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Beco do Marat 30/06/2012

A solidariedade que desperta o dia

A história de Lúcia, Antônio e de um "menino" de 45 anos que fizeram brotar sentidos de solidariedade e delicadeza numa rua do Joaquim Távora
FOTOS: SARA MAIA
A caminhada até a calçada do casal: cegueira dificulta os passos. Foto do batizado que restitui o nome a Antônio Augusto Oliveira. A limpeza para atenuar o cheiro da urina: o coração fala mais alto.
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Seis horas da manhã. No Beco do Marat, nenhum movimento. O homem que fez a rua Eugênio Porto, no bairro José Bonifácio, ser conhecida pelo seu apelido de infância ainda dorme no seu quartinho dois por dois. O gorjear da passarada dá conta que o dia chegou. A dona de casa Luzanira de Medeiros, mais conhecida como Lúcia, 55, quebra a inércia do amanhecer. Com uma chinela, empurra a portinhola do quarto de Marat e avisa que é hora de levantar para tomar café. Do lado de fora, o felino de olhos cinzas também acorda para esperar seu desjejum.

 

Varrida a calçada da casa da esquina e apagada as luzes do prédio onde o marido, seu Antônio da Silva, 64, trabalha como zelador, dona Lúcia volta para cuidar de seu menino de 45 anos. Marat já levantou da rede e aguarda pelo primeiro banho do dia e pela troca de roupa para tirar o cheiro da urina que já se entranhou pelo quarto. Não é uma questão de incontinência, é a teimosia de um resistente ao sistema manicomial que não aceita usar fraldas. Mas dona Lúcia não liga.


Há oito anos, quando decidiu, junto com o marido, assumir os cuidados com o vizinho que acabara de perder a mãe (único membro conhecido da família), ela já sabia das adversidades que teria que enfrentar. “Se internar, já sabe, né? Entopem de remédio e ele fica é pior”, explica. O coração falou mais alto e a maternidade que nunca lhe brotou no ventre durante esses 35 anos ao lado de seu Antônio ganhou corpo quando a vida de Marat lhes foi entregue. Desde então, ela e o marido dão banho, comida, lavam roupa, cuidam para o rapaz não cair doente, pastoram contra a maldade alheia, dão amor, carinho, dignidade. Ano passado, conseguiram dar-lhe até novos documentos e convencer o padre a batizá-lo – ali na rua mesmo - com o nome que a mãe biológica havia dado: Antônio Augusto de Oliveira.


No processo do banho, um “passa a mãozinha no rosto... vou jogar água na tua cabeça... esfrega a barriga” é o que dá para se ouvir do lado de fora do quarto da eterna criança. A essa altura, dona Lúcia já havia jogado uma água no chão do dormitório para amenizar o cheiro de urina e seu Antônio já estava bem vestido e a postos para assumir os próximos passos da rotina. Uma senhora de bíblia na mão, passando em direção à missa, dá conta dos acontecimentos. “45 anos de idade e nesse sufoco. Ainda bem que ele encontrou esses anjos bons na vida dele”, observa, enquanto Marat aparece na porta de perfume no cangote e camisa para dentro. A festa é logo ali mais à frente, na calçada da casa de Lúcia e Antônio.


Os passos até lá são curtos e lentos e precisam ser guiados pelo cuidador. É que, há quatro meses, Marat está cego também. Depois de sumir de casa por uns dias, ele foi encontrado por um vizinho no meio de uma favela na Barra do Ceará. Sua visão, porém, ficou por lá. Os médicos dizem que é catarata, mas ninguém sabe explicar porque cegou tão rápido. Por gestos, Marat consegue dizer quando está com fome ou se quer pão com ou sem manteiga. Quando é para tomar café, água ou chá, o gesto universal de levar o polegar à boca. O gostar, ou não, também se faz de gestos. Um beijo e um afago na mão de dona Lúcia dizem tudo.

 

Anjos bons

Três pães e um copão de café com leite depois, Marat segue a apreciar quem passa pela rua. É hora de sentir o calor do sol. Se lhe convém, responde ao cumprimento dos que passam. Mas é mais certo não querer conversa. A não ser que sejam seus “anjos bons” falando alguma coisa. Para um transeunte qualquer ou repórter que puxa conversa enquanto ele enche a pança, nem aí.

 

A cena se repete todo santo dia. Na hora do almoço e do jantar também, mudando apenas o cenário do banquete, que nessas horas acontece na mesa do casal. A verba para manter tudo isso (mais aluguel do quartinho, plano de saúde, medicamentos, mais todas as outras despesas de Marat) vem de uma pensão de um salário mínimo que ele recebe mensalmente do Governo. Mas vem também da caridade do zelador e da dona de casa que, não raro, complementam os gastos do próprio bolso. “Se existe um significado para a palavra cidadão, ela se chama Antônio”, avisa o vizinho que passa, endossando o comentário de tantos outros. Mas é só. A parte do banho, comida e dignidade ficou mesmo a cargo dos dois.


Fardo, definitivamente, não é uma palavra que cabe nessa história. Ela não se encaixa às cenas em que um simples banho em outro é acompanhado de palavras de carinho, de cuidados que só se tem com os seus, de risos frouxos e olhar terno dos que fazem de coração. Caridade talvez seja melhor. Pois foi ela que dobrou a esquina da rua Eugênio Porto e transformou o Beco do Marat na viela onde a palavra delicadeza se esconde em um quartinho dois por dois e sai para brilhar sempre ao primeiro raiar do sol.

Naara Vale naara@opovo.com.br
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espaço do leitor
Bruna 22/10/2012 16:32
Conheço o Marat desde criança, morei minha vida toda perto da Eugenio Porto e é muito lindo ver tanta solidariedade e carinho. Parabéns ao seu Antonio e Dna. Lucia e Parabéns à Naara pela belíssima matéria.
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Franco Roberto 01/07/2012 16:42
Esse é o tipo de reportagem que deveria ganhar a primeira página do jornal, parabéns a Naara Vale. Parabéns também a dona Lúcia e seu Antônio. Sabemos que o homem é a imagem e semelhança de Deus, então dona Lúcia e seu Antônio estão cuidando da criação de Deus. Com certeza serão recompensados.
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Lívia Mesquita 01/07/2012 15:22
Parabéns pela reportagem cheia de emoção, Naara. Precisamos de jornalistas que são gente além de simples práticos em escrever textos que respondam a 5w...
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Tatiana Sampaio 01/07/2012 03:33
Este é um lindo gesto de amor ao próximo, coisa rara atualmente, pois infelizmente impera o egoísmo!
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juca 01/07/2012 00:17
Só porq é macho!kkk não acredito q existam pessoas boas q façam o bem a ninguém! se o fzer terá um interesse por trás! cearense ñ presta! faão
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