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Período militar 21/01/2012 - 14h00

O coronelismo "moderno"

Eles integraram um grupo político que se revezou no poder durante 19 anos. Apesar das práticas políticas arcaicas, os coronéis buscaram dar os primeiros passos rumo ao desenvolvimento econômico do Ceará

Por 19 anos, no Ceará, a força dos coronéis ultrapassou os limites do Exército e se estendeu ao controle político do Estado. Foi quando o triunvirato formado por César Cals, Adauto Bezerra e Virgílio Távora assumiu o Governo local, entre 1963 a 1978, sob a unção do Regime Militar. Por tratar-se de um grupo restrito, que dividia o poder entre si, o ciclo é avaliado como “oligárquico” por alguns analistas. Porém, são tantas as peculiaridades do período que é preciso flexibilizar o conceito puro de oligarquia – e o de coronelismo – para dar conta desse recorte da História.

 

O “tempo dos coronéis” no Ceará misturou pitadas de atraso e modernidade. Ali, já não se via as características do coronelismo político clássico, baseado na propriedade de terra e no prestígio social dos mandatários. Esse modelo, tradicional, “se não extinto, já estava, pelo menos, moribundo”, conforme observa a socióloga Linda Gondim no artigo “O Governo das Mudanças”.


O coronelismo de Virgílio, Adauto e Cals ganhou ares de progresso a partir do momento em que buscou dar os primeiros passos rumo à industrialização e ao desenvolvimento econômico do Ceará.


Conforme lembra Gondim, a experiência pioneira de planejamento estratégico do Ceará surgiu justamente na primeira gestão de Virgílio Távora (1963-1966), com o incentivo de projetos estruturantes e de largo alcance capitalista – como o abastecimento de energia elétrica para todas as regiões, o Distrito Industrial, a inauguração da Fábrica de Asfalto do Mucuripe, entre outros.


Dessa forma, apesar das inúmeras críticas, os coronéis ajudaram a desenhar uma parte do Ceará que resiste ao tempo. O Centro de Convenções de Fortaleza, o Centro de Artesanato, a Rodoviária da Capital e a Companhia Docas do Ceará são parte de um legado que até hoje beneficia economicamente o Estado.

 

Contradições


Mas, ao mesmo tempo em que se abriram para o novo, os coronéis mantiveram os dois pés fincados numa cultura política para lá de arcaica. O clientelismo, em sua forma mais rústica, encontrou terreno fértil na gestão do trio. Embora ainda hoje vivas na política cearense, as trocas de favores, o empreguismo e o uso do aparelho estatal para a manutenção do poder corriam soltos, sem o freio hoje imposto pela Lei.


Eis a contradição dos coronéis: “Ao mesmo tempo em que se tentava dar uma estrutura de mercado ao Ceará, criando novos atores no setor empresarial e na classe média para poder fortalecer o Estado; você teve também essa parte mais tradicional, de fazer política na base do clientelismo”, destacou ao O POVO o cientista político Josênio Parente, professor da Universidade Estadual do Ceará.


A seca e a pobreza, bem como a ausência de regras de preenchimento de cargos públicos – que só apareceram com a Constituição de 1988 – favoreciam aquela cultura. Por isso, apesar do relativo avanço, foi o estigma do “atraso” que derrotou a trindade coronelista. Em 1983, Gonzaga Mota assume o Governo como fruto da gestão dos coronéis, mas já inebriado pela onda “mudancista” que viria a se consolidar, depois, a partir da eleição de Tasso Jereissati. Quatro anos depois, este assume o Executivo com a promessa de sanear as práticas “atrasadas” dos adversários militares, dando início a uma nova era hegemônica.

 

 

ENTENDA A NOTÍCIA

Virgílio Távora, César Cals e Adauto Bezerra representaram o triunvirato do ciclo dos coronéis durante o período militar no Ceará. Por 19 anos se alternaram no poder, sendo que Virgílio governou o Estado por dois períodos.

 

 

Rivalidade

Os coronéis disputavam prestígio e poder entre si. Como o governador era indicado pelo Governo Federal, a disputa se acirrava nas eleições ao Senado.

 

Zebra

Na eleição para senador de 1974, Cals chegou a dizer que nem Padre Cícero derrotaria seu candidato. Mas quem levou foi o apoiado por Távora e Bezerra.

Hébely Rebouças hebely@opovo.com.br
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