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ÁGUA FRIA 13/04/2013

Desenhos humanos de um bairro

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A palavra bairro evoca território com características físicas e culturais que, para além do nome que lhe é ofertado, confere-lhe identidade própria, um jeito de ser. Digo ser, porque bairro é antes de tudo as pessoas que nele habitam – em sentido amplo -, e suas capacidades de intervir no ambiente, alterando paisagem, situações, hábitos e comportamentos, em infindável recriação através do tempo. Interessante observar, de modo criativo e nada científico, que descontruindo a palavra bairro, desvelamos “barro” e “ir”, em alusão – ao menos para mim -, ao torrão, ao terreiro, à matéria de que somos feitos.

 

Queridos leitores, não esperem de mim uma crônica exaltadamente bairrista, até porque nasci e cresci no Pan-americano - pelo qual reservo imenso carinho. Depois mudei para Damas, Centro, Fátima, Iracema e tantas outras casas que até nem lembro mais. Todas com suas histórias e cenários. Água Fria, bairro, é para mim, um rio que corre veloz na sua artéria principal – a Washington Soares -, arrastando afluentes. Rio apressado como se atrasado, em busca do tempo perdido.


Observando com sentido mais acurado, há outro rio, o Cocó. Tranquilo de águas frias, devido ao manguezal a sua volta, com suas árvores que dão sombra e suas lamas umedecidas que resfriam o ambiente. Rio que dá para o mar uma entrada para o continente. Um rio onde desbravador de outras terras, em tempos imemoriais, teria se aventurado e descoberto o sal, ou talvez o amor. Essa possível história não está narrada em livro nenhum, nem na memória das pessoas, assim como tantas outras histórias desse bairro.


Descobri as Águas Frias em aulas de geografia a bordo do carro de meu pai, Hemetério, e minha mãe, Gislene, que tinham mania de passear com os filhos nos fins de semana pelo entorno da cidade, ensinando-nos ciências naturais e sociais. O rio, o manguezal, a salina (que saudosos ainda podem rever em fotografias em preto e branco), as dunas, a mata atlântica ou o que restou dela, quase tudo ainda está lá. E, no outro extremo do bairro, a casinha de José de Alencar. Para mim foi desconcertante conhecê-la, visto que as referências que tinha do escritor eram o magnífico teatro que leva seu nome e o volumoso romance Iracema.


E por falar em Iracema, não podemos esquecer as suas tantas descendentes que habitam, atualmente, as Águas Frias. Netas e filhas de pescadores, deslocados pela especulação das adjacências do Meireles, vieram se assentar à beira do Cocó. Esses povoados deram início às favelas do Dendê, Baixada e Alvorada, entre outras. Aglomerados que constituem imensa malha desforme e sem estrutura numa área em acelerada urbanização onde residências de luxo, shoppings, universidades, escolas, bancos e restaurantes disputam espaço e mercado no novo eldorado alencarino. Que esperanças nutrem essas Iracemas e seus irmãos? Que herói virá resgatá-los da condição marginal, à beira do rio que não traz e nem os leva a nada? Qual o real acesso às escolas de qualidade, às universidades, ao trabalho digno, à vida corrente do bairro?


Quando decidi construir a Edisca na Água Fria fui imensamente criticada por não tê-la feito no Jangurussu, Bom Jardim ou Serviluz. Minha convicção e escolha apontavam para o direito de projeto social, destinado aos filhos dos pobres, localizar-se em área dita nobre e abastada. Por ser o humano produto do meio em que vive e das oportunidades oferecidas, reivindiquei o direito de as crianças da Edisca sair da favela - todo o dia -, atravessar a cidade, e da janela do ônibus fazer leitura crítica e interagir com os diversos espaços e pessoas que compõem o trajeto de casa à Edisca e da Edisca a novos horizontes. O direito de conhecer novos modos de ser e estar, sonhar e projetar-se.


Sim, o bairro é super bacana! Tem de tudo um pouco e algumas coisas até demais. Água Fria é a aldeia do Futuro, aldeia que se propõe maior que a Aldeota. Mas, para ser verdadeiramente grande, terá de desenvolver também um olhar fraterno e solidário a todos os que a habitam.


Dora Andrade


Ama gente. Essa é a matéria prima de sua arte. Escolheu ser coreografa ou, como costuma dizer, educadora do olhar. Escolheu o palco, o gesto, a palavra e sobretudo a ação para dizer a que veio.

 

> TAGS: andrade dora
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