Desde o início, o longa-metragem O Artista deixa claro seus códigos de imitação do cinema mudo hollywoodiano dos anos 20. O formato da projeção é 4:3. A imagem é em preto e branco. Intertítulos ou cartelas substituem os diálogos do filme, que é preenchido por trilha instrumental (na época do cinema mudo, a música era tocada ao vivo por uma orquestra dentro do cinema). A narrativa tem um galã do porte de Rodolfo Valentino (não é à toa que o nome do personagem é George Valentin).
Até certo ponto, a pergunta que surge é: O Artista resgata o cinema mudo apenas como fetiche? É somente uma forma simpática de fazer cinema em tempos onde o 3D é a tônica dominante? Ao longo do filme, a pergunta leva a dois caminhos diferentes e possíveis de interpretação.
O primeiro caminho diz respeito ao que o filme significa para seu contexto. O que uma produção sobre um astro do cinema mudo que fracassa por não se adequar à novidade dos filmes falados pode nos dizer sobre a situação atual de Hollywood? É bem verdade que, de Meia-Noite em Paris a Cavalo de Guerra, o saudosismo é evidente, além de todos os esforços de remakes e relançamentos de blockbusters antigos em formato 3D. No entanto, O Artista não se justifica apenas como parte de uma onda retrô que invadiu o cinema industrial.
A busca pelo passado em O Artista parece ter motivações mais complexas. No momento em que a indústria cinematográfica é seduzida por aparatos tecnológicos cada vez mais sofisticados e por rostinhos cada vez mais novos que agradam o público infanto-juvenil (basta saber que as melhores bilheterias de 2011 foram continuações das franquias Harry Potter, Transformers e Crepúsculo), O Artista expõe essa crise em sua própria narrativa. O protagonista George Valentin (Jean Dujardin) é o astro excluído pelos estúdios por recusar a novidade (o cinema falado) e por ser velho demais para o frescor das novas produções que estavam em busca de rostos belos e jovens.
Portanto, O Artista parece ser um tapa na cara da nova Hollywood, que simplesmente exclui quem não se adequa a seus padrões de mercado. É claro que o diretor francês Michel Hazanavicius não radicalizou tanto.
Se assim fosse, teria deixado seu herói na amargura eterna e entregue à loucura feito Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder. Hazanavicius optou por salvar seu protagonista graças à generosidade de uma linda mulher – a jovem Peppy Miller (Bérénice Bejo), o sinônimo do rostinho jovem, da namoradinha da América que agrada o star system hollywoodiano. Ou seja, se você se adequa, tudo fica bem. Como mostra o musical Cantando na Chuva (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly.
É aí que reside a segunda interpretação do filme. O Artista pode ser visto como uma história de amor entre George Valentin e Peppy Miller. É um melodrama com direito a sequências cômicas e românticas: como a do encontro casual no estúdio, em que Valentin se encanta pelas pernas dançantes de Peppy; ou a da gravação da cena com os dois em que são rodados vários takes, por causa da desconcentração de Valentin.
Outra participação que dá o ar da graça: é o cãozinho Uggie, que rouba várias cenas do filme e engata a inocência necessária para que a trama faça sucesso. Por ter personagens tão cativantes, O Artista agradou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Recebeu 10 indicações ao Oscar e continua sendo o favorito ao prêmio de melhor filme.
SERVIÇO
O que: O Artista (The Artist, FRA/BEL, 2011), de Michel Hazanavicius
Com Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell e Penelope Ann Miller.100 min. 14 anos.
Onde: em cartaz no Multiplex Iguatemi 4 (leg), às 13h40, 16h, 18h10, 20h20.
Camila Vieira
camilavieira@opovo.com.br
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