Entrevista 18/08/2016 - 01h30

Um novo épico. Rodrigo Santoro fala sobre o filme Ben-Hur

Famoso pela interpretação de Charlton Heston no filme Ben-Hur, de 1959, o injustiçado protagonista volta às telas dos cinemas de todo o mundo hoje, 18, em nova roupagem e retomando a atualidade de seus temas
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Sob o domínio do império romano, um ex-escravo busca voltar a sua vida pacata, destruída por seu irmão adotivo. A história de Judah Ben-Hur, um dos grandes personagens do cinema e da literatura, gira em torno de um embate de redenção e vingança. Famoso pela interpretação de Charlton Heston no filme Ben-Hur, de 1959, o injustiçado protagonista volta às telas dos cinemas de todo o mundo hoje, 18, em nova roupagem e retomando a atualidade de seus temas.

A história original de Judah surgiu em 1880, no livro Ben-Hur: Uma História nos Tempos de Cristo, de Lew Wallace. Em busca de fugir das inevitáveis comparações, a produção do longa de 2016 adianta que  o filme é uma adaptação do livro, e não uma refilmagem da versão de 1959. 

Sob a direção do cazaque Timur Bekmambetov, responsável por O Procurado (2008) e Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (2012), o filme apresenta um novo começo para seus protagonistas, Ben-Hur (Jack Huston) e Messala (Toby Kebbell). Ao invés de amigos, como na história original, Messala agora é irmão adotivo de Judah, de forma a aproximar os laços dos jovens. Acusado falsamente de um crime, Ben-Hur é preso e condenado a passar o resto da vida como um escravo nas galerias de uma embarcação. Após um naufrágio o recolocar de volta à sociedade, o aguardado reencontro ocorre, para ser disputado em uma vingativa corrida de biga dos, agora, adversários. Em paralelo, uma figura messiânica famosa mundialmente começa a se popularizar pela região.

Mote principal do longa de 1959, a vingança é retratada aqui como um sentimento a ser superado. Bem mais positivo, o filme de Timur busca se aproximar da base religiosa de fãs, principalmente pela presença acentuada de Jesus Cristo (Rodrigo Santoro) na história.

Durante o evento de lançamento do filme, em São Paulo, os atores Rodrigo Santoro e Jack Huston conversaram com jornalistas. Divertido, Santoro não poupou palavras sobre o processo de preparo e execução de seu personagem, que envolveu “muita pesquisa em livros, filmes e pinturas”, disse. Ao O POVO, o ator falou sobre o receio de assumir um  papel já interpretado inúmeras vezes.

“O diretor dizia que a gente ia ter respeito pelo que tava nos evangelhos, mas que iríamos fazer de uma forma mais coloquial. Adorei a ideia e é isso que mais gosto.  É a proximidade. Até a própria caracterização (de Jesus), tudo foi pensado para que ele estivesse mais ali misturado.

Jack Huston, que vive o protagonista do filme, ressaltou que o preparo para o clímax de Ben-Hur, a corrida de bigas, foi um dos momentos mais duros de sua carreira Por semanas, ele e Kebbell treinaram com diferentes tipos de bigas, até conseguirem atingir resultados tão grandiosos como os vistos em 1959. Um dos desafios era evitar o uso de computação gráfica, indisponível na década de 1950, mas que não impediu o enorme realismo da cena.

“O público de hoje já está acostumado a imagens magníficas na tela. Caso fizéssemos isso com efeitos especiais iríamos perder o coração da corrida. Para a audiência sentir, para ela imergir na corrida, você também tem imergir na corrida. (A filmagem) Parecia uma corrida da Nascar, mas com quatro cavalos como carros”, conta o inglês.

Mesmo com as boas expectativas de lançamento, a responsabilidade do novo filme é grande. O Ben-Hur de 1959 foi o primeiro filme a vencer 11 categorias no Oscar, número igualado por Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003). O longa também marcou o fim da era de ouro de Hollywood, com seus cenários megalomaníacos e temas épicos.

– Como ter uma abordagem sua pra um personagem tão icônico e que representa mais que só um papel para muita gente?
Santoro – Exatamente, ele representou mais que apenas um papel pra mim. Também tinha minha própria relação com a imagem. Cresci estudando histórias do menino Jesus com minha avó, que é católica. E minha outra avó faleceu, que era espírita. E sempre tive muitas referências. Mas pra fazer esse trabalho eu tive que me distanciar dessa imagem, para poder não esquecer que estava fazendo um personagem encarnado, um homem. Um homem muito especial, mais especial da face da terra, mas um homem. É difícil falar o trabalho de preparação pro papel. Vi referências em filmes, literatura, pinturas, os evangelhos. A preparação é um processo que gosto muito porque é de muito aprendizado, não foi racional. Uma coisa, por exemplo, a gente tem o Jesus bíblico e o Jesus histórico, em que cada vez mais a gente conhece o Jesus histórico. Eu mesmo li um livro, dentre vários, mas esse foi um livro interessante chamado, “Zelota”. 

– E como foi a caracterização do personagem?
Santoro – Tem até uma tentativa de identificar como Jesus era fisicamente, mas a gente tem a imagem renascentista. Temos o Jesus louro, alvo. Como ele era? Eu acho que isso não é o mais importante. Falando de luz, amor, de coração, de valores, ensinamentos. Eu acho que o foco é esse, independente se ele era loiro, moreno, negro. Cheguei a conclusão de que precisava encontrar a minha forma de fazer. A ideia era humanizar o máximo possível, era trazer um Jesus mais próximo das pessoas, mais misturado e menos separado, mais dando exemplo e menos pregando. Essa era a ideia do diretor e foi o que me encantou. Naturalmente, quando recebi o convite, eu falei “nossa, já foi feito tantas vezes, o que eu posso fazer. São apenas alguns momentos, não é a história de Jesus”. Aí ele começou a falar, o Timur (Bekmambetov, diretor de Ben-Hur), “vamos fazer com câmera na mão, quase documental, com momentos dele mais jovem, depois mais profeta. Ele ta ali misturado, umas cenas em que ele vai estar demonstrando, através das ações e menos dos discursos”. Ele dizia que a gente ia ter respeito pelo que tava nos evangelhos, mas vamos fazer de uma forma mais coloquial. 

– O que você achou da ideia?
Santoro – Adorei a ideia e é isso que mais gosto. E a sensação que eu tenho é de que essa era a grande ideia, do Grande Professor. Não era de ficar no trono, dizendo o que fazer, o que é certo para se fazer. É a proximidade. Até a própria caracterização, tudo foi pensado para que ele estivesse mais ali misturado. É a ideia que me parece mais função desses ensinamentos, é aproximar. Uma coisa é a gente ler, fazer “ao próximo o que querem fazer com a gente”, “amar seus inimigos”. Outra coisa é colocar na prática, de verdade. Fazer, conseguir sentir aquilo. É estar no trânsito, o cara te fechar e teu instinto natural, humano, é um instinto de “pô, por que você fez isso comigo?”, é um instinto de se defender. Como você transforma esse sentimento e exala amor para essa pessoa. 

– E essa mudança em Jesus é uma das maiores em relação ao filme de 1959, onde ele mal aparece. 
Santoro – Propositalmente, pelo que eu li numa entrevista, que o William Wyler (diretor do original) não quis correr o risco. Exatamente porque Jesus tem uma imagem no coletivo muito forte. Então pra isso, ele toca música e coloca uns pedaços. 

– E quando te chamaram pro filme, você já sabia que o Jesus desse Ben-Hur teria mais espaço?
Santoro – Sim, porque li o roteiro. Aí tive um skype com o diretor. E, mesmo depois de ler, fiquei ainda muito mexido com a possibilidade. Já havia sido convidado pra fazer essa personagem na Paixão de Cristo. E eu tava trabalhando, então não pude fazer. Claro que ficou ali num lugar em mim, porque é um personagem incomparável. Mas quando esse convite veio, fiquei em dúvida, receoso. No skype com ele a gente teve uma conversa muito direta, e que me mostrou exatamente o que ele queria. E eu embarquei. E eu fiz uma escolha consciente por mim. 

– Essa caracterização de Jesus tem dois lados, né, uma política e outra religiosa. Me pareceu que o filme vai mais pela política. 
Santoro – Eu não digo política, mas histórica. No livro Zelotes, o que é Zelotes? É aquele que zela pelo nome de Deus. E Zelotes era um movimento revolucionário, no qual dizem que Jesus talvez tenha feito parte. Então existe esse cunho mais, contextualizado. É uma mistura, tá balanceado. A gente tem os momentos dele com Ben-Hur, do amor, mas sem estar num amor adocicado. Você vê que quando ele levante o Ben-Hur, é quase como um médico, que fala “bebe aí a água, pra você melhorar”. Não é aquela coisa (imita uma versão mais delicada) “meu filho, venha aqui…” É muito mais uma coisa mais viril, tem uma certa virilidade aí. 

- Como você vê a relação do filme com os dias atuais? Ele toca em vários assuntos, intolerância religiosa, muita coisa que a gente está presenciando.
Santoro – Eu acho que essa é a maravilha de um filme baseado em um livro de 1880, e a gente tá falando disso hoje, e tá fazendo todo o sentido. Eu acho maravilhoso. Acho essa possibilidade de refletir, fazer analogias, mesmo que a gente esteja falando de um épico, absolutamente saudável. Você não é a primeira pessoa que fala isso. Ontem (noite de estreia), eu tive algumas pessoas que foram como convidados. E um deles me escreveu isso. “Muito contemporânea a história, tô aqui digerindo e depois te mando”. 

- Você se tornou um cara mais religioso depois do filme?    
Santoro – Religioso não. Sempre tive contato com minha espiritualidade por conta das minhas avós. Então tive contato com essas duas avós. E eu sempre trabalhei e valorizei minha espiritualidade. Claro que em uma experiência como essa é impossível não sair transformado. Como eu fiz essa escolha consciente, me propus a praticar esses exercícios. Como artista, você está sempre tentando entender  como habitar o coração de uma personagem. No caso de Jesus Cristo, se eu tiver uma mínima fração do que foi o coração dele, dos que foram os valores, já reescrevi minha vida, minha sensibilidade, pude plantar essas sementes que sempre escutei. Mas agora ela entrou, eu senti. Porque fica marcado, aí fica uma memória. Trabalhei isso, construí isso, então, naturalmente, não sou a mesma pessoa de antes. 

- Pode falar mais sobre isso?
Santoro – O que mais eu reparo é a questão da prática. Tirar da palavra e colocar em prática. Todo mundo quer ser bom. Eu, pelo menos, tento sempre ser uma pessoa melhor, evoluir a cada dia. E eu acho que a chave pra evolução do ser humano são as pessoas à nossa volta, lidar com as pessoas que você encontra. Essa é a real chave pro teu progresso como ser humano. Não é que amanhã vou ser o Dalai Lama. E ele mesmo já declarou que tudo é trabalho constante. E isso ficou pra mim. E quando sentir as coisas negativas, tenta transformar isso. Cada um tem sua forma. Todos temos qualidades e defeitos e me conscientizo em trabalhar nesses defeitos. Eu já faço análise há bastante tempo, que também me coloca em contato com minhas questões. E o que posso dizer que tiro dessa experiência é o tanto que trabalhar pra ser uma pessoa melhor. Não necessariamente mais religioso, mas mais consciente, com mais vontade de evoluir, de trabalhar e ficar melhor pros outros e pra mim. E eu posso dizer que, durante o tempo em que estive lá, nunca me senti tão bem. Em toda a minha vida. 

- Aqui no Brasil há num boom de tramas religiosas na TV e no Cinema. O que você acha dessa nova tendência?
Santoro – Acho que estamos encontrando o grande “Vezão”. V, de vazio. Dentro, quando você fica ansioso demais. Vivemos tempos muito ansiosos, muito acelerados, muito violentos. Nessa época, do filme era “ou eu, ou ele”. Atualmente é “nem eu, nem ele”. A gente ta num lugar em que nem a gente ta conseguindo assimilar. Pode ser uma busca por conforto. Porque somos seres humanos. Não adianta a gente achar que é biônico. Tem horas que dá um medo, vazio, desconforto. Não sei se é isso.

- Apesar desse lado emocional, ainda é uma grande produção, em 3D. A gente ainda tem esse vislumbre de “olha, é o Rodrigo, um de nós”. Você tem isso ainda em Hollywood? 
Santoro – Cara, a questão do tamanho eu tive essa experiência com 300 (2006). Inclusive em Imax. Eles fizeram uma sessão pra gente. E eu me lembro do choque. Porque quando filmei, eu vivia entre paredes azuis, verdes, não tinha nada! E eu falava com uma fita crepe. Então foi uma experiência extremamente solitária, e um desafio de outro planeta, que eu me virei pra fazer. E eu lembro que até a hora de dormir eu não conseguia falar. Não conseguia formatar o que eu tinha que dizer, o que eu tava sentindo. Ainda digerindo. Foi uma feijoada das pesadas! Essa coisa do deslumbre, das expectativas, de Hollywood. Sinceramente eu olho para o que estou fazendo. E me perguntaram como foi trabalhar com o Schwarzenegger (no filme O Último Desafio). E eu tive essa impressão de estar na sessão da tarde (risos). “Caramba, é o Conan, é o Exterminador!”. Claro que tem isso, ele fez parte do meu imaginário quando eu era moleque. E não era igual a hoje, em que todo mundo é saradão. Ele era sobre-humano. Uma entidade gigante. Claro que eu já tive esses momentos. Mas eu não chamaria de deslumbre, ali foi minha criança. Esses momentos já existiram. Mas procuro me focar mesmo, me conectar com o que tá acontecendo.

- Em relação à cena da crucificação, ela foi feita no mesmo lugar que foi feita a do Mel Gibson. Te pergunto: qual dos mandamentos é o mais difícil de chegar e como é trabalhar com um deus como J.J. Abrams, em Westworld?
Santoro – Deus é muito, mas o J.J é um cara genial, um visionário. Extremamente inteligente, em cada comentário. Você conversa com o cara e você sente que ele ta num lugar diferente. Eu diria que é um dos caras mais impressionantes com quem eu já trabalhei, que eu já conheci. Até quando ele começa a explicar alguma coisa, é visionário. Ele enxerga as coisas de forma muito particular, muito diferente. Se antes eu já era fã, agora sou ainda mais. E não só ele, o Jonathan (Nolan) também, que é o criador. Fora que ele é um cara muito tranquilo. Só tenho coisas boas a dizer sobre ele. Sobre os mandamentos, é uma pergunta praticamente impossível de responder. Não tenho propriedade. Não cheguei em todos eles pra te dizer. 

- E sobre a cena de crucificação?
Santoro – Nesse dia, fez um frio descomunal. Nevou, na noite anterior. E ventava. E eu fiz tudo de uma vez. Foi a saída que eu encontrei pra não demorar tanto. Eles fizeram um esquema de secador grande, com ar quente. E eu dizia pra fazer tudo de uma vez, repetir de novo, e eu continuar, sem precisar cortar. Um take longo. Eles foram muito generosos, bem parceiros. Eu não lembro direito, tava muito frio. Eu tava num transe mesmo.

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