Acusada de atropelar e matar três pessoas em acidente de trânsito ocorrido no dia 17 de março, a universitária Amanda Cruz da Silva, 19, disse, ontem, que foi coagida pelo delegado que recebeu o caso a admitir a ingestão de bebida alcoólica horas antes da colisão. Marlene Silva Maia, 17, Ana Rafaela da Silva Maia, 11 meses, e Alex Nascimento Sousa morreram na hora. Por pouco, uma quarta pessoa não foi atingida. A jovem prestou depoimento ontem na 3ª Vara do Júri do Fórum Clóvis Beviláqua.
Segundo Amanda, o delegado forçou-a a declarar que tinha bebido porque “a imprensa tava em cima e ele tava trocando de turno e queria ir embora”. “Ele mandou eu dizer e eu fiquei sem saber o que fazer e só confirmei. Falei forçada”, afirmou, sem citar o nome do civil.
A nova versão pegou a promotoria e até a defesa da estudante de surpresa. “Não sabíamos disto! Mas o depoimento como um todo desconstrói a tese de ser homicídio doloso (quando há a intenção de matar). É um caso típico de homicídio culposo (sem a intenção de matar)”, pontuou o advogado Francisco das Chagas Alves Pereira. A universitária negou ter dirigido em alta velocidade. De acordo com ela, o carro estava com menos de 60 km/h (limite da avenida Paulino Rocha, nas Cajazeiras). Testemunhas falam em 100 km/h.
Amanda admitiu, entretanto, ser usuária de fenobarbitúrico (controlador de convulsões) uma vez ao dia. Ela disse ter ingerido um comprimido 18 horas antes da colisão, quando preparava-se para ir a uma festa com amigos. “Saímos, mas o que bebi foi um refrigerante. E o remédio não dá sono. Nunca deu”.
Da festa, a estudante relatou ter ido dormir na casa um amigo. De lá, teria saído por volta do meio-dia para casa. Estava no carro do colega, na companhia do irmão dele. “Ele (o amigo) dizia: fica com a chave, porque você não bebe e eu me sinto seguro contigo”, afirmou. “Por isto, me deixou sair no carro. Mas uma moto passou de uma vez, eu tomei um susto e perdi o controle. Quando me dei conta, já tinha batido. Eu não sabia que tinham vidas ali. Eu não queria matar ninguém, não”, narrou.
A universitária chorou durante todo o depoimento e afirmou estar plenamente apta a conduzir o veículo. Sem carro e com a Carteira Nacional de Habilitação expedida há um ano, a jovem afirmou nunca ter se envolvido em acidente antes. “Não sou de andar rápido. Foi uma tragédia! Na hora, um monte de gente apareceu e até murro eu levei. O marido da vítima (Marlene) me ameaçou”, citou.
E agora
ENTENDA A NOTÍCIA
A instrução do processo por oitivas encerrou ontem. 12 pessoas foram ouvidas desde o dia 21, sendo quatro de defesa e oito de acusação. Algumas diligências e perícias, no entanto, ainda precisam ser feitas para o juiz José de Castro Andrade decidir se a ré vai ou não a júri popular.
Saiba mais
O POVO tentou falar com o delegado acusado de coação, mas não conseguiu localizá-lo até o fechamento da matéria. O POVO preserva a identidade pelo fato de ele não ser alvo de nenhuma investigação.
Amanda disse que não prestou socorro às vítimas por não saber que tinha matado três pessoas até a Polícia chegar e por ter sido cercada por populares. “Eu não entendia aquela confusão e pensava: o que eu fiz?”.
Uma das vítimas do acidente estava grávida. Por isto, Amanda é acusada pela promotoria de três homicídios qualificados por motivo fútil e aborto sem consentimento da gestante.
A defesa quer que AMC e Detran apresentem as multas por excesso de velocidade aplicadas no trecho onde o acidente aconteceu. Requerimentos serão enviados aos órgãos.
Bruno de Castro
brunobrito@opovo.com.br
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