Por 19 anos, no Ceará, a força dos coronéis ultrapassou os limites do Exército e se estendeu ao controle político do Estado. Foi quando o triunvirato formado por César Cals, Adauto Bezerra e Virgílio Távora assumiu o Governo local, entre 1963 a 1978, sob a unção do Regime Militar. Por tratar-se de um grupo restrito, que dividia o poder entre si, o ciclo é avaliado como “oligárquico” por alguns analistas. Porém, são tantas as peculiaridades do período que é preciso flexibilizar o conceito puro de oligarquia – e o de coronelismo – para dar conta desse recorte da História.
O “tempo dos coronéis” no Ceará misturou pitadas de atraso e modernidade. Ali, já não se via as características do coronelismo político clássico, baseado na propriedade de terra e no prestígio social dos mandatários. Esse modelo, tradicional, “se não extinto, já estava, pelo menos, moribundo”, conforme observa a socióloga Linda Gondim no artigo “O Governo das Mudanças”.
O coronelismo de Virgílio, Adauto e Cals ganhou ares de progresso a partir do momento em que buscou dar os primeiros passos rumo à industrialização e ao desenvolvimento econômico do Ceará.
Conforme lembra Gondim, a experiência pioneira de planejamento estratégico do Ceará surgiu justamente na primeira gestão de Virgílio Távora (1963-1966), com o incentivo de projetos estruturantes e de largo alcance capitalista – como o abastecimento de energia elétrica para todas as regiões, o Distrito Industrial, a inauguração da Fábrica de Asfalto do Mucuripe, entre outros.
Dessa forma, apesar das inúmeras críticas, os coronéis ajudaram a desenhar uma parte do Ceará que resiste ao tempo. O Centro de Convenções de Fortaleza, o Centro de Artesanato, a Rodoviária da Capital e a Companhia Docas do Ceará são parte de um legado que até hoje beneficia economicamente o Estado.
Contradições
Mas, ao mesmo tempo em que se abriram para o novo, os coronéis mantiveram os dois pés fincados numa cultura política para lá de arcaica. O clientelismo, em sua forma mais rústica, encontrou terreno fértil na gestão do trio. Embora ainda hoje vivas na política cearense, as trocas de favores, o empreguismo e o uso do aparelho estatal para a manutenção do poder corriam soltos, sem o freio hoje imposto pela Lei.
Eis a contradição dos coronéis: “Ao mesmo tempo em que se tentava dar uma estrutura de mercado ao Ceará, criando novos atores no setor empresarial e na classe média para poder fortalecer o Estado; você teve também essa parte mais tradicional, de fazer política na base do clientelismo”, destacou ao O POVO o cientista político Josênio Parente, professor da Universidade Estadual do Ceará.
A seca e a pobreza, bem como a ausência de regras de preenchimento de cargos públicos – que só apareceram com a Constituição de 1988 – favoreciam aquela cultura. Por isso, apesar do relativo avanço, foi o estigma do “atraso” que derrotou a trindade coronelista. Em 1983, Gonzaga Mota assume o Governo como fruto da gestão dos coronéis, mas já inebriado pela onda “mudancista” que viria a se consolidar, depois, a partir da eleição de Tasso Jereissati. Quatro anos depois, este assume o Executivo com a promessa de sanear as práticas “atrasadas” dos adversários militares, dando início a uma nova era hegemônica.
ENTENDA A NOTÍCIA
Virgílio Távora, César Cals e Adauto Bezerra representaram o triunvirato do ciclo dos coronéis durante o período militar no Ceará. Por 19 anos se alternaram no poder, sendo que Virgílio governou o Estado por dois períodos.
Rivalidade
Os coronéis disputavam prestígio e poder entre si. Como o governador era indicado pelo Governo Federal, a disputa se acirrava nas eleições ao Senado.
Zebra
Na eleição para senador de 1974, Cals chegou a dizer que nem Padre Cícero derrotaria seu candidato. Mas quem levou foi o apoiado por Távora e Bezerra.
Hébely Rebouças
hebely@opovo.com.br
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