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Os Ferreira Gomes 21/01/2012 - 14h00

Poder partilhado e concentrado

Conceitualmente, o governo Cid Gomes não se enquadra como oligarquia. Mas mantém características comuns aos grandes ciclos hegemônicos no Ceará ao longo do século XX

Considerada a etimologia do termo – governo de poucos – nenhum ciclo da política cearense se distancia tanto do conceito de oligarquia quanto a administração Cid Gomes (PSB). Afinal, como o próprio governador gosta de lembrar, jamais tanta gente diferente e tantos grupos distintos e até tradicionalmente adversários estiveram reunidos no mesmo arco de aliança.

 

O conceito tradicional de oligarquia vincula ainda essa forma de dominação à articulação necessária entre poderes político e econômico. Também nesse aspecto os Ferreira Gomes se distanciam da estrutura oligárquica, conforme tradicionalmente concebida. Nesse aspecto, diferem do ex-padrinho político do clã – Tasso Jereissati (PSDB). Os irmãos que hoje comandam a política do Ceará não são empresários, não têm envolvimento em atividades econômicas, tampouco possuem grandes fortunas, a despeito das excelentes relações com os setores mais influentes do empresariado. São profissionais da política. Não se enquadram, portanto, nos dois principais aspectos definidores do conceito.


O fato de o principal eixo decisório está nas mãos dos irmãos Cid, Ciro e Ivo é recorrentemente apontado como reedição das arcaicas estruturas de poderio familiar. O governador costuma reagir com irritação a tal questionamento. Argumenta que os três não podem ser condenados por serem parentes e gostarem de política. De fato, poderia até caracterizar nepotismo – embora o Supremo Tribunal Federal assim não entenda. Mas, definitivamente, não é suficiente para caracterizar oligarquia.


Passado vivo


Por outro lado, há aspectos que aproximam a atual administração e as tradicionais forças que se estabeleceram no Ceará ao longo do século passado. O modo de construção da hegemonia mantém muitas das características comuns a todos os ciclos dominantes que conseguiram se estabelecer de forma duradoura na história da República no Ceará. Conforme mostrado nas últimas páginas, poucos desses momentos se caracterizam como oligarquias em todas as suas nuances do conceito definidas pela ciência política. Mas, em menor ou maior grau, aproximaram-se dessa forma de dominação, pela concentração de poder em círculos bem definidos, pela negação do diálogo, o autoritarismo – também em gradação variável – e pela tentativa gradual de eliminar os focos de resistência.


No caso específico da atual gestão, os acordos políticos e a partilha de cargos promovida por Cid não são propriamente divisão do poder. Todas as definições cruciais são tomadas por um círculo bastante estrito.


Constituiu-se um grande pacto político que entregou espaços governamentais, mas não compartilhou o processo de tomada de decisões. A adesão do grande número de aliados não significou, para eles, a conquista de poder real, mas a obtenção de benesses localizadas, concedidas pelo círculo restrito que gere de fato o Estado. Em troca, penhoraram a obediência.


A extensão do domínio levou ao processo de eliminação dos possíveis focos de oposição. Deu certo até certo ponto. Os embates mais duros se deram com aliados, sobretudo na figura da prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins (PT). Mas não foi da política partidária, e sim dos servidores públicos – destacadamente professores e policiais – que vieram as maiores manifestações de descontentamento.


A coalizão governista se tornou tão ampla que encontrou os adversários entre os próprios parceiros e nos funcionários que compõem a máquina do Estado. De dentro da própria base de apoio brotaram os polos de insatisfação e contestação que tiraram a paz administrativa – a meta maior, e atualmente frustrada, de toda a intrincada operação política montada pelo Palácio da Abolição.

 

 

ENTENDA A NOTÍCIA

A coalizão governista no Ceará reproduz as forças que dão sustentação ao governo Dilma Rousseff (PT). O leque partidário é amplo, mas o poder decisório real está concentrado nas mãos de núcleos bastante restritos.

 

 

Conceituação

Pelo pouco tempo - chegou no poder há cinco anos - o ciclo Cid Gomes ainda não é enquadrado por pesquisadores junto aos outros quatro momentos.

 

Grupos articulados

As atuais forças hegemônicas do Ceará se articularam a partir da chegada de Lula à Presidência e em torno de sua figura.

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