Aquilo que parecia quase impossível para os céticos aconteceu: Fortaleza voltou a ter Carnaval. O fenômeno foi comprovado, neste ano, surpreendendo a muitos e criando a expectativa real de que a tendência se consolide.
Há muito se firmara a convicção de que a capital cearense era um túmulo para o Carnaval. Alegava-se a falta de espírito folião, no fortalezense, contrariando uma tradição mais antiga que tinha como referência a experiência de gerações anteriores que haviam se destacado justamente pela animação com que assumiam o espírito carnavalesco.
A urbanização acelerada, a massificação, o aumento dos contrastes sociais, a artificialização da folia pela imposição do modelo imposto pelo mercado de eventos e pela indústria de gravações de música, com a transformação do carnaval em espetáculo para se ver e não para se brincar (inclusive, com a indiferenciação dos estilos musicais) são algumas das causas apontadas para o esvaziamento do carnaval fortalezense. Isso veio correlato com o desaparecimento dos laços comunitários e a explosão das drogas e da violência.
A recuperação da folia, em Fortaleza, este ano, indubitavelmente, tem tudo a ver com a estratégia lançada pela atual administração municipal de incentivar o Pré-Carnaval pelos vários bairros. Isso criou o ambiente propício para iniciativas da própria comunidade. Ou seja, a ideia era refazer os laços comunitários, devolvendo o Carnaval à sua origem: a espontaneidade popular. No bairro, é mais fácil reatar as relações intracomunitárias, dando ensejo à expressão dos valores culturais locais e dos laços pessoais.
Fincadas as raízes do Pré-Carnaval, criou-se a ambientação para a recuperação do próprio Carnaval. Evidentemente, ainda há muito para consolidar uma estrutura de segurança mais perfeita. Mas nem mesmo o pouco policiamento em bairros como o Benfica foi fator impeditivo para uma brincadeira saudável. Prova de que, havendo identificação da comunidade local com a festa, o problema da insegurança fica muito mais relativizado.
A estratégia, portanto, deve ser a de manter o Carnaval dentro de padrões comunitários e voltado, sobretudo, para o folião, evitando cair na cilada do carnaval-espetáculo, apenas “para gringo ver”.
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