Nem é preciso um olhar aguçado: prédios públicos, muros de residências, lojas. Nada parece escapar às ações dos pichadores. A situação é mais crítica no Centro da Capital, como bem evidencia a Praça General Tibúrcio, popularmente chamada Praça dos Leões, na rua Sena Madureira. Uma nova pintura foi feita há menos de seis meses, mas o vandalismo já pode ser reconhecido nos muros da praça e até na base do monumento ao general.
Mas um passeio pela cidade evidencia algo inusitado. Os monumentos religiosos costumam ser poupados pelos pichadores. A estátua de Santa Edwiges, na avenida Leste Oeste, apresenta uma pichação na base, mas o monumento está intacto. “Pelo menos eles respeitam a imagem dos santos”, pensa a estudante Andressa Matias, 16, que mesmo sem ser frequentadora da Igreja, considera a ação dos pichadores um desrespeito.
O desrespeito também não atingiu a estátua de Nossa Senhora da Saúde, no Mucuripe. Mas já aparecem algumas contradições: em frente à estátua, fica o cemitério São Vicente de Paula, que tem uma capela ao lado. E para eles, o respeito ficou apenas na teoria.
Em outra região da cidade, no Bairro de Fátima, um fato curioso: não, a estátua de Nossa Senhora de Fátima não foi pichada. Pelo contrário. Nela, O POVO encontrou nomes e pedidos de bênçãos – tudo escrito a lápis ou, no máximo, a caneta. “É uma manifestação que faz parte da cultura cearense”, argumentou o professor Cleudson Santos, de 30 anos, que passava por ali.
Mas, afinal, por que muitas imagens santas passam ‘despercebidas’ pelos pichadores? De acordo com a antropóloga Glória Diógenes, existe um respeito com a religião. “Existe ainda, graças a Deus, uma perspectiva do que é sagrado”.
Ainda segundo ela, a pichação, mesmo tendo um efeito nefasto, não pode ser considerada apenas de forma negativa e destrutiva. “Esses jovens poderiam passar facilmente para o grafite”, garantiu. Para isso, Glória ressalta que é necessário ampliar o acesso a direitos sociais básicos, como educação e lazer. Outro ponto fundamental, segundo a antropóloga, é fazer com que as ações repreensivas tenham um caráter educativo.
Uma exceção
Na Praça do Cristo Redentor, na avenida Castelo Branco, a pichação ao monumento religioso impressiona. A torre não foi empecilho para o ato de vandalismo. Nem mesmo o braço direito do Cristo elevado, como que abençoando a população, deu jeito.
Tanto a imagem quanto a cruz que Ele segura foram alvos dos pichadores. A cena incomodou o turista Júlio Haag, pela primeira vez no Ceará. “Como tem pichação na cidade! Lá no sul é em menor escala. É uma ofensa com a religião”, afirmou Júlio.
Por quê
ENTENDA A NOTÍCIA
Apesar de muitos pontos de Fortaleza sofrerem com a ação de pichadores, monumentos religiosos costumam escapar da ação de vândalos. Para especialistas, isso ocorre devido ao respeito pela religião.
Legislação
A lei federal nº 9.605 dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente.
Art. 65: Pichar ou, por outro meio, conspurcar (sujar) edificação ou monumento urbano:
Pena - detenção, de 3 meses a 1 ano, e multa.
§ 1º Se o ato for realizado em monumento ou coisa tombada em virtude do seu valor artístico, arqueológico ou histórico, a pena é de 6 meses a 1 ano de detenção e multa.
§ 2º Não constitui crime a prática de grafite realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística, desde que consentida pelo proprietário e, quando couber, pelo locatário ou arrendatário do bem privado e, no caso de bem público, com a autorização do órgão competente e a observância das posturas municipais e das normas editadas pelos órgãos governamentais responsáveis pela preservação e conservação do patrimônio histórico e artístico nacional.
Rita Brito
ritabrito@opovo.com.br
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