ENTREVISTA 04/08/2016 - 00h01

Os Mundos de Angela

A escritora cearense Angela Gutiérrez, autora de O Mundo de Flora, comenta a atualidade do romance e celebra os 25 anos de seu lançamento
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Jáder Santana jadersantana@opovo.com.br
Igor de Melo em 13/02/2013

Reeditado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em 2007, quando figurou na lista de obras indicadas para o vestibular da instituição, O Mundo de Flora conquistou uma nova geração de leitores que se deixaram seduzir por sua estrutura ousada e pela narrativa recheada de referências e causos familiares. 

Publicado originalmente no início dos anos 1990, o primeiro livro da escritora cearense Angela Gutiérrez cruzou as décadas e manteve sua atualidade. Equilibrando com maestria recordações pueris, brincadeiras de terreiro e tragédias de família, a autora construiu uma narrativa que louva a vida ao mesmo tempo em que nos lembra da presença da morte. 

Na entrevista a seguir, Angela revela o que a motivou a escrever o romance e comenta sobre o modo como a obra envelheceu ao logo dos anos. 

O POVO: O Mundo de Flora foi seu livro de estreia. Em que ano ele foi escrito? Pode me contar um pouco sobre as circunstâncias em que ele foi criado? Quem era e o que fazia a Angela Gutiérrez daqueles dias?

Angela Gutiérrez: À época em que escrevi O Mundo de Flora era jovem professora do curso de letras da Universidade Federal do Ceará (UFC), ministrava disciplinas de literatura brasileira, já fizera cursos de aperfeiçoamento e especialização e acabara de cumprir mestrado em educação, na UFC, com dissertação sobre  O Caráter Reprodutor do Ensino de Literatura Brasileira nos Cursos de Letras. Casada muito jovem com o médico Oswaldo Gutiérrez, meu primeiro e único amor, já havíamos, gerado, então, nossos três filhos, Oswaldo, Daniel e Angela Laís. Muito ligada a meus pais,  marido e filhos, vivia para eles e para a Universidade. Como sempre,  lia muito; por dever de ofício e pelo prazer de ler. 

No momento exato em que escrevi o livro – à mão, em um caderno! -, nos anos 1980, sofria com uma síndrome reumática. Sentia dores nas articulações, algumas inchavam. Como sabia que a síndrome poderia desaparecer ou evoluir para outras doenças mais graves, uma noite, em que as dores me incomodavam muito, imaginei a história de uma mulher com uma doença grave, seus sentimentos e seu desejo de permanência pela narrativa da própria vida. Levantei-me, sentei-me no chão do closet e escrevi muitas páginas em forma de fragmentos, já fazendo um esquema com características das principais personagens e da trama da narrativa, inclusive escrevendo começo, meio e fim, e dando-lhe o título que se tornou definitivo no livro. A ninguém  falei disso porque, sempre tendo lido muito, em criança sob orientação de meu pai, Luciano Mota, meu guia na biblioteca da vida, e, mais tarde, por conta própria, criei paradigmas muito altos e sabia que nunca escreveria como os autores de minha predileção – Machado, Rosa, Flaubert, Cervantes, e tantos outros. Como sempre tive insônia, passei a levantar-me, durante várias noites, não apenas para ler, mas para escrever esse broto de livro que começara. Depois, em qualquer momento ou lugar, quando me vinha uma ideia de fragmento, anotava-o em qualquer pedaço de papel e ia jogando tudo, junto ao caderno inicial, em uma gaveta de minha biblioteca. E deixei que os rascunhos dormissem por algum tempo. Posteriormente, houve o trabalho de montagem da estrutura do livro.

OP: É uma escrita ousada para um livro de estreia. É polifônico, tem planos sobrepostos, é não-linear. Por que apostar nessa literatura “pós-moderna”? O que te atraiu nela? Ou foi algo não planejado?

Angela: Não planejei escrever um livro pós-moderno. A etiqueta lhe foi atribuída posteriormente pelos críticos. Na verdade, o livro foi criado em dois momentos principais: o primeiro, do impulso, e mesmo da urgência, em espantar o medo, quase como catarse, e o segundo, da consciente construção literária, no manejo dos diversos mosaicos, colocando-os em alternância de tempo, narrador (primeira e terceiras pessoas), tom (cômico, trágico, tragicômico...), outros materiais de escrita (cartas, artigos de jornal, páginas de diário, documentos, pequenas narrativas orais…). Enquanto o organizava, percebi, claro, que o livro fugiria ao padrão da narrativa linear, tradicional. E que poderia ser chamado de pós-moderno, aliás, classificação extremamente ampla, guarda-chuva que, embora tenha seus critérios de especificidade, hoje abriga praticamente todo livro que apresentar técnicas e formas literárias ainda não consagradas pelo uso.

OP: O livro oferece imagens sobre os hábitos e costumes de uma Fortaleza antiga. Como Fortaleza te inspira?

Angela: Nasci e vivi minha primeira infância na casa de meu bisavô, que era um verdadeiro museu da belle époque fortalezense, mantida tal como Thomaz Pompeu a vira pela última vez, ao falecer, em 1929. Lá, comecei a escutar narrativas de verdadeiros guardiões da história da cidade e da família, como  minha mãe, Angela Laís Pompeu Rossa Mota, que hoje, nos seus 99 anos, ainda me conta episódios sobre nossa família, especialmente relativos a seu avô, a quem amava intensamente e que morrera quando ela era menina. Entre os contadores de história da família que já partiram, habitantes de minha saudade, estão: minha tia, Maria Rossas Freire, narradora de fino humor; meu avô, Dr. César Rossas, exímio causeur, que relembrava fatos da vida em Fortaleza da primeira metade do século XX; meu pai, que  me narrava fatos sobre a história da cidade e contava suas brincadeiras de criança nascida em casa defronte ao Passeio Público, transformado em quintal de suas brincadeiras infantis. Assim, desde criança, vivi em ambiente de amor à cidade, a seu passado, a suas peculiaridades. Logo cedo, comecei a ler crônicas, contos, romances ambientados na cidade, E, apesar de todos os problemas que Fortaleza hoje enfrenta, continuo a amá-la e a acreditar que poderemos transformá-la em uma cidade  mais justa e igualitária, em que Fortaleza não rime com vileza.

OP: O Mundo de Flora também é um livro sobre a morte, como se a protagonista se preparasse para ela. Por que você fez essa opção?

Angela: Ao escrever O mundo de Flora, confrontava-me com uma enfermidade, e a doença, muitas vezes, é irmã caçula da morte. Mesmo tão jovem, temia que a morte já me aguardasse. Aliás, eu já a encontrara no rostinho doce e inocente de meu filho-anjinho. Assim, no romance, deleguei a uma personagem a expectativa do encontro com a morte. Confesso que sofri com isso, tanto ao relembrar meu para sempre bebê, como ao criar as condições para a possível morte da personagem que me representava. Tanto que abri, na narrativa, a possibilidade de uma morte apenas ficcional, como historinha contada para el-rei.

OP: O livro foi adotado durante muitos anos como leitura obrigatória para o vestibular da UFC e sempre foi um dos favoritos dos estudantes. A que você atribui esse fascínio? Como você o recebe?

Angela: Minha experiência de encontro com estudantes leitores de O Mundo de Flora quando se preparavam para o vestibular da UFC, guardo-a entre as belas lembranças de minha vida. Foi maravilhoso encontrar, tantas vezes, jovens leitoras e leitores apaixonados pelo livro que liam e reliam com  paixão e entusiasmo. Receberam-me, em algumas ocasiões, cantando cancões citadas no romance! Faziam questão de meu autógrafo e de tirar fotos comigo. Tive minha hora de estrela!

Quando soube que o livro fora escolhido para a lista do vestibular, temi um pouco que, por sua estrutura incomum, pudesse causar dificuldade de leitura aos alunos, mas contrabalancei esse temor com a lembrança de que sempre recebera depoimentos de leitores, das mais variadas idades, dizendo-se encantados com O Mundo de Flora. Fiquei, no entanto, maravilhada, eis a palavra, com as reações tão entusiásticas dos vestibulandos com o romance. Acho que o livro, por ser múltiplo, abre muitas portas que levam os leitores a se identificarem com o mundo criado ficcionalmente. Ademais, se sua estrutura é desafiadora, e isso pode ser um ponto a favor porque o jovem gosta de desafios, a linguagem não é complicada, aliás, muitas vezes, finge-se coloquial. Além disso, acrescento dois fatores para a boa aceitação do livro: o modo criativo  como os professores o estudaram com os alunos e a emocionante montagem de peça baseada no livro, com roteiro e direção de Jadeílson Feitosa e interpretada por alunos do Christus, apresentada, sempre com lotação máxima, durante dois meses e com entrada franqueada a estudantes de qualquer instituição.

OP: Por que ele dialoga tão bem com leitores de diferentes idades? O encanto de O Mundo de Flora é diferente para jovens e adultos?

Angela: Quando o livro foi publicado pela primeira vez, percebi logo a facilidade com que transitava entre pessoas de diferentes idades. Notei que as crianças falavam com maior entusiasmo da primeira e, sobretudo da segunda parte, ou seja, de O Casarão e de Matosinhos. E está claro o motivo, pois contam a infância de Flôzinha. E adoravam também as historietas cômicas contadas por narradores orais. Já os jovens, gostavam de relembrar a infância, e sentiam-se mais próximos das ansiedades da Flor adolescente, da terceira parte, Cidade, tendo já condições de entender os dramas de Flora adulta. Os maduros e os idosos mostravam mais facilidade, proporcionada pela experiência, para identificar-se com todas as fases da história de Flora, mas se interessavam particularmente pelas reminiscências do passado da família de Flora. Enfim, talvez por sua multiplicidade de narrativas, de diferentes épocas e modalidades, o leitor e a leitora possam sempre encontrar algum vínculo ficcional que os mantenha atraídos pelo romance.

OP: Você se reconhece na Angela que escreveu O Mundo de Flora? O que mudou e o que permanece, 25 anos depois?

Angela: A escrita e a publicação de O Mundo de Flora constituem, sem dúvida, um marco em minha vida. As circunstâncias em que se escreve um livro têm grande importância em sua escrita. Não sendo mais a jovem Angela daquele tempo, e hoje, enriquecida pela experiência de leitura, escrita e vida nos 25 anos que me separam do lançamento de meu primeiro romance, eu o escreveria do mesmo modo, com a mesma temerosa audácia?

Gosto desse romance. Com certeza, muito mais do que quando o escrevi, quando temia por sua recepção. À época, depois da leitura que dele fizeram, ainda em manuscrito, alguns mestres como Artur Eduardo Benevides, Moreira Campos, Sânzio de Azevedo, Horácio Dídimo, e que lhe deram seu placet e, mesmo, seu entusiasmo, senti-me mais segura. Pensei àquela época: Ufa! Pelo menos, não passarei vergonha! 

Hoje, tenho carinho pelo livro que me fez escritora. Talvez  demorasse um pouco mais na fase de Flora mulher… De certo modo, ao retomar, em Luzes de Paris e o Fogo de Canudos, personagens de O Mundo de Flora, os mortos que permaneciam vivos pela memória do casarão, como o bisavô que a menina não conhecera mas que amava, trouxe de volta o mundo da imaginação de Flora e dei por finda a escrita de meu primeiro romance.

OP: Pode me contar um pouco sobre seu novo livro, O Silêncio da Penteadeira?

Angela: Escrevi O Silêncio da Penteadeira, e não modifiquei sua primeira escrita, há uns quatro anos, dias antes de iniciar a escrita de Os Sinos de Encarnação, coletânea de contos publicada em 2012, após receber o Prêmio Osmundo Pontes. Lembro-me que me sentei diante de minha penteadeira antiga e em vez de olhar-me em seu espelho, pensei em quantas mulheres da família teriam passado por ele. Imediatamente, querendo sair do quadro romanesco baseado nas histórias de família, imaginei, no ambiente de uma cidadezinha do interior,  uma família em que a penteadeira passasse sempre de geração em geração e no que seu espelho conheceria dessas mulheres e de suas vidas. Daí, em momentos, tinha a trama inventada na cabeça. Sentei-me e escrevi quase todo o texto.
 
Aliás, na literatura e nas artes, o espelho tem sido rica fonte de escritos. Poderia citar Cecília Meireles, entre tantos outros exemplos. Eu mesma tenho um poema de Canção da Menina,  O Rosto que Nunca Verei, que exemplifica a angústia existencial que o espelho pode provocar. Inicia-se assim: “O rosto/que vejo no espelho/é o rosto/que nunca verei/fora do espelho”, e ao final: “Me vejo/como quem vê/distraidamente/o retrato/de uma bisavó/morta.” Pensando bem, talvez eu já tivesse a ideia da representação da continuidade de imagens entrelaçadas, de uma mesma família, pelo espelho.

O gênero de O Silêncio da Penteadeira me parece ser o de um conto dramático, beirando, repito, beirando uma pequena peça de teatro, com seus monólogos, diálogos e coro narrativo; espaço interno, unidade de ação, trama densa…

A pedido de queridas amigas, Cleudene Aragão, Fernanda Coutinho, Inês Cardoso, Vania Vasconcelos, Vera Moraes, que insistiram no lançamento de O Silêncio... durante as comemorações que planejaram para os 25 anos de O Mundo de Flora, aí está o livro. Antes de preparar sua publicação, entreguei o texto a Descartes Gadelha e pedi-lhe para desenhar uma gravura para a capa. Artista e amigo generoso, Descartes fez muito mais, desenhando 26 ilustrações. Emocionada com o presente, intercalei o texto do livro com as ilustrações e o fato é que elas enriqueceram o livro, belamente publicado pelas Edições UFC, dirigida com competência e dedicação pelo professor Cláudio Guimarães, com capa e programação visual do criativo Val Macedo.

A convite do Presidente da Academia Cearense de Letras (ACL), de que sou diretora cultural, o livro será lançado no dia 30 de agosto próximo, no Palácio da Luz, sede da ACL e extraordinariamente recuperado pelo esforço, tenacidade e bom gosto de nosso Presidente, bibliófilo José Augusto Bezerra. A apresentação será da professora doutora Fernanda Coutinho, grande ensaísta do Departamento de Literatura da UFC. Desde já, convido meus leitores, atuais e futuros, para não só irem ao Palácio da Luz na ocasião por meu livro, mas também para reconhecerem a beleza do Palácio que assistiu a tantos importantes momentos da história e da cultura cearense e se constitui importante patrimônio arquitetônico de nossa cidade.

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