Francisco Lopes de Lima aprendeu a ler com a Bíblia. Natural de Uruburetama, no meio século de vida, seu Francisco já foi vendedor de churrasquinho, pipoqueiro, marido, filho. Há seis anos, é o “pai” de homens e mulheres que vivem na praça Almirante Saldanha, vizinha ao Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, no Centro.
Líder de uma casa improvisada ao lado do busto em homenagem a Carlito Pamplona, seu Francisco pede uma vida diferente. “Pensei muitas vezes em voltar pra casa. Mas lá vou ficar com a mente ociosa. Preciso ter algo pra fazer. Queria um trabalho e que todos aqui fossem para um abrigo”, declara o homem, que consegue o sustento para todos a partir da coleta de material para reciclagem. Na cabeça, segue para o trabalho com a tabela do preço de cada material; nas costas, o saco que é meio de trabalho desde que o carrinho foi roubado.
E graças ao conquistado pelo suor – porque pedir ele não acha certo – há comida diariamente para os muitos dele. Todos que chegam na esquina das avenidas Pessoa Anta e Almirante Jaceguai sabem que sobre a fogueira do grupo tem almoço sempre. Para todos. “Chega drogado ou ‘bebum’ e eu mando embora. Mas quem precisa, a gente ajuda. Não fica um sem comer”, orgulha-se o homem que só não aceita a presença de gente “envolvida em confusão”. “Porque aí vem a Polícia e sobra pra mim”.
Para Cláudio Henrique, o Louro, de 25 anos, Francisco é “o pai da praça”. Há três anos, Louro foi levado às ruas pelo vício. “Quis não dar mais dor de cabeça pra minha família”. Sem casa ou documentos, a reciclagem foi a solução, e a “casa” de Francisco, o lar. “Queria uma oportunidade de trabalho. Porque aqui as pessoas passam olhando atravessado ou atravessam correndo a rua”, diz.
Incômodo
Ambulantes que trabalham na praça não são simpáticos às pessoas que vivem por ali. “Nas outras administrações do Dragão do Mar, vinha o segurança e botava tudo pra correr. Agora está assim, entregue às baratas. E eles deixam esse mau cheiro, urinam na rua, bebem, usam drogas”, reclama um vendedor, que não quis se identificar. “O turista chega aqui e dá de cara com esse pessoal, com esse lixo. Está tudo abandonado”, diz um colega.
A Secretaria Executiva Regional do Centro (Sercefor) diz que, ainda neste ano, paisagismo e manutenção serão executados na praça.
O quê
ENTENDA A NOTÍCIA
O POVO online
O repórter Moacyr Luiz, da rádio O POVO/CBN, entrevistou um dos moradores que ocuparam o Dragão do Mar. Escute em http://bit.ly/xyPhwo
Mariana Lazari
marianalazari@opovo.com.br
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