18/08/2016 - 01h30

Entrevista: Silas de Paula fala sobre os Encontros de Agosto

Em sua sexta edição, os Encontros de Agosto promovem articulação entre os estados do Nordeste e trazem a alteridade para o centro das discussões. Evento celebra também o Dia Mundial da Fotografia
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Entrevista com Silas de Paula - fotógrafo, pesquisador e curador da Convocatória dos Encontros de Agosto

O POVO - Neste ano, o festival traz o intercâmbio entre a fotografia cearense e os estados vizinhos. O que caracterizaria uma “fotografia nordestina”? É possível perceber uma marca distintiva?


Silas de Paula - Tenho problema com o rótulo, não dá conta da multiplicidade atual de olhares dos fotógrafos do nordeste. Acho que a questão deve ser percebida de um jeito mais amplo. Temos grandes mestres da fotografia documental e jornalística e, talvez, por isto a tentativa de rotular. Viver em um lugar, qualquer lugar, nos afeta e com isso fotografamos as pessoas, as coisas do entorno e criamos imagens subjetivas. Toda fotografia é um autorretrato, é o nosso jeito de ser no mundo e é isto que a caracteriza. Viver no nordeste, no Ceará, me afetou e fez da minha fotografia muito do que ela é hoje. Nem nasci aqui, mas sou conhecido com um fotógrafo do Ceará e gosto muito disso. Mas não faço uma “fotografia nordestina”, mas uma fotografia como outra qualquer. Para mim, fotografia, arte, não devem ser rotuladas pela nacionalidade, mas pela potência criativa, pela linguagem, pela qualidade, etc.

O POVO - Como a fotografia cearense se move nesses territórios?

 

Silas de Paula - Acho que muito bem. Temos os nossos Grandes Mestres que já se foram, como Chico Albuquerque e Luciano Carneiro, fotógrafos maravilhosos como Tiago Santana, Celso Oliveira, Gentil Barreira, para citar só alguns, artistas que se movem na fronteira e utilizam a fotografia como suporte de seu trabalho, como Yuri Firmeza e Solon Ribeiro e uma juventude que está surgindo com um trabalho muito instigante. É sempre difícil citar. Muitos ficam de fora. O que precisamos é dar mais visibilidade a eles e é isto que os Encontros de Agosto estão fazendo.

O POVO - O sertão e o litoral sempre foram protagonistas das imagens feitas aqui. Pode-se falar de um determinismo geográfico-fotográfico? Como fugir dos clichês e reelaborar as paisagens?

 

Silas de Paula - A fotografia de paisagem é algo que não vai morrer, nosso sertão é incrível e o litoral também. Como não fotografá-los? É lógico que os clichês existem mas, às vezes, gosto muito deles. Gosto de fotografias bonitas. Além disso, no atual momento artístico, o movimento voltado para o que chamado de Realismo/Materialismo Especulativo, a questão ambiental é fundamental. O sertão e o litoral e as cidades são protagonistas de um processo artístico contemporâneo. A Terra e a vida contemporânea precisam ser vistas e revistas. Reelaborar essas paisagens é papel da fotografia e, talvez, os clichês nos ajudem a pensar no que estamos perdendo.

O POVO - Em vários momentos é evocada uma tradição documental na fotografia cearense. De que forma isso vem se transformando? Hoje haveria mais compromisso com a invenção do que com a documentação?

 

Silas de Paula - A fotografia é um milhão de coisas, entre elas o documental que no Ceará tem uma grande tradição. Alguns fotógrafos, não só por aqui, têm fugido da linguagem clássica documental procurando um olhar mais subjetivo, mais ficcional,esta relação que você diz entre invenção e documentação. Sempre gostei da experimentação, mas fico preocupado com o que se coloca como “fadiga do olhar”, principalmente no jornalismo e no documental. Com a quantidade de imagens no mundo fica difícil chamar a atenção. Os olhos ficam cansados de ver coisas semelhantes, daí a fadiga do olhar, principalmente com as fotos de violência, guerras, sofrimento, etc. A fadiga está na imagem ou em um mundo que só piora e por isso é melhor não vê-lo de modo tão objetivo? É papel unicamente da fotografia de transformar a imagem do mundo? Ou é de todos nós? A fotografia é expressão de seu tempo, para mudá-la precisamos, também, mudarmos como seres humanos.

O POVO - Em tempo de “supremacia das selfies”, os Encontros de Agosto propõem uma reflexão acerca da alteridade. Será que estamos chegando à saturação dessas imagens que têm o ego como protagonista? Qual a importância de olhar para o outro como companheiro e/ou lugar de criação e inventividade?

 

Silas de Paula - Não, não acredito na saturação das selfies. É um retrato, um autorretrato, e vai continuar. As pessoas gostam de ser retratadas e com a selfie têm o controle da imagem e da instantaneidade - como e quando mostrar - sem depender de outros fotógrafos. Além disso, neste mundo maluco o ego está em alta mais do que nunca. Portanto, olhar para o outro, nos colocarmos no lugar dele é uma tentativa de pensar não só fotografia e arte, mas a vida. É uma prioridade no mundo contemporâneo, as vidas precisam se encontrar.

O POVO - Qual a expectativa que você tem para esta convocatória? Que imagens despertam teu interesse?

 

Silas de Paula - Uma expectativa enorme. Ver novos trabalhos, fotógrafos que não conheço é sempre algo muito bom. E o que me desperta interesse é o conflito entre o tradicional e o novo. Nem sempre o novo é o melhor, apesar de gostar muito de experimentação, como disse anteriormente. Mas quero ver imagens que não necessitem de uma explicação conceitual, imagens que me afetem até na ordem do indizível. Imagens, não textos conceituais.

O POVO - No dia 19 de agosto é celebrado o “Dia Mundial da Fotografia”. Aproveito a alegria da festa para perguntar: por que nada foi igual depois da invenção da fotografia?

 

Silas de Paula - Para, François Laruelle, a fotografia foi inventada pelos filósofos, sem fazê-la. Nós a fizemos e o mundo se fez, também, pela luz da fotografia. Além disso, para o autor “Tudo, o próprio Tudo, teria começado com um flash.

 

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