ENTREVISTA 28/05/2016 - 17h00

"Eduardo foi a pessoa que mais mudou minha vida"

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Jáder Santana jadersantana@opovo.com.br

Quando entrevistou Eduardo Galeano para a primeira temporada de seu programa Sangue Latino, no Canal Brasil, o jornalista e escritor Eric Nepomuceno já somava mais de três décadas de amizade com o autor uruguaio. Em uma série que já contou com Chico Buarque, Caetano Veloso, Leonardo Boff, Ferreira Gullar e Eduardo Coutinho, foi o episódio de Galeano que ganhou as redes sociais e emocionou brasileiros.

Tradutor das obras de Galeano desde a década de 1970, Nepomuceno fala nesta entrevista sobre o sentimento de irmandade que desenvolveu pelo uruguaio, de sua importância para a literatura latino-americana e da obra póstuma que será lançada no próximo dia 31.

O POVO: Vocês dois tiveram uma relação muito próxima durante 40 anos. Como se deu esse encontro? Você já conhecia a produção dele?
Eric Nepomuceno: Ele já tinha publicado As Veias Abertas da América Latina e outros livros com repercussão tanto no Uruguai como na Argentina. Era um dos jornalistas mais conhecidos e respeitados da sua geração. Só que eu não sabia nada disso. Nos conhecemos em fevereiro ou março, pouco depois de eu ter me mudado para Buenos Aires, não me lembro o mês exato. Só fui ler As Veias Abertas meses depois, quando ele me deu o livro. Nosso primeiro encontro se deu de forma casual. Eu tinha ido encontrar outro jornalista uruguaio, Alberto Carbone, que lá pelas tantas da conversa me disse que estava indo visitar “um compatriota que dirige uma revista que sai daqui a pouco”. Era a Crisis, a mais importante revista cultural da época e uma das mais importantes de todos os tempos na América Latina, que saiu em maio de 1973. Assim conheci o Eduardo. Dias depois, ele foi jantar em casa, e de imediato nos adotamos como irmãos.

OP: Que primeiras impressões te causou Galeano - enquanto pessoa e enquanto autor? Essas impressões se confirmaram enquanto vocês aprofundavam os laços de amizade?
Eric: A primeira impressão foi a de alguém especialmente inteligente, com um volume de informação impressionante. Conhecia perfeitamente o cenário brasileiro daqueles tempos de breu, e falava da Guatemala, de Cuba ou da Bolívia como se estivesse acabando de chegar de lá. Era uma pessoa vital, de muitíssimo bom humor e, ao mesmo tempo, um iracundo, que se indignava com as injustiças do mundo e da vida. Convivemos lado a lado durante 42 anos. Aquela primeira impressão se confirmou e mais, se consolidou, se ampliou. Eduardo foi certamente a pessoa que mais mudou minha vida, no sentido de me mostrar realidades e possibilidades ocultas atrás do que a gente vê, ou do que querem que a gente veja. Através dele descobri a América, fiz amigos fraternos, vivi tempos únicos.

OP: Sobre quais elementos estava construída a amizade de vocês? Interesses mútuos por arte? Política? Literatura?
Eric: Para mim, amizade é a família que a gente escolhe, que a vida nos dá. Nossa amizade foi construída sobre o que é essencial na vida: lealdade, solidariedade, sinceridade. Havia, claro, interesses mútuos. Mas só isso não seria suficiente para sedimentar uma amizade como a nossa. Soubemos sempre fortalecer nossas convergências, que eram muitíssimas, e respeitar nossas divergências. Éramos irmãos, ele foi o irmão mais velho que não tive, nossos filhos foram – para mim, continuam sendo - sobrinhos. Aliás, sua filha mais velha é casada com meu irmão mais novo. Eduardo era de uma exigência implacável. Primeiro, com ele mesmo. Depois, com os amigos. Lembrava sempre uma frase de Carlos Fonseca Amador, um dos fundadores da Frente Sandinista na Nicarágua: “Amigo é aquele que critica na cara e elogia pelas costas”. Por acreditar piamente nisso, assim foi Eduardo a vida inteira.

OP: Em 1974 você traduziu o primeiro texto de Galeano para o Brasil. Ao longo de todos esses anos e com tantos textos traduzidos, como avalia a trajetória literária de Galeano? Qual o seu ponto alto?
Eric: É meio complicado, para mim, analisar literatura. Como diz meu amigo chileno Antonio Skármeta, “não sou ornitólogo, sou pássaro”. Meu ofício não é analisar, é escrever. Em todo caso, me arrisco: acho que o divisor de águas nos livros do Eduardo se chama Dias e Noites de Amor e de Guerra. Até esse livro, ele se dividia entre ficção (os contos de Vagamundo, o romance A Canção da Nossa Gente, por exemplo) e não ficção (As Veias Abertas, por exemplo). Ou seja, havia uma divisão entre prosa de ficção e de não-ficção. Dias e Noites é uma mescla de memória, de testemunho, de análise política, de crônica, de relato. Em seguida veio aquela que considero sua obra máxima, a trilogia Memória do Fogo: Os Nascimentos, As Caras e as Máscaras e O Século do Vento. Textos breves, lapidados exaustivamente, com forte dose poética, e ao mesmo tempo uma alucinada pesquisa documental.

OP: É verdade que vocês revisavam as traduções juntos?
Eric: Sim, é verdade. De todos os autores que traduzi, Eduardo era o único que revisava minuciosamente a tradução. Ele conhecia perfeitamente o português falado no Brasil. Negociávamos cada palavra.

OP: Sobre essa última tradução, de O Caçador de Histórias, como você avalia o livro? O que o leitor pode descobrir sobre o autor a partir dessa leitura?
Eric: É Eduardo em estado puro. Um livro belíssimo. Ele sabia que estava indo embora, numa viagem sem volta. Uma espécie de resumo de tudo que ele poderia fazer se continuasse aqui. Conto uma coisa: traduzi o livro todo em quatro sessões de trabalho. Era uma dor só. Seria insuportável trabalhar em outro ritmo. Pela primeira vez em 42 anos eu sabia que não revisaríamos juntos. Pela primeira vez em 42 anos eu não comentaria o livro com ele. Foi, de certa forma, nossa despedida de irmãos.

OP: A edição do programa Sangue Latino com Galeano é um vídeo muito compartilhado nas redes sociais. O que você pode falar sobre o encontro que gerou esse episódio e sobre sua posterior repercussão?
Eric: Dos mais de cento e vinte episódios do programa, que este ano terá sua sétima temporada, a conversa com Eduardo está entre as duas ou três de que mais gosto. Ele fez parte da primeira temporada, ou seja, quando o programa, criado e dirigido por meu filho Felipe, se estruturava. Para aquela temporada recorri basicamente a amigos da vida inteira: além do Eduardo fizeram parte o Chico Buarque, o Antonio Skármeta, o Mempo Giardinelli. Enfim, procuramos uma decolagem segura. Confesso que não esperava tanta repercussão pelas redes sociais. Mas, pensando bem, era e é natural. Eduardo era um conversador único, brilhante.

OP: O que a América Latina perde com a despedida de Galeano?
Eric: Perde um de seus mais completos e honestos observadores. Um de seus homens mais dignos e íntegros. Perde um dos latino-americanos que mais amou essas nossas comarcas, que melhor soube interpretá-la e interpretar-nos, e que até o fim sonhou com um futuro que nos é negado a cada dia.

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