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EDUCAÇÃO 29/03/2013

Redação do Enem: pensar às avessas, sim!

"Sou entusiasta do Enem como uma melhor tentativa de democratização do acesso à universidade"
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Causou certo espanto, celeuma e até, quem sabe, revolta, a recente divulgação de duas redações aprovadas no Enem que utilizavam-se do deboche e da ironia nos textos. Drama nacional, alvoroço, brados retumbantes! Ora, mesmo entendendo as problemáticas questões logísticas e estruturais de uma prova como o Enem, uma falha (falha?) em duas redações, num universo de mais de 4 milhões de inscritos para cerca de 130 mil vagas, em vez de apontar uma crise, veja bem, e pensando em Brasil, não estaria representando, na verdade, uma vitória?

 

O que todos esperamos é que processos públicos como o Enem se desenrolem na perfeita combinação de eficiência, oportunidades iguais, clareza e honestidade. Não trato da defesa de políticas, desta ou daquela gestão. Sou entusiasta do Enem como uma possibilidade melhor para uma tentativa de democratização do acesso de nossos estudantes à universidade pública. Esse entusiasmo, no entanto, caminha ao lado da cautela e entendimento dos problemas e dificuldades que esse processo enfrenta e ainda enfrentará.


Achei curioso o ar de revolta apressada e o surgimento de algumas soluções bem exaltadas. Em artigo publicado no dia 21/3, o jornalista Plínio Bortolotti, depois de destrinchar uma série de críticas ao processo do vestibular, e a formação de nossos alunos (algumas ideias até me fizeram concordar com ele), propôs a extinção da redação. Uma solução como essa é a mesma coisa de resolver o problema da unha encravada, arrancando a perna inteira.


A redação é o lugar em que o estudante tentará demonstrar sua capacidade de dominar a norma culta da língua e irá expor sua maneira de articular ideias. Não é essa articulação de pensamento que buscamos?


Gostaria de pensar uma inversão a partir da proposição de Plínio Bortolotti. E se, em vez de sumir com ela, ampliássemos a redação dentro do Enem? E se, depois de resolver uma questão da área de matemática, o aluno tivesse que explicar como conseguiu chegar ao resultado? E se a prova de redação oferecesse ao aluno uma variedade de opções para a escrita de gênero textuais para que o sujeito se utilize, até mesmo, do deboche, da ironia, da sua inventividade? Um ambiente ideal? Claro, estamos trabalhando, aqui, com o ideal, até para imaginar uma avaliação perfeita das redações.


Desta maneira, acredito, teríamos ainda várias ocorrências de unhas encravadas, alguma dor, mas caberia a nós continuar a vigilância para abrandar os infortúnios. E o mais importante: manteríamos a perna intacta para que ela buscasse a devida pulsão para o salto.

 

Carlos Augusto Lima

carlosaugustolima@gmail.com
Professor e escritor

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espaço do leitor
Juliana Campos 29/03/2013 11:50
Prof. Carlos Augusto, Fui sua aluna no Colégio Sta Cecília. Li seu artigo e concordo com seus argumentos. Passei pela experiência do Enem e não é fácil. Manter a redação é fundamental, mas o MEC deve rever os critérios. Parabéns! Feliz Páscoa! Juliana Campos
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