Enquanto o consumidor brasileiro acredita que a inflação vai aumentar nos próximos seis meses - segundo pesquisa divulgada ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) -, analistas de mercado ouvidos pelo Banco Central (BC) reduzem, pela nona semana seguida, a estimativa de inflação para 2012, medida através do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). De acordo com a pesquisa Focus, do BC, o IPCA deve encerrar o ano com um índice de 5,28%. Na semana passada, essa estimativa era de 5,29% e, há um mês, de 5,32%.
Afinal, quem tem razão? O consumidor que sente a elevação dos preços, no dia a dia, ou os analistas de mercado, que calculam os índices de inflação de acordo com as mudanças macroeconômicas? “São duas percepções diferentes. De um lado estão os economistas, que veem o panorama mais global, internacional, onde o mundo cresce menos e a pressão inflacionária é menor. No lado do consumidor, que sente a pressão sobre os preços, há a visão do dia a dia, com uma preocupação com a inflação”, explica o economista Ricardo Eleutério, professor de economia internacional e de mercado de capitais.
Para ele, o problema maior, neste momento, não é a inflação, cujo risco de crescimento ele descarta, mas o crescimento. “A própria ação do Banco Central em puxar os juros pra baixo, através das sucessivas reduções da Selic, desde agosto do ano passado, sinaliza isso. A questão, agora, é animar a economia, porque a desaceleração da economia mundial virá”, afirma o economista.
Medo histórico
Na opinião do presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Vicente Férrer, há um medo histórico da sociedade brasileira em relação à inflação. Além disso, ele aponta que o medo do retorno desse fantasma também é causado por uma população que está muito endividada e não consegue ainda responder ao consumo, como o Governo deseja.
“Todos os grandes conglomerados, analistas, instituições e o meio acadêmico estão apostando que o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro cresça somente 3%. O Governo precisa que o Brasil cresça mais que isso, por isso está estimulando as famílias a comprarem mais, aumentando o crédito e reduzindo a taxa de juros”, analisa.
“Quem teve pneumonia, tem medo de qualquer resfriado”, sentencia o consultor econômico e professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Lauro Chaves. Ele explica que, durante quase três décadas, o Brasil experimentou níveis de inflação bastante elevados, o que teria levado a uma cultura inflacionária.
“As pessoas têm isso já no inconsciente. Quando vai haver um reajuste, como de condomínio ou de salário, fala-se que tem que repor a inflação do período. Esse medo da inflação é porque o consumidor tem consciência de que o principal prejudicado é o trabalhador assalariado”, argumenta o economista.
Por quê
ENTENDA A NOTÍCIA
Enquanto a pesquisa do BC analisa o cenário econômico nacional e internacional, a pesquisa da CNI trabalha com as expectativas e os anseios do consumidor brasileiro, que, muitas vezes, estão recheados com uma cultura inflacionária
Frases
Economistas ouvidos por O POVO analisam a expectativa de inflação medida pelo IPCA
Não está imune
Se a crise da Europa e dos EUA se aprofundar, pode trazer a inflação de volta. O Brasil está mais seguro que os outros países, mas não está imune.
Lauro Chaves, consultor econômico e professor da Uece
Medidas seguras
Acho que não existe o risco de a inflaçãovoltar. Isso aconteceu ano passado e o Governo tomou medidas seguras para conter o problema
Vicente Férrer, presidente do Corecon-CE
Crescimento
A própria ação do BC em puxar os juros para baixo sinaliza que não há risco de inflação. O problema maior passa a ser o crescimento e o secundário, a inflação.
Ricardo Eleutério, professor de economia internacional e de mercado de capitais
Bruno Stéfano
bruno@opovo.com.br
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