ENTREVISTA 28/05/2016 - 17h00

Um jornalista crítico e atento ao mundo

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Jáder Santana jadersantana@opovo.com.br

Roberto López Belloso, jornalista e escritor uruguaio, foi chefe de redação do semanário Brecha, que teve Eduardo Galeano em seu conselho assessor até 2015, quando o escritor faleceu. Belloso atualmente coordena a elaboração de um livro sobre a produção jornalística de Galeano. Na entrevista a seguir, comenta sobre a importância do autor para a formação de um pensamento de esquerda na América Latina.

O POVO:
Em que ocasião você conheceu Galeano?
Roberto López Belloso: Como todos os uruguaios, conheci Galeano através de seus livros. E também, como quase todos seus leitores, a primeira aproximação foi através de As Veias Abertas da América Latina. Já na faculdade de jornalismo, comecei a conhecer a faceta do Galeano jornalista, nem tanto através de seus artigos, que logo leria com prazer, mas sim mediante Dias e Noites de Amor e de Guerra, uma obra de não-ficção que marca, em minha opinião, o ponto de partida do Galeano que seus leitores conhecem e identificam. Pessoalmente devo tê-lo conhecido no começo dos anos 2000, quando me integrei a Brecha, o semanário que Galeano fundou em 1985 com outros jornalistas que haviam integrado o legendário semanário Macha, que entre 1939 e 1974 reuniu a flor e a nata da intelectualidade de esquerda e latino-americanista.

O POVO: Como era Galeano como escritor e como pessoa?
Belloso: Desde a primeira vez que o vi, me chamou atenção sua simplicidade, em tudo, no tratamento com as pessoas, no vestir, em sua decisão de não ter carro. Não fomos amigos, a amizade é um vínculo muito profundo que compartilhamos apenas com um punhado de pessoas, mas sim nos tratamos com afeto e nos encontramos muitas vezes. Em Brecha, ele integrava o conselho assessor e eu era chefe de redação, assim que várias vezes no ano nos reuníamos para conversar sobre o andamento do semanário e a situação política do País. Ele nunca impôs uma ideia nem usou sua influência para levar água para nenhum moinho. Apenas uma vez ligou para o semanário para sugerir uma nota: estava preocupado que quase não se falasse no Uruguai da luta dos Saharauis (habitantes do Sahara Ocidental). Sempre estava disposto a dar uma mão à Brecha, que ao ser propriedade de seus jornalistas e estar sempre distante dos poderosos, aos quais habitualmente incomoda com o ferrão do jornalismo de análise e de investigação, costuma ter seus números em vermelho. Então, quando Eduardo recebia algum prêmio ou Brecha tinha alguma urgência, nos ajudava inclusive economicamente. No final das contas, Brecha e Galeano sempre foram muito parecidos: de esquerda e independentes, duas características que sempre deveriam caminhar juntas.

O POVO: Como você avalia a trajetória literária de Galeano? Que importância ele teve para as letras e para o jornalismo latino-americano?
Belloso: Minha opinião pessoal é que sua importância como jornalista é muito maior que como escritor. O Galeano jornalista é uma figura enorme e indiscutível. Se inscreve em uma tradição muito sólida (foi secretário de redação de Marcha com 20 anos), e desde então renova tudo o que toca em uma década brilhante, que vai desde 1964 (com a fundação do jornal de esquerda Época, do qual foi diretor) até 1976 (com o fechamento da revista Crisis, seu melhor filho jornalístico). Cultiva o jornalismo narrativo muito antes do boom atual do gênero, e ler hoje suas crônicas e entrevistas é confirmá-lo como um mestre no ofício. Logo, explorou uma zona cinza entre o jornalismo e a literatura, com uma sorte díspar. Encontrou um caminho de não ficção e pequenas histórias que combinavam o íntimo com o social, que ensaiou em Dias e Noites de Amor e de Guerra e que logo manteve como marca de fábrica. Nos anos 1980, fez Memória do Fogo, uma trilogia caprichada e hercúlea que foi, sem dúvidas, sua melhor obra. A partir daí deixou de experimentar, salvo com As Palavras Andantes, que não foi sua tentativa mais feliz. O Livro dos Abraços é, de certo modo, um epílogo de Dias e Noites, assim como Patas Arribas atualiza As Veias Abertas. Pode-se dizer que toda sua obra posterior a Memória do Fogo manteve uma linha de escrita que seus leitores gostavam muito, mas que não chegou a entusiasmar a crítica literária.

O POVO: Pode me falar um pouco sobre o livro que está coordenando
Belloso: O eixo é o Galeano jornalista. Reunimos uma dúzia de colegas de toda a América do Sul para que tomassem os temas que vinham sendo repetidos na obra de Eduardo e para que os visitassem de novo, jornalisticamente. Por exemplo, não nos centramos no que Eduardo escreveu sobre os mineiros da Bolívia, mas fizemos uma crônica sobre como vivem hoje esses mineiro. Assim como com outros assuntos centrais de suas obsessões: o futebol, o meio ambiente, as mulheres, o jornalismo, os direitos humanos. É um projeto da Unasur (União de Nações Sul-Americanas), que teve a feliz ideia de impulsionar um livro-homenagem. Também está incluído um perfil de Eduardo e textos de alguns de seus amigos mais próximos, como Joan Manuel Serrat, Sebastião Salgado y Elena Poniatowska.  

O POVO: O que a América Latina perde com a morte de Galeano?
Belloso: Perde um dos últimos exemplos de intelectual comprometido, independente e de esquerda. É muito fácil, para a esquerda ou para a direita, jogar com as cartas que garantem o aplauso. O difícil é ser coerente com uma linha de pensamento quando o barco afunda do lado que se prefere, e Eduardo sempre teve uma grande independência de critério. Isso permitiu, para citar um caso que lhe valeu muitas inimizades, criticas os erros do governo de Cuba quando teve que fazê-lo, mas sem deixar de defender as conquistas dessa revolução. Sobre seus leitores, essa comunidade de fieis, eles perdem um autor que durante quatro décadas lhes falou em uma linguagem que teve uma capacidade irrepetível de comunicar e de gerar a cumplicidade da palavra compartilhada.




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