Tem algo grave em comum em 31 das 72 cidades cearenses listadas ontem pelo O POVO como alvos de ataques a bancos nos últimos cinco anos. Elas não dispõem de delegacia própria e representam 43% do total.
A investigação de crimes deságua, então, na estrutura policial civil mais próxima, nem sempre preparada para receber demandas de outra circunscrição. De janeiro de 2007 a junho de 2012, 143 ações contra instituições financeiras foram registradas no Estado. Destas, 51 (35,66%) ocorreram justo nos municípios sem delegacia.
O Sertão Central lidera em ausências: falta estrutura em sete municípios atacados. O Litoral Leste/Jaguaribe tem a situação menos incômoda: apenas uma cidade palco de ação está sem delegacia. (ver quadro)
Dos 184 municípios cearenses, O POVO levantou que 77 (41,84%) não contam com o mínimo de logística própria de Polícia Civil - 46 dos quais não sofreram ataques a agências ou tiveram caixas eletrônicos violados desde 2007.
Agravante
A inexistência de delegacias soma-se ao baixo efetivo policial do Interior como atrativo aos ataques. Foram 44 só este ano. Dos 15.100 homens na ativa da PM, apenas 4 mil atuam longe da Grande Fortaleza. Cerca de 2.700 estão na reserva.
Os dados são da Polícia Militar, de quem O POVO requereu também o quantitativo de tropas nas 72 cidades atacadas nos últimos cinco anos. Contudo, não teve a demanda atendida mesmo uma semana após a solicitação ter sido feita via e-mail e reforçada três vezes por telefone.
A estatística de um militar para cada 562 cearenses preocupa, já que a Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda a proporção de um PM para cada 250 pessoas em zona urbana e um militar para cada grupo de 500 residentes em zona rural.
O comandante da Polícia Militar, coronel Werisleik Pontes Matias, admite a quantidade diminuta de PMs no Ceará. “Temos, em média, três homens por turno em 50% dos municípios”, revela.
Mas pondera: “a criminalidade no Interior não está diretamente ligada ao baixo efetivo. É preciso considerar a geração de emprego, a educação... Nenhuma Polícia do mundo consegue por um homem em cada esquina”.
Segundo ele, três mil novos militares serão incorporados dentro de dois anos e meio. Mil entrarão até dezembro próximo e serão lotados no Interior. É quando ele prevê “fôlego” para os batalhões atuais.
Werisleik classifica Fortaleza e Salvador como capitais-modelo quanto à política de segurança pública. “O efetivo diminuto é um convite? É. A gente sabe que existem dificuldades, mas vamos vencer! Eu não tenho dúvidas!”, frisa. E emenda: “Deus e a Polícia só são lembrados na necessidade. Passada a necessidade, Deus é esquecido e a Polícia é ignorada”.
Por seis vezes, O POVO tentou falar com o delegado-geral da Polícia Civil, Luiz Carlos Dantas. As ligações não foram atendidas ou retornadas até o fechamento da matéria.
O quê
ENTENDA A NOTÍCIA
A pouca estrutura física e de pessoal para prevenir e combater ataques a bancos no Ceará é apontada como estímulo ao crime. É crítica a situação no Interior, mas PM promete melhorias. Ontem, O POVO expôs um raio-x das ações em todo o Estado nos últimos cinco anos.
Serviço
Acesse a lista de delegacias do Ceará na página da Polícia Civil na Internet. O endereço é:
Saiba mais
O POVO solicitou à Secretaria da Segurança Pública números oficiais de ataques a bancos ocorridos de janeiro de 2007 a junho de 2012 no Ceará. O pedido foi feito por e-mail (no dia 11) e pessoalmente (dia 12). A princípio, a assessoria da pasta disse “estar trabalhando” para divulgar os dados no dia 15. No dia do envio, informou não ser possível cumprir o prazo por tratar-se de uma demanda muito específica. As informações seriam repassadas “no decorrer da (desta) semana”.
Bruno de Castro
brunobrito@opovo.com.br
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