entrevista 27/06/2016 - 17h43

Maeve Jinkings revela sua insatisfação com o governo atual

Em entrevista exclusiva ao O POVO Online sobre sua participação no festival, sua carreira e sobre questões políticas enfrentadas pelo Brasil recentemente
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Luana Bastos redacaoportal@opovo.com.br
Divulgação
Maeve Jinkings anunciou a vencedora da categoria de melhor atriz do Cine Ceará

A atriz Maeve Jinkings, que em 2015 interpretou Domingas na novela ‘ A Regra do Jogo’, esteve em Fortaleza para participar da premiação na 26ª edição do Cine Ceará. Na noite de encerramento do festival, nesta quarta-feira, 22, no Cineteatro São Luiz, ela subiu ao palco para anunciar a vencedora da categoria de melhor atriz: Sabrina Greve, de “Clarisse, ou alguma coisa sobre nós dois”. O prêmio foi recebido pelo cearense Petrus Cariry, diretor do filme.

Em sua passagem pela capital cearense, Maeve conversou com O POVO Online sobre sua participação no festival, sua carreira e sobre o momento político brasileiro.

A atriz nasceu em Brasília, foi criada em Belém do Pará, teve sua formação artística em São Paulo e abrangeu seus horizontes profissionais quando passou a morar em Recife.

Essa é a primeira vez da atriz em Fortaleza e ela garante que ficou muito feliz ao receber o convite de Wolney Oliveira, diretor do festival. Maeve lamentou ter chegado apenas no dia do encerramento.

“Os prêmios são super importantes, mas o principal dos festivais são os encontros. Festivais têm uma importância educativa, porque são lugares de estudo, de pesquisa, de reconhecer parceiros, de debate”, disse a atriz.

Protesto
O Festival de Cannes 2016 foi palco de protestos contra o governo de Michel Temer. Durante a sessão de gala de Aquarius, filme brasileiro do diretor Kleber Mendonça Filho, alguns integrantes do elenco exibiram pequenos cartazes, dentre eles Maeve.

“Arrumei minha mala assistindo à votação do Senado. Eu saí do Brasil era Dilma, eu cheguei na França era Temer”, conta a atriz.

“Logo depois surgiram as notícias sobre a extinção do Ministério da Cultura e eu me senti voltando ao passado, viajando no túnel do tempo, uma sensação de retrocesso. O momento de crise é para se reinventar e não para ‘cortar’ a cultura.”

Maeve rebate os comentários feitos por pessoas que questionam o apoio financeiro dado como incentivo à cultura. “É importante para os críticos de subsídios públicos terem o conhecimento de que a maioria do filmes que participaram do festival foram feitos com dinheiro público, inclusive o filme vencedor.”

“Estar em Cannes foi uma mistura de felicidade, satisfação de estar ali juntos com um pesar, tinha um clima de luto. Chegar em Cannes com um filme feito com baixo orçamento, com subsídios públicos e depois ter o conhecimento de o Ministério da Cultura foi extinto.”

Maeve explica que o protesto não foi motivado apenas pela extinção do Ministério, mas foi principalmente pela existência de um processo de impeachment que ela e os outros consideravam incoerente.

Para ela é preciso que exista um equilíbrio entre a indústria cultural e o apoio do Estado. “O governo de Lula e de Dilma podem ter vários problemas, mas se teve um acerto foi o fortalecimento do Ministério da Cultura e acho que isso muito evidente quando a gente olha o aumento da produção do audiovisual e nas artes em geral com pluralidade, com vozes de todo o Brasil.”

A ideia para o protesto foi “organicamente coletiva”. Ela, outros artistas, cineastas e produtores se organizaram para não interferir no protocolo do festival.

“Eu faria tudo de novo. Eu faria agora se eu pudesse. Eu me sinto orgulhosa por ajudar a furar uma narrativa oficial que não dá destaque as contradições desse processo de impeachment. O que nós fizemos foi simplesmente tentar ter voz. A cada novo áudio eu penso ‘que bom que a gente fez esse protesto’”, acrescenta.

Posicionamento Político
Maeve é pontual em declarar que a presidente afastada Dilma Rousseff não tem processo formal de corrupção. “Embora não se queira falar sobre isso, embora a mídia dê um destaque pequeno, é evidente que não eram as pedaladas, não era corrupção. Como o próprio áudio do Renan [Calheiros] com o [Romero] Jucá, ela [Dilma] é um impedimento para barra a Lava Jato,” explica ela sobre o afastamento de Dilma do cargo.

“Vivemos um sistema político endemicamente corrupto. Isso não privilégio de um partido. Alguns quadros do PT adotaram essa prática, mas não é exclusividade do PT e nem é majoritariamente do PT.”

Sobre as investigações, a atriz afirma que elas precisam ser equilibradas e não seletivas, com foco em alguns partidos.

Para Maeve, não faz sentido “um presidente com um processo de corrupção nas costas nomeando ministros com processos de corrupção nas costas que estavam ganhando foro privilegiado. Algo tão criticado quando Dilma chamou Lula.”

“Quando eu me posiciono politicamente é uma tomada de risco, mas a gente não tem que gostar do que o outro diz, mas eu quero conhecer o outro. A gente é contradição e diversidade. Eu quero dizer o que eu penso e eu quero que o outro dê a sua opinião também desde que façamos isso de uma maneira inteligente e respeitosa, que frenquentemente não tem acontecido”, diz a atriz.

Descobertas
Maeve conta que ao se mudar para Recife se deparou com um cenário artístico e cultural novo. “Quando eu morava em São Paulo me deparei com um clichê de lá que dizia que ‘nada acontece fora do eixo Rio - São Paulo’, mas quando eu cheguei em Recife me perguntei: ‘como é que a gente acha que nada acontece fora desse eixo?’”

Ela começou a partilhar com seus amigos do Rio de Janeiro e de São Paulo suas descobertas e completou “a gente é tanta coisa que eu considero empobrecedor se limitar a uma região, é empobrecedor achar que só existe uma forma de se fazer cultura.”

A atriz
Maeve é formada em Publicidade e Propaganda e diz que quando criança era incentivada pelo pai a ser veterinária, mas afirma ser realizada profissionalmente.

“Uma das coisas que eu mais gosto no meu ofício é a possibilidade de eu poder viver muitas vidas em uma”, diz.

“Quando eu escolho falar sobre uma vida, que é um personagem, eu não falo só sobre a luz, eu não falo só sobre o lado bom dele, eu olho muito para a sombra. Você vai em busca das contradições desse personagem, porque somos luz e sombra. Eu quero falar de alma para alma.

Após a leitura do texto e do surgimento das primeiras dúvidas sobre a personagem, Maeve embarca na fase que ela considera a mais importante. “Eu vou para o campo de pesquisa conhecer gente de verdade, aí é onde eu faço a ‘ponte’, essa fase é mais emocionante do que quando eu estou de frente para as câmeras.”

Domingas
Ela, há quase 20 anos como atriz, teve seu primeiro papel na televisão com a personagem Domingas, em ‘A Regra do Jogo’. Seu alcance mudou. Se seus papéis em filmes atingiam um público de aproximadamente 100 mil pessoas, a personagem invadiu a casa de milhões de brasileiros que acompanhavam a difícil e dramática vida de uma mulher que sofria violência doméstica.

“Eu nunca sofri violência doméstica e nunca tive isso próximo. Quando eu comecei a ler o texto da novela eu achei a submissão dela muito exagerada, mas essa fase de estranhamento do universo do personagem acontece a cada 9 de 10 papéis que eu aceito interpretar. Nada mais é do que a Maeve lhe dando com os preconceitos dela mesma”, conta ela sobre a sua relação com Domingas.

Para viver Domingas, ela frequentou reuniões de Mulheres que Amam Demais Anônimas (MADA), leu muito sobre violência doméstica e assédio moral e entrevistou mulheres de várias classes sociais, inclusive uma que estava com o olho roxo.

“Essas pessoas vão comigo. Quando eu estava fazendo a Domingas as mulheres que eu conheci estavam comigo, todas elas, as histórias delas”, declara Maeve.

Ela garante que ao ser convidada para dar vida à personagem de imediato se interessou por ser um tema que trata de opressão feminina. “Representação feminina e opressões que a mulher sofre me interessam como atriz, porque sou mulher, porque vivo isso na minha pele, porque vivemos em um mundo que é mundo hostil com a mulher.”

“Onde eu estivesse, da camareira até alguém da direção, vinham me contar histórias das mais sutis até as mais absurdamente violentas”, revela.

Maeve conclue reafirmando seu desejo de atuar “até o fim da vida”, com personagens importantes, atuantes e empoderados. “Quero ter a sorte de encontrar bons parceiros de trabalhos e continuar vivendo outras vidas”, fala sorridente Maeve.

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espaço do leitor
rangel brasil 27/06/2016 22:37
Cultura não é os pobres patrocinarem raparigas e baitolas nas lides artísticas e sociais, as custas do governo. Vão procurar uma lavagem de roupa meu povo.
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