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Harbans Lal Arora 09/07/2012

Sábio em pele de beija-flor

Menino de 75 anos, o indiano Harbans Lal Arora é artista, curador, piadista, escritor. O POVO colheu histórias que fizeram desse pós-doutor um sábio em pele de beija-flor
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Quando o mundo se deliciava e se esfacelava em pesquisas relacionadas ao enriquecimento de urânio, Harbans Lal Arora optou pelo caminho mais difícil. O terceiro de cinco filhos de uma família pobre da Índia escolheu começar quase do zero. Deixou de lado o conhecimento aprimorado vindo do mestrado em Física Nuclear. A proximidade com a morte, apesar da felicidade que a energia nuclear podia trazer, o deixava bem ressabiado. E foi aventurar-se numa ciência nova, ainda regada de preconceitos, aquela das menores partículas.

 

Física Quântica. Justamente esse o conhecimento que abriu portas e o conduziu a um mar de possibilidades que só encontrou glória na aposentadoria. Um ser cético partiu do Oriente para o Canadá. Chegou a um Brasil – País bem distante, ao mesmo tempo em que próximo de sua Índia - um homem ainda desconfiado, mas bem mais acessível às novas possibilidades. Aposentou-se na Universidade Federal do Ceará (UFC) um homem completamente aberto, da alma e do corpo.


Enveredou, de vez e sem retorno, na complexidade da Terapia Quântica. Hoje, ajuda os tratamentos médicos a resgatar autoestimas e vidas. E, como relata um quadro na sua sala de atendimento da Terapia Quântica: “o céu está onde você realiza os sonhos da adolescência”. Hoje, ele encontrou o firmamento.

 

OPOVO - Li certa vez que, quando o senhor era criança, sonhava em ser artista. Como sua vida guiou seus caminhos para a física quântica?

Harbans Lal Arora - Eu queria ser artista no sentido de cantor e humorista. Não ator. A terceira (opção) era ser médico, mas de medidas preventivas, para evitar doenças. Eu pertencia a uma família bastante pobre – nós perdemos tudo no Paquistão porque migramos para a Índia em 1947, quando houve a divisão do país em duas partes. Então perdemos 18 pessoas da nossa família, assassinadas. Meu pai ficou bastante doente. Eu tinha de trabalhar com 11 anos. Por dois anos, fiz todo o tipo de trabalho: lavar louça, em fábricas, limpar carros... Depois, voltei a estudar e, ao mesmo tempo, tinha de trabalhar. Aos 13 anos, eu dava aulas para os meus colegas. Eu era bem adiantado. Isso facilitou a minha vida. Eu precisava sustentar a família, juntamente com meu pai. Fiz três faculdades na Índia. Com isso, os sonhos foram adiados. Eu mudei a minha área três ou quatro vezes. Quando eu comecei aqui com a Física, eu mudei para a Química, em um trabalho com fontes renováveis de energia eólica, de biomassa, solar...

OP — O senhor já tinha feito doutorado no Canadá quando resolveu vir para o Brasil. O que foi que fez o senhor vir para cá?

Harbans — Eu vim em busca de emprego. Porque mandei meu currículo quando terminei o doutorado para diversas partes do mundo. Eu poderia trabalhar na escola de segundo grau no Canadá, mas como eu tinha doutorado, havia a possibilidade de sair de lá. Eu decidi não dar aulas no segundo grau. Recebi quatros respostas positivas: Venezuela, Austrália, São Carlos (SP) e aqui em Fortaleza. Austrália e São Carlos eram para ser professor do curso de pós-doutorado, e eu não queria. Na Venezuela, era para professor convidado e aqui, professor também. Venezuela quase ia dar certo, mas mudou o chefe de departamento. Daí deu certo para Fortaleza.

OP — E o que é que o senhor sabia daqui de Fortaleza, do Brasil?

Harbans — Só sabia quatro ou cinco palavras de português. Quando a gente veio para cá, no hotel se toma café da manhã, não é assim? E eles perguntaram: “vocês querem café da manhã?”. Tinha um dicionário de Portugal e lá eles usam a palavra ‘desjejum’. Então, ficamos três dias sem tomar café (risos). No hotel, tinha um restaurante e a gente ia lá, comia a mesma coisa: pedia café, leite, pão etc. Depois descobrimos que o café da manhã é o breakfast.

 

OP — Professor, o senhor sempre fala que existem várias semelhanças entre o Brasil e a Índia. Quais são elas?

Harbans — Bom, as pessoas são mais abertas para conversar. Aqui a pessoa tem mais facilidade de fazer amizade. A comunicação é muito fácil. E também, àquela época, não tinha muita competição.

 

OP — O senhor se apega a várias áreas. Química, um pouco da Medicina, a Física. O senhor acredita que sua busca hoje é pelo conhecimento múltiplo e completo?

Harbans — Na atualidade, a gente precisa procurar trabalhar com a escolha integrada. Hoje, o doutorado de Física Quântica tem base na ioga, na visão holística. Eu reintegro três pilares. Isso se aplica para qualquer área, incluindo essas empresas quânticas, negociações, educação, saúde. Qualquer área que você possa imaginar. Uma empresa que está falindo pode dar apoio para melhorar. A pessoa que tem problema de saúde de qualquer natureza. Porque é o seguinte: a visão quântica não tem restrição, porque significa abrangência. Não despreza a visão cartesiana atual, mas amplia. Quando as pessoas chegam aqui com qualquer problema, a gente procura primeiro pela integração, harmonização com ela... Com empatia, a gente resolve o problema junto. Não é que eu seja o dono da verdade, não. Ninguém é dono da verdade. Quando começo a conversar, a gente sente o problema da pessoa. Com essa base, eu descubro, invento, renovo e reconstruo soluções juntamente com ela.

 

OP — O senhor lida com qualquer tipo de problema?

Harbans — Qualquer tipo de problema. Não pergunto qual é. Quando a pessoa vem pra cá, começo a conversar. Eu trabalho com aids, depressão, com pessoas com câncer avançado. Há pessoas que têm imunidade muito baixa. Não tem restrição.


OP — Mas o senhor procura sempre trabalhar junto com uma equipe médica?

Harbans — Se a pessoa precisa de um tratamento médico, ela continua. A gente procura diminuir os efeitos colaterais negativos do tratamento. E em caso de cirurgia, vamos para cirurgia. Eu já acompanhei quase cem cirurgias. Diminuí perda de sangue, diminuí tempo de recuperação e cicatrização.

OP — E qual é a sua técnica? O que é que o senhor faz para promover todas essas melhoras?

Harbans — As bases da ioga integradas com a modernidade: relaxamento, respiração, meditação, visualização, imaginação e ao mesmo tempo o riso, brincadeiras, anedotas. A pessoa começa a aliviar a sua própria tensão. Começa a fazer coisas que não fazia antes. Começa a realizar seus sonhos. Para tratamento, a medicina cuida. Eu faço treinamento e transformação. A pessoa se transforma. Resgata confiança e autoestima, que são coisas fundamentais. Então a gente dá coisas boas para as pessoas. Coisas de passado, aprendizagem do passado, para viver no presente com expectativa no futuro.

OP — Em que momento a Física Quântica cruzou com a espiritualidade?

Harbans— Bom, o que é que significa a espiritualidade? Estudo de espírito. O que é que é espírito? É espírito puro: felicidade, alegria, compaixão, fraternidade, irmandade etc. Com essa base, a ciência moderna e a quântica fazem a mesma coisa. Interdependência e interconectividade são características da espiritualidade e da ciência quântica moderna. A pessoa está ligada com tudo e tudo está ligado com as pessoas. É a mesma visão. Deus chama-se Deus pessoal ou Deus universal e também se chama consciência universal. Isso é básico de toda religião. Outro aspecto: tem o corpo físico, certo? A camada física. Dentro dessa camada, tem a mental, emocional, espiritual. É como um iceberg. 10% você vê de fora e lá embaixo não vê nada. Isso se chama campos de energia sutis. A gente penetra nesse campo, que é ligado a estudos. A gente entra nessa área em busca de harmonização, integração com si próprio, com outras pessoas. A ciência comum é experimentação. A ciência profunda é experiência própria.

OP — O senhor acredita que o seu envolvimento com o misticismo tem relação com o fato de antes o senhor ter nascido num país tão místico, como é a Índia?

Harbans — De certo modo, sim, mas como eu comecei a falar inglês muito cedo, eu tinha contato com muita literatura americana, europeia. Então pra mim ficou fácil realizar todas essas atividades desde o segundo grau até lá. O resultado é que eu tinha contato com o Ocidente: poesia, música, sacristia.

 

OP — A sua formação familiar veio de que religião, professor?

Harbans — Eu preferiria dizer que eu não sou uma pessoa religiosa. Respeito toda religião, mas sou uma pessoa da espiritualidade, que não depende da religião. Mas minha formação é no hinduísmo.

 

OP — O senhor faz oração?

Harbans — Faço uma oração, mas diferente. Orações mais práticas, mais pragmáticas. Por exemplo, perdoar uma pessoa é uma oração. Primeiro, a meditação, depois a oração. Eu sempre faço meditação. Uso o mantra indiano, mas também uso o mantra de cotidiano com o propósito de paz. Isso não depende da religião. Muita coisa dentro de mim é base do hinduísmo, basicamente.

 

OP — Por que o senhor desistiu de trabalhar com a Física Nuclear?

Harbans — Porque eu não gosto dessa área de destruição. Trabalho nuclear diretamente leva para concentração de urânio; consequências que estavam acontecendo e eu não queria. Na energia nuclear, por exemplo, tudo leva para a destruição.

 

OP — Mesmo depois de aposentar-se, o senhor continua trabalhando. Existe uma diferença entre o trabalho com o objetivo de o senhor ganhar um sustento e o trabalho que o senhor faz por opção?

Harbans — É muito diferente. Não tenho preocupação financeira e escolho o trabalho que quero fazer. E a terceira coisa, eu posso mudar para outras áreas que eu desejo, ter liberdade completa. Achei muito gratificante o trabalho com o HGF (Hospital Geral de Fortaleza), que é muita variedade.

OP — Como começou o trabalho do senhor com o voluntariado?

Harbans — A minha esposa me levou para a ioga. Uma amiga nossa é professora e mora em Salvador. Eu oficialmente não fazia nada ligado ao indiano. Ela me disse: “Por que você não fala sobre ioga com a ciência moderna?”. Uma amiga nossa, que mora em Campina Grande, foi viajar para Brasília. Eu estava indo para Nova Iorque àquela época, mas tinha que passar em Recife e Brasília. No aeroporto, ela me deu um livro. “Aqui fala sobre alguns gestos. Isso melhora a respiração”. E eu disse: “Não é possível.” E eu comecei a experimentar. São cinco tipos de mudra de respiração. Resultado: no avião entre Recife e Brasília, em duas horas, eu fiquei fazendo isso. Uma aeromoça passou e perguntou: “O que é que o senhor está fazendo?”. E eu falei: “Técnica de respiração. Essa técnica ajuda a pessoa a respirar melhor”. Era de origem japonesa, essa menina. Foi lá e falou com outra amiga dela. Dez minutos depois ela voltou. “Como são esses benefícios?”. E eu expliquei os 30 tipos de benefícios. Já pensou? Aquele tipo de aprendizagem foi mais rápida e mais profunda para mim. E eu fiquei doido. Ela disse: “Você não poderia ensinar à gente?”. “Por que não?”. Às quatro da madrugada dei aula para aeromoças. Nove pessoas sentaram e aprenderam comigo. Essa foi a minha entrada. Aí vi um artigo em um livro de uma pessoa que trabalha com pacientes na quimioterapia para melhorar a saúde das pessoas, diminuindo efeitos colaterais. Eu li isso mais vezes, captei ideias. E disse para um amigo meu, médico: “Eu quero fazer uma coisa. Eu quero aplicar. Por que não aplicar isso no câncer?”. “Como?”. “Eu posso falar com o diretor geral”. Ele me levou. Foi lá, numa sala pequena, sentou e olhou pra mim. “O senhor acredita nisso?”. “Eu sou um artista. Ser artista não é acreditar em nada, é ver para crer”. Com essa base eu queria experimentar. Eu não sabia o que era câncer, mas o meu interesse nessa área foi tão profundo, que abri aquele meu sonho de ser médico. Isso foi 16 anos atrás.

O POVO — Professor, o senhor já afirmou que o seu trabalho pode trazer a cura de doenças graves, como a aids. O senhor não considera isso um exagero?

Harbans — O que eu faço é diminuir a concentração viral no sangue. Eu pego pacientes com concentração altíssima e, com as técnicas, diminuo 90%. Eu não faço tratamento.

O POVO — E alguma universidade já se interessou em estudar esses resultados?

Harbans — Aqui se começou a usar medicina e espiritualidade, mas não da forma que eu aplico. Houve um encontro internacional no ano passado em que vieram 22 pessoas: 11 brasileiros, incluindo eu, e 11 de fora. De todo mundo, o meu era o único trabalho com resultados concretos. Porque muita gente fala das ideias boas. Mas não aplicam para ver resultados.

O POVO — Os próprios cientistas, físicos, engenheiros são muito descrentes, não é?

Harbans — Eu já cheguei a ser muito ridicularizado. Nas minhas aulas, fazia técnicas de relaxamento com os alunos. Parecia loucura à primeira vista. Primeiro faziam relaxamento, respiração... Gargalhada. Depois é que faziam provas. Várias pessoas comentavam que o professor estava ficando doido. Mas depois que começaram a me perceber, em entrevista como a sua, aparecendo em jornais, muitos amigos meus mandaram seus filhos, ou as mulheres para que eu cuidasse delas. As coisas estão mudando, mas ainda são muito rígidas. As pessoas têm medo da mudança.

O POVO — De que forma você conceitua vida e morte?

Harbans — Morte, para o meu entender, é uma transformação. De um estado para outro estado de consciência. Talvez num nível em que a gente não está acostumado a viver. Depois da morte, algo continua. Isso pode se chamar alma, ou qualquer nome. Isso não tem importância. Agora toda a experiência de vida, leva-se com a alma. Não tem alma sozinha, não. Então há duas possibilidades: ou ela vai para o céu ou inferno, sei lá, ou ela volta para a Terra para continuar a jornada. Isso é a reencarnação. Se ela fica lá, não tem possibilidade de melhorar. Aqui ela tem. Depende dela. Se ela quiser adquirir novos hábitos ou novas ideias, os karmas mudam. A genética muda. A pessoa cria nova vida. Eu penso dinamicamente. A visão quântica ajuda.

 

Angélica Feitosa

angelica@ opovo.com.br

Deivyson Teixeira

deivyson@ opovo.com.br

Angélica Feitosa angelica@opovo.com.br
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