com os leitores do O POVO e lançou o livro Moça Com Flor na Boca. Escolhido entre os dez livros para o vestibular da UFC de 2005, a obra colocou o escritor em contato com um público potencialmente novo, que pôde conhecer novos ângulos de uma “conhecida” cidade. Há dois anos, viria o livro de contos Bailarinos, sua última obra, retornando ao seu gênero de sua estreia depois de 25 anos sem publicar ficção. E o adeus do O POVO veio no dia 8 de agosto, com Domésticos percalços.

 

Yuri Tavares
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espaço do leitor
Luciene Bevilaqua 13/09/2012 10:57
Airton, O céu ficou mais bonito com a sua chegada. Saudades e a admiração da amiga, Luciene Bevilaqua
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ubiratan castro 13/09/2012 10:38
Admiravel, sob todos os aspectos desde a subida do Roga e ele assumiu tomei conheci mentos da qualidade impar dos seus escri- tos TODOS DA NOSSA FAMILIA ADORAVAM ELE Seus contos eram pene trantes e havia uma enorme identificaçao conosco ensinei aos meus filhos LER tudo q ele escrevia
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Katiane 13/09/2012 08:21
Acompanhava a coluna dele aqui no jornal. Vai deixar saudade =/
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STENIO FREITAS 12/09/2012 20:29
Confesso que fui pego de surpresa com a súbita morte de AIRTON MONTE. Aprendi com ele a sábia frase: "só dá valor a mãe, aquele que tem mãe asmática". Faz muito tempo que ele escreveu isso. Nunca mais me esqueci. Airton amou muito essa cidade, fez dela seu norte na literatura. Tinha muitos amigos.
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MARCOS LIMA 12/09/2012 19:46
Sinto profundamente sua falta. Meu amigo/poeta, deixo aqui minha cota parte de lágrimas sinceras pela sua ausência. Sentimentos de conforto a sua família que agora sofre no seu "bestuto suburbano". Seu amigo do Bom Jardim, Marcos Lima.
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