ENTREVISTA. JOSÉ CARLOS GAMA 29/07/2015

"O momento é esse", diz José Carlos Gama

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Bruno Cabral brunocabral@opovo.com.br
Foto: Camila de Almeida
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A pesar das projeções não muito animadoras para economia nos próximos anos, o empresário José Carlos Gama acredita que a instabilidade é, mais do que econômica e política, psicológica. E, diante deste cenário, ele diz que o consumidor tem uma janela de boas oportunidades para comprar imóveis. Mesmo com o crédito mais difícil, Gama diz que o cliente com histórico de bom pagador e capacidade de pagamento comprovada não deve encontrar dificuldades para uma boa compra, inclusive com promoções.


“O momento é este”, ele diz para aqueles que pensam em comprar imóvel. Até quando isso vai durar? “O grande problema do nosso País é que o vale nesta semana não vale para a próxima”, ele responde. Em mais de 30 anos de carreira, José Carlos Gama já presenciou de perto períodos de alta e de baixa no mercado imobiliário cearense. Os momentos de crise, para ele, ajudam a sanear o mercado como um todo. As boas empresas, com bons empreendimentos, seguem em frente, os “aventureiros” desaparecem.


O POVO - Após anos de estímulo ao crédito, neste ano os bancos passaram a ser mais rigorosos na concessão de financiamentos. Como isso refletiu no mercado local?

José Carlos Gama - Ocorreu que algumas construtoras que estavam com estoque elevado, tanto de produtos prontos como a concluir, precisaram fazer promoções para reduzir estoques. Porque essa é a mercadoria que a construtora tem. Ela só tem duas formas de fazer dinheiro: pegando recursos com o agente financeiro ou vendendo as suas unidades. Então, como os bancos dificultaram, a forma que elas têm de fazer dinheiro é queimando o estoque.

OP – Como isso tem afetado as empresas?

Gama - Isso não é negativo só para as empresas, mas para o mercado como um todo. Você imagina um cliente que comprou um imóvel há um ano, por um preço mais caro, e hoje está vendo o construtor que construiu com o dinheiro dele, vender o imóvel pronto por um preço mais barato para outra pessoa que não correu o mesmo risco dele.

OP – Qual a reação desse cliente?

Gama - Ele chega com uma certa revolta, porque observa que se tivesse esperado a oportunidade de uma feira dessas, ele poderia ter obtido uma melhor forma de compra. Mas existe também o cliente investidor, que sabe que ao término da obra ele não perdeu, mas deixou de ganhar por conta da conjuntura.

OP – A quantidade de cliente que compra para investir vem caindo?.

Gama - Sempre em época de crise econômica o comprador investidor se retrai. No nosso mercado, a participação de comprador investidor é de 20%, mas hoje, se você for ver, está em 5%. O que acontece, e isso é importante, é que ninguém que aplicou no mercado imobiliário no longo prazo perdeu dinheiro. É obvio que quem comprou no começo da obra para vender no final, para ganhar num espaço de dois ou três anos, esse nem sempre ganha dinheiro. Mas qualquer pessoa que comprou um imóvel e conseguir atravessar esta época de baixa vai ganhar.

OP – O momento é de oportunidades para quem quer comprar?

Gama - No nosso entender, essa crise, mais do que econômica e política, é uma crise psicológica. O pensamento negativo é uma onda que passa de um para o outro. Eu acho que, se a pessoa tem necessidade da compra do imóvel, o momento é este. Claro que ele precisa ter cuidado para não dar um salto maior do que a perna e procurar o imóvel adequado.

OP - Mesmo com a maior dificuldade para obter crédito?

Gama - O momento é de cautela, mas o cliente que precisa comprar um imóvel, ele encontra as melhores condições hoje. Existe uma oferta muito grande, há construtoras precisando literalmente desovar estoque. E o consumidor consegue condições propícias para isso, desde que ele tenha renda comprovada e capacidade de pagamento para mostrar ao agente financeiro. Porque o agente ele tem sim recursos para financiar quem tem um cadastro positivo, não tem nome negativado.

OP - Até quando essa janela de oportunidades deverá ficar aberta?

Gama - O grande problema do nosso País é que o vale nessa semana não vale para a próxima. Mas, passando por essa crise, no primeiro trimestre de 2016, eu acho que o mercado imobiliário tem espaço para mais 10, 15 anos bons ventos.

OP - O que o faz pensar assim?

Gama - Primeiro, o déficit habitacional brasileiro ainda é muito grande. Segundo, existem outras formas de você conseguir funding (recursos) para financiar esses imóveis. Mas, para isso, nós precisamos ter estabilidade econômica. Não existe, em lugar nenhum do mundo, financiamento de longo prazo com inflação acima de 10%. Para você financiar qualquer produto de longo prazo a inflação tem que ser de um dígito.

OP - O senhor vê oportunidades também para o empreendedor?

Gama - Sim, mas ele tem que pensar no lançamento de produtos que ele possa fazer com capital da própria empresa, sem depender tanto de capital externo. Se a empresa tiver uma saúde financeira boa, ela vai conseguir financiar. Para bons produtos e boas construtoras, o mercado está satisfatório.

OP - A expectativa de recessão preocupa o mercado de imóveis comerciais?

Gama - É preocupante. Porque, primeiro, os agentes financeiros fecharam a carteira de financiamento ao imóvel comercial. Houve um número grande de lançamentos imobiliários e você tem uma oferta muito grande em todos os bairros, tanto na Parangaba, na Aldeota, no Guararapes... Há empreendimentos que deverão ficar prontos ao mesmo tempo. Mas, se comparado a outros estados, o Ceará é um ponto fora da curva porque tem uma economia crescendo mais do que a do Brasil.

OP - Como senhor avalia a relação do poder público com as empresas do setor imobiliário em Fortaleza?

Gama - Aproveito esse espaço para parabenizar o nosso prefeito (Roberto Cláudio), que abriu canais de diálogo e conseguiu reduzir um estoque de licenças ambientais, que era muito grande, na Seuma (Secretaria de Urbanismo e Meio Ambiente), com a secretária Águeda Muniz. Hoje, numa forma transparente, em todo e qualquer projeto de lei que tenha relação com a construção civil, o setor é chamado para discutir. É uma operação em que ganha o Município, os empresários e a Cidade.

OP - Dá para tirar algum proveito deste momento de instabilidade econômica?

Gama - O que a gente tira de proveito é que todas aquelas pessoas aventureiras na construção civil, que entraram na época da bonança se afastam com a crise. Em geral, são profissionais liberais, como médicos e advogados, que têm recursos mas não são da área. E após a crise ficam realmente no mercado aqueles que são profissionais do mercado imobiliário.

OP - Qual a projeção que o senhor faz para os próximos anos?

Gama - Acredito nessa nova geração que está aí. Acredito que outro ponto importante que deve ser pensado pelas empresas daqui é a sucessão. No nosso caso, nós já estamos pensando (diz apontando para o também empresário José Carlos Braide Nogueira da Gama Filho), para que essa passagem de bastão ocorra de uma forma tranquila. Além disso, o Brasil é um país de grande potencial. E o mercado cearense é um mercado que desponta no Brasil, seja pela nossa arquitetura, ou elas nossas empresas que pensam em empreendimentos autossustentáveis.

 

Perfil


Formado em Engenharia Civil (1983) pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e Direito (2007) pela Universidade de Fortaleza (Unifor), José Carlos Braide Nogueira da Gama foi diretor financeiro da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), nas duas gestões de Roberto Macêdo (2006-2014). Hoje, o empresário, que é sócio-administrador da Construtora Placic, ocupa a vice-presidência da Área Imobiliária do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Ceará (Sinduscon-CE) e preside o conselho jurídico da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

 

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