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Dunas 15/07/2012

Flores no lugar de lixo

O despertar chega com o sol. E já é hora de cuidar do mundo lá fora. Dia a dia, moradores do bairro De Lourdes somam tempos disponíveis, unem boas vontades e, tecendo manhãs e encontros, configuram um jardim em um terreno baldio
DEIVYSON TEIXEIRA
O jardim no terreno baldio da rua Professor Amarílio Cartaxo começou com seu Virgílio, de 82 anos. E passa de mão em mão, por gerações de novos vizinhos
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Seu Virgílio Nascimento, 82, o dono mesmo desta história, não estava onde de costume, na manhãzinha da entrevista. Quem passava na Professor Amarílio Cartaxo até sentiu a ausência, todo dia ele varre a rua, “começa lá embaixo”, desenha o vigilante do turno. Ou então, àquela hora, demora-se a reparar as árvores e a cuidar das flores em frente de casa. Mas seu Virgílio, aposentado das obrigações e disponível para as horas, tinha escapulido cedo, a seu bel prazer, no fusquinha azulado, para as bandas da cidade maior. Na certa, foi ajeitar algum desalinho na loja do filho, presumem os vizinhos, que generosidade ele tem de herança.

 

Seu Virgílio não estava, mas era como se estivesse. Deixou o exemplo, plantado em cada pé de acerola, pitanga, limão que se alinha ao fio de pedra ou no gramado que se espalha pelo chão de dunas. Deixou o gosto do bolo que costuma ofertar no meio da conversa e o rastro até a parada do ônibus, fazendo o favor de buscar os empregados. Ele é a gentileza, em corpo e alma, retrata o vizinho Valberto Porto, 34. O médico, que se mudou para o bairro De Lourdes há um ano, admira como seu Virgílio vai mudando a paisagem e a convivência em redor. “Ele tem esse espírito de colaboração”, retrata.


“Todo dia, ele capina, remove os entulhos. Aqui era uma montanha enorme de entulho e lixo”, testemunha Valberto, que também já dá uma mãozinha na feitura do jardim coletivo. No lugar do terreno baldio, nascem flores e frutos e, ao invés dos ratos, o recanto agora é das andorinhas, das corujas e caborés e das crianças. “O aproveitamento do espaço é outro... Tenho um filho de quatro anos, seu Virgílio tem um neto de cinco. Eles se juntam e correm pela grama, passeiam com os cachorros”, agrega Valberto. No verão, adiante, até reaparece um areal para o futebol de ocasião. “Os próprios moradores colocavam lixo. Com o tempo, viram que a gente vai cuidando e pararam de colocar”, completa o médico.


O jardim começou como um ofício de andorinha só. Seu Virgílio, que já vive o tempo das delicadezas, foi o desbravador, anos atrás (as árvores frutíferas que plantou primeiro já dão sombra). As boas sementes foram germinando vontades e cada um pode dar uma mãozinha no cuidado com o jardim. “O tempo é curto, normalmente, faço isso aos domingos ou logo cedinho, cinco e meia da manhã, antes da jornada”, sugere Valberto Porto. “E, se apareço com uma pazinha dessas (de jardinagem), o Pedro (filho) cola em cima e ajuda. Quer dizer, mais atrapalha do que ajuda!”, diverte-se.


Com o jardim coletivo, a convivência também foi favorecida. A ajuda de um e outro “é fundamental para os vizinhos se conhecerem. Passa um de carro, acena. Da outra vez, para e conversamos”, considera o recém-chegado. Todos são bem vindos e, dali a pouco, estaciona o professor de inglês. Veio do bairro Lagoa Redonda para plantar a popular e resistente coração-magoado (Iresine herbstii) que Valberto escolheu para fazer par com o verde do pingo-de-ouro (Duranta repens aurea).


Exemplos

“Outras capitais são bem mais cuidadas que Fortaleza, em relação a parques, calçadas, praças”, contrapõe Valberto Porto. Por isso, ele faz a diferença, na contramão de uma cultura que legitima “rebolar tudo no mato, em qualquer lugar, pela janela do carro”. Para o médico e seus vizinhos, a cidade é a extensão da própria casa.

 

Por isso, na rua Professor Amarílio Cartaxo, de calçamento e vento correndo solto, as mudas crescem árvores, enquanto filhos e netos crescem homens. Pedro já curte o exemplo do pai, o neto do seu Virgílio herda histórias de um fazedor de árvores.


A conversa, a propósito, rodopia em redor do aposentado. Valberto lamenta que seu Virgílio não tenha voltado antes do fim desta entrevista. Na outra ponta da expectativa, o vigilante até imagina o som do fusquinha dobrando a esquina, mas era só o vento brincando. “Que pena ele não estar aqui, para vocês conhecerem”. Seu Virgílio não estava, mas é como se estivesse. Semeando gentilezas, inventou uma convivência mais permanente no meio da pressa dos dias, reinventou-se nas árvores e flores em frente de casa.

 

Onde


ENTENDA A NOTÍCIA


A natureza renasce nos lugares mais insólitos, ao tempo em que também oferece vida aos desertos da cidade e do olhar. O verde e o colorido de plantas e flores brotam do entulho, rompem cimento, atravessam muros. E, ao cuidado e ao respeito que se tem pelo meio ambiente, a natureza retribui com sombras e paisagens.

Ana Mary C. Cavalcante anamary@opovo.com.br
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Augusto Lima 15/07/2012 21:35
Belo exemplo a ser seguido em toda cidade. Parabéns moradores do Bairro Lourdes.
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Andréa Bardawil 15/07/2012 17:32
Ana Mary, essa série de escritos que você tem nos presenteado nos trazem algum frescor, em tempos de respiração rarefeita. Obrigada pela delicadeza!
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Roselena 15/07/2012 12:15
Lindo exemplo. Parabéns pela reportagem.
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Eraldo Sá 15/07/2012 09:29
Que belo exemplo!!! Chegou-me lágrimas aos olhos...:)
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