A infância foi marcada pela agitação e pela impulsividade. Na memória, as brincadeiras “de pinotar o tempo inteiro” e as incontáveis punições da mãe, pelo mau comportamento ou pela impaciência diante da maioria das situações, são as lembranças mais vivas.
No colégio, era a primeira a correr para o recreio. Não se concentrava nas matérias que exigiam “parar para ler”; poucas vezes, conseguia permanecer sentada e prestar atenção às explicações dos professores. “Me irritava ficar parada, só ouvindo”. Ela gostava muito mais de física, química e matemática, porque eram disciplinas mais dinâmicas, com mais desafios, que prendiam a atenção.
A identificação de pessoa agitada tornou-se a principal marca dela, com o passar dos anos. Com certas características, como a intensa ansiedade, ela precisou aprender a conviver. Hoje, Fátima Costa Moura tem 47 anos e somente há oito descobriu que é hiperativa. O diagnóstico dado ao sobrinho a fez abrir os olhos e investigar melhor sobre si. A constatação chegou, tantos anos já passados. O tempo, e não a ciência, a ensinou a conviver com o distúrbio da hiperatividade.
“Quando a gente se torna adulta, vai tendo que entrar nos eixos, de um jeito ou de outro. Fui precisando me adaptar com a impulsividade, com a ansiedade. Sem nenhuma orientação, foi um grande esforço, sem dúvida”, avalia Fátima.
Segundo Fernando Bryt Trosman, fundador e coordenador do Núcleo de Inovação e Pesquisa do Transtorno por Déficit de Atenção, Hiperatividade e Problemas de Conduta (NIP/TDAH), da Universidade Estadual do Ceará (Uece), a hiperatividade, aliada ao Transtorno do Déficit de Atenção (TDA), é mais frequente em crianças de 5 a 10 anos. “Há uma prevalência média de 5%. Pelo menos um em cada 20 alunos padece”, declara. De acordo com o professor, trata-se do distúrbio mais comum entre crianças.
Apesar de não tão rara, a hiperatividade e o TDAH ainda não são identificados como deveriam, muito menos tratados, sem desvantagens para uma adaptação escolar, conforme explica o professor Fernando. Segundo ele, as crianças constroem a identidade e a autoestima a partir do que os outros consideram. Se a criança recebe do meio uma imagem negativa, ela vai se considerar ruim e adotar o papel de palhaço, posto pelos colegas. Poucas são as que conseguem superar isso.
Tratamento
Fernando alerta sobre a grave distorção no tratamento daqueles que possuem TDAH. “Muitas crianças, adolescentes e adultos estão sendo medicados com Ritalina, sem receber o tratamento psicoterapêutico específico. Isso é muito grave, já que o medicamento controla os sintomas momentaneamente, mas os processos psicopatológicos continuam”, adverte. A orientação é para que a terapia psicofarmacológica, quando indicada, esteja sempre vinculada à terapia psicológica. Assim, haverá, de maneira eficiente, a autorregulação e a readaptação socioemocional e cognitiva das crianças.
Atualmente, Fátima segue o ritmo acelerado, à maneira como aprendeu por si mesma. Engenheira agrônoma, ela trabalha dois expedientes e ainda encontra tempo para o curso de inglês e a faculdade de psicologia. Casada, mãe de dois filhos, ela avalia com bom humor tanta disposição. “Sempre fiz, e bem, muitas coisas ao mesmo tempo. Até gosto. É bom porque não há perda de tempo”, diz. (Sara Rebeca Aguiar)
Saiba mais
O neurologista infantil André Luiz Santos Pessoa alerta que, no caso do TDAH, não necessariamente decorre-se um transtorno de aprendizagem, apesar de ser comum o diagnóstico relacionado, por isso elencado, popularmente, entre os transtornos mais comuns nas crianças.
Ele enfatiza que os transtornos de aprendizagem não estão relacionados a retardo mental. “Acontecem com pessoas com nível de inteligência normal, apenas com déficits focais em alguma funções cognitivas, como leitura e
escrita”, explica.
André Luiz Santos Pessoa acrescenta que o acompanhamento a pessoas portadoras de transtorno é importante porque, desde cedo, evita-se um rendimento aquém do esperado. “A consequência mais comum é a pessoa não render o que poderia ter rendido, não ter atingido metas que poderia atingir, caso estivesse bem adaptado às limitações do transtorno”, diz.
Veja o jornal de hoje e os cadernos
Copyright © 1995-2012