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ENTREVISTA 28/01/2012 - 17h00

Mais que Zé Pequeno

Morando ao lado da família, mantido na Cidade de Deus e sem cogitar morar em outro lugar. Passados dez anos desde que encarnou o icônico Zé Pequeno no longa de Fernando Meirelles, Leandro Firmino é só calmaria ao apontar os rumos que seguiu na vida
DIVULGAÇÃO
Leandro Firmino da Hora que interpretou o bandido Zé Pequeno em cena do filme

 

Chega eriça os pelos do braço você completar a ligação e do outro lado atender aquele vozeirão de sotaque carioca que deu feições a um dos grandes vilões do cinema nacional. A primeira pergunta, básica, confirma ser Leandro quem atende, sendo acompanhada do medo de que a resposta fosse “Leandro o c*, meu nome é Zé Pequeno, p*!”, seguido duma saraivada de balas. Nem Zé, nem Dadinho, seu nome é Leandro Firmino da Hora e ele é ator. Aos 33 anos, ele continua na comunidade onde não apenas morou desde cedo e que lhe viu crescer, mas que também o ajudou a fazer sua fama e batizou o longa do qual seria antagonista: Cidade de Deus.


Dez anos depois, Leandro pode ser visto em participações em programas televisivos como em um episódio do global A Grande Família no ano passado, sempre buscando fugir do estigma do bandido imposto por Zé Pequeno, que faz quase esquecer a tranquilidade no compasso da voz do ator. Em agosto (ou setembro) deste ano, ele estreia a comédia Totalmente inocentes, de Rodrigo Bitencourt, e que mostra um lado mais alegre das favelas cariocas – no caso, do morro Santa Maria. Em entrevista ao O POVO, atendida diretamente da Cidade de Deus, Leandro conta um pouco do que viveu e do que vive dez anos após o sucesso.


O POVO – Dez anos depois, como você avalia o impacto de Cidade de Deus?

Leandro Firmino – É incrível. Cidade de Deus acabou se tornando um filme inesquecível para as pessoas. Não só em nível nacional, como internacionalmente. Sempre que encontro pessoas de fora daqui, comentam como o filme foi um boom na Europa e que nos Estados Unidos ele é muito comentado. É algo que se mantém sempre atual, sabe? Quem se assiste pela primeira vez fica impressionado. Dez anos depois e o filme é muito vivo ainda. É muito recente.

OP – E a sua vida hoje, mudou muito?

Leandro – Mudou porque antes do filme nem tinha intenção de trabalhar como ator. Eu sempre gostei de audiovisual, de cinema, mas não pensava em atuar. (O filme) Transformou a minha vida. Ao contrário da galera envolvida, mais ligados ao Grupo Nós do Morro, eu não vinha de nenhum projeto ligado ao teatro. Eu comecei numa oficina para atores focado no exclusivamente em Cidade de Deus. No colégio, inclusive, a gente tinha aulas de teatro sempre. E eu sempre matava essas aulas (risos).

OP – Você acha que já superou a marca que Zé Pequeno deixou na sua vida?

Leandro – Assim, eu não culpo (quem que me reconhecem como a personagem) as pessoas porque o filme é muito forte. Sei que sou suspeito para falar, porque fiz parte do processo, mas é algo que deixa uma marca. As pessoas no Brasil ainda não conseguem tanto diferenciar o ator do personagem, até porque muitos não têm uma cultura audiovisual muito apurada. Mas hoje, algumas pessoas me encontram na rua e reconhecem outras personagens que interpretei, não apenas o Zé Pequeno. Outro dia fiquei impressionado com uma menina de sete anos que me viu e veio me dizer “você é o cara do filme” e eu perguntei, “qual a sua idade?” e ela disse que ia fazer oito anos e que a mãe tinha passado para ela e para os irmãos. Fiquei impressionado, sabe? A mãe devia ter o quê? 15, 16 anos na época do filme, nem sei, e ficou marcada por aquilo. Eu de verdade não me incomodo (por ser confundido com o Zé Pequeno), eu até entendo.

OP – É verdade a história de que você teria se recusado a encontrar o (presidente dos EUA Barack) Obama pessoalmente? Como foi isso?

Leandro – Na verdade não foi bem assim. Eu não me recusei. O que houve foi que com todo esse buchicho pela presença do presidente na Cidade de Deus, me convidaram para encontrá-lo por causa do impacto do filme. Mas eu tinha outro compromisso. Eu realmente não tinha como estar presente. O horário batia com o que eu havia marcado e eu deixei de ir.

OP – Se não tivesse surgido Cidade de Deus e o Zé Pequeno, onde você acha que estaria hoje?

Leandro – Eu realmente não sei. Talvez estaria de militar na Aeronáutica, não sei. Eu não penso muito nisso, mas com certeza seria muito diferente. Na época do filme, eu tinha 23 anos e não sabia muito bem o que fazer da vida. Sabia que tinha que ir atrás de faculdade, continuar estudando e trabalhar para ganhar a vida. Quando surgiu a oportunidade da oficina do filme, era algo que eu sentia que podia mudar tudo. Eu sabia que podia mudar minha vida, mas eu não sabia como e não sabia que ia ser algo tão grande.

OP – Você ainda mora na Cidade de Deus, certo? Já cogitou se mudar?

Leandro – Não nasci aqui. Nasci num hospital no Leblon, mas desde muito cedo moro aqui. Fui criado aqui. Cheguei a morar dois anos em Realengo, mas não dá (para viver longe). Eu gosto daqui. É uma comunidade com uma energia muito boa que nunca encontrei em outro lugar. Mesmo que digam que em outras comunidades do Rio sejam também assim.

OP – O que de mais diferente, de mais marcante, Cidade de Deus, o filme, lhe proporcionou?

Leandro – De vez em quando acontece alguma coisa bem marcante. Quando viajo para fora, por exemplo, para falar do filme, sempre tem algo legal. É sempre uma experiência muito nova. Ano passado foi na Bolívia, no 11º Festival Internacional de Cine Digital (Fenavid). Já me chamavam há uns 2 anos e só pude ir no ano passado. E ainda é tudo muito vivo lá, é incrível. Ainda se fala muito do filme. Logo depois de Cidade de Deus, surgiram outras obras muito importantes para a retomada do cinema nacional, lógico, mas Cidade tem algo que é dele muito dele. É por isso que o filme é considerado um divisor de águas, foi ele que deixou claro para o cinema nacional que voltamos a existir.

OP – Como a sua família lidou com o seu reconhecimento, a sua fama?

Leandro – Por incrível que pareça, eu continuo sendo o Leandro filho, neto, irmão. É tudo o mesmo. Lógico que meu pai e minha mãe ficaram muito felizes e ainda mais surpresos. Na época das gravações, eu era muito tímido, muito calado e surgi com isso de fazer cinema. Para eles foi uma situação de felicidade e para mim, que continuo trabalhando até hoje com isso (dramaturgia).

OP – E o estigma do bandido, você acha que lhe persegue após uma personagem como o Zé?

Leandro – Logo depois de Cidade de Deus, fiz muita coisa diferente, programa de humor como A diarista (Leandro interpretou Figueira em quatro episódio da comédia, em 2004), Mano a mano (deu vida a Jonas Guevara). Graças a Deus tive oportunidade de fazer outros tipos de personagens, que não o bandido. Eu sempre procuro um novo caminho. Mas nada se compara ao Zé Pequeno, nada teve tanta repercussão quanto ele. Ele tem uma energia, um vigor físico muito grande. Era algo do momento. Era algo que eu vivi ali. Acho que hoje não conseguiria fazer como fiz. Hoje sou mais velho, mais sensível, não sou mais o jovem de 23 anos da época. Cidade de Deus foi um filme que não fala apenas de uma vida, mas de várias vidas que viveram indiretamente isso. O filme tem uma parcela desse boom de cinema na periferia, filme de favela. Ele impulsionou muitos meninos a trabalhar com cinema, teatro, televisão. Não só a película, com todos os seus créditos, mas toda a repercussão que houve.

 

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