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Crônica 06/08/2012 - 16h15

A melancolia de Ozymandias e Hollywood(y) Allen

Cada vez mais nutro um sentimento genuíno de admiração pelo ser humano
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 A melancolia de Ozymandias e Hollywood(y) Allen

 

Ana Cristina Cunha da Silva


Semana passada fui assistir ao novo filme do Woody Allen (Para Roma com Amor) e, constantemente, alguns personagens citavam em suas falas a "Melancolia de Ozymandias". Fiquei logo curiosa para saber o
significado da expressão. Trocando em miúdos o significado da Melacolia de Ozymandias: o ser humano, mesmo quando está consciente de todas as coisas grandiosas que constrói e tem motivos para se orgulhar
delas, em vez de ficar feliz por isso, amaldiçoa a sua própria finitude nesse universo com uma tristeza confusa por não saber ao certo porque isso tem de acontecer.
O termo faz referência a um monarca da antiga era e também a um faraó que adotou esse codinome. Mas o fato atípico que quero mencionar aqui é a satisfação de encontrar uma feliz coincidência nesse novo saber adquirido: semana passada eu ensaiei por várias vezes compartilhar um estado de espírito muito parecido com o que a melacolia de Ozymandias prega. No meio da correria, e também por razões de timidez, desisti
por quantas vezes tentei. Não obstante, a vontade de dividir essa visão de mundo com meus pares não cessou, já que a vontade de escavar mais sobre essa questão, antes já sedimentada no meu ser e acredito no
dos demais viventes, veio à tona várias vezes ao longo da semana. E, finalmente ontem, veio aquela sensação de certeza por ter finalmente feito contato com outro ser humano, porque é esse o sentimento que nos toma quando nos identificamos com os escritos de alguém que decanta pensamentos de forma sublime por meio de palavras. A consciência plena da morte não seria uma coisa tão positiva como apregoa alguns filósofos. Saber que escapar da morte é um fato inevitável parece ser até uma maldição a qual estamos relegados.
Cada vez mais nutro um sentimento genuíno de admiração pelo ser humano. Mesmo sabendo que um dia certamente morrerá ainda arranja mil motivos para driblar a morte - a mais comum é a reprodução da espécie, coisa que qualquer pessoa fértil pode fazer, sem lhe requerer muita sanidade mental para isso. Outra forma de driblar a morte é criar concepções ilusórias de vida eterna %u2013 fato indiscutível do ponto de vista epistemológico. Por fim, entra para o rol da anti-melacolia ozymandiana a alegria desproporcional, quase eufórica e ensandecida dos imediatistas que odeiam planejar e, ainda por cima, gostam de atacar aqueles que têm um projeto de vida em planejamento. Não faço parte de nenhum dos times acima. Só acredito que, embora sentir melancolia possa seja muito viciante, digo isso por experiência própria, talvez estar consciente do que fazer com ela e usá-la em
benefício próprio seja a sugestão mais acautelada que se pode oferecer a aqueles que estejam sempre procurando a felicidade.
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