Eduardo Eloy esbarrou na xícara e derramou café num desenho sobre a mesa do ateliê. Começava ali uma série de 120 obras que misturam desenho, pintura, frases e outros delírios estéticos tomando como ponto de partida essa “aguada de café”. A técnica, usada desde a Idade Média, gera uma infinidade de tons da mesma cor diluindo a matriz. Eduardo atualizou a proposta usando um elemento inusitado do nosso cotidiano. “É meio aleatório, mas eu conduzo, deixo escorrer para um lado, evito outro”, conta o artista plástico numa visita a sua exposição individual Nova Visitação Desenhos, em cartaz até 18 de março no Museu de Arte Contemporânea (MAC), do Centro Dragão do Mar.
Sobre a aguada, Eduardo trabalha com nanquim, pincel, caneta de CD (que o ajuda a demarcar espaços de ruptura) e grafite. Esfrega o nanquim com o dedo, borra com papel toalha. Usa o nanquim como tinta, com pinceis. Amarra o grafite na ponta da caneta com uma liga. Vai experimentando novas técnicas, que é o que gosta de fazer.
Mestre dos papéis - Eduardo é professor nessa área – o artista escolheu um cânon de 250 gramas que pode ser molhado sem problemas. Os primeiros trabalhos da série, do fim de 2009, são mais limpos, não têm palavras nem frases escondidas. À medida que Eduardo vai avançando na experimentação, os desenhos vão ficando mais caóticos, com menos espaços de respiro e cheios de frases obscenas que o autor risca de propósito, por vergonha, deixando o público doido para adivinhar.
“São ideias, frases de amor, coisas obscenas. Escrevo por cima por medo que reconheçam”, confessa. A inspiração para os desenhos vieram de uma viagem de consulta e pesquisa ao norte da Itália, Grécia e Bilbao, onde Eduardo foi conhecer o famoso Museu Guggenheim. “É uma analogia do trabalho do jovem que fui e do homem que sou agora. Somos seres humanos em constante superação, fui me revisitar ao pé da letra”, conta Eduardo. Nem era para ter virado exposição. Não era o propósito. Mas José Guedes, curador do MAC, viu um dos desenhos que Eduardo trazia no carro e achou que o público também tinha que vê-los. As 70 obras escolhidas estão em três salas. Eduardo gosta da definição do amigo e também artista plástico Hélio Rôla. “Ele disse que elas formam um todo, mas com sua individualidade”, comentou.
Trabalhando muito próximo da curadoria de José Guedes, Eduardo sugeriu as paredes laranjas que conferem uma luz aconchegante e cuidou de destacar os desenhos das molduras. “Trabalho para que as pessoas tenham a melhor visão possível das obras”. É preciso se demorar um pouco mais para perceber as sutilezas dos desenhos que não têm títulos, justamente para evitar a tentação de ficar procurando figuras ou relações diretas nas peças. Algumas foram feitas ao mesmo tempo, outras aprimoram a técnica da anterior. Eduardo gosta de observar as reações ao seu trabalho. Em alguns domingos, circula discretamente pelo museu. “Gosto de ver as pessoas descobrindo coisas que nem eu vi”.
Quem
ENTENDA A NOTÍCIA
Eduardo Eloy tem 32 anos de carreira. É desenhista, gravador, pintor, cria em processos digitais e fabrica papel. Estudou no Parque Lage, no Museu de Arte Moderna e na Fundação Calouste Gulbenkian. Nos anos 1980, participou do Grupo Aranha, que produziu vários murais na cidade.
SERVIÇO
Novos Desenhos Visitação
O quê: Exposição de Eduardo Eloy.Quando: De terça a quinta-feira, das 9h às 18h30. De sexta a domingo, das 14h às 20h30. Fechado para manutenção na segunda-feira.
Onde: No Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema)
Gratuito
Outras info.: 3488 8622
Veja o jornal de hoje e os cadernos
Copyright © 1995-2012