PALMA DE OURO 23/05/2016 - 15h33

O POVO em Cannes: premiação do festival é uma ode à mediocridade

Não só Toni Erdmann saiu do Grand Theatre Lumière sem nenhum prêmio, como Aquarius, grande favorito na categoria de melhor atriz, também foi esnobado pelo júri
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Sônia Braga, favorita ao prêmio de Melhor Atriz, foi esnobada pelo júri

Se pudéssemos dizer que havia um consenso por parte da crítica internacional presente em Cannes, era de que o longa alemão Toni Erdmann (de Maren Ade) iria confirmar seu favoritismo e levar a Palma de Ouro. O filme teve uma média de 3.7 num máximo possível de 4 estrelas, melhor índice de aprovação que se tem notícia na história do festival. Contra todas as expectativas, não só Toni Erdmann saiu do Grand Theatre Lumière sem nenhum prêmio, como Aquarius (de Kleber Mendonça Filho), grande favorito na categoria de melhor atriz, também foi esnobado pelo júri presidido pelo cineasta australiano George Miller (diretor de Mad Max).

Eu, Daniel Blake foi o grande vencedor da noite, dando ao britânico Ken Loach sua segunda Palma de Ouro na carreira, dez anos depois da conquista por Ventos da Liberdade. Não se trata de um mau filme, mas tem aquele gostinho amargo de “mais do mesmo”, idêntico aos trabalhos mais recentes do cineasta, então nesse sentido parece um prêmio covarde e pouco ambicioso. Aliás, para resumir minha maior frustração, é particularmente triste ver os prêmios serem entregues aos filmes medianos, pois são exatamente esses os que não vou nem lembrar sequer do que se tratam em aproximadamente duas semanas.

É óbvio que as apostas e especulações da imprensa não representam garantia de absolutamente nada, mas pelo menos servem de termômetro e apontam para uma lista de favoritos à premiação. Então imaginem a surpresa de todos quando nenhum dos favoritos saíram premiados. Além de Toni Erdmann e Aquarius, outros filmes como Elle (de Paul Verhoeven), Paterson (de Jim Jarmusch) e Sierranevada (de Cristi Puiu) também foram esquecidos por Miller e seus companheiros de júri.

O Brasil pelo menos pôde comemorar o prêmio de melhor documentário cedido à Cinema Novo (de Eryk Rocha) ainda no sábado, 21. Outra notícia boa aos brasileiros foi a menção especial do júri dada ao curta-metragem de João Paulo Miranda, A moça que dançou com o diabo.

Vamos então à premiação bizarra da noite: Xavier Dolan, que já havia ganhado prêmio do júri (equivalente ao terceiro lugar) em 2014 por Mommy, escalou uma posição e ficou com o grande prêmio do júri pelo seu horroroso Apenas o fim do mundo. O filme do canadense só não teve a pior recepção do festival porque Sean Penn garantiu um 0.2 pelo seu igualmente horrível The Last Face.

Cristian Mungiu garantiu seu terceiro prêmio seguido, pelo menos na competição principal, em Cannes, ao levar melhor direção do lado de Olivier Assayas, esse sim uma surpresa, pois seu Personal Shopper dividiu opiniões e era um dos menos cotados a prêmios.

O prêmio do júri foi para o fraco American Honey (de Andrea Arnold), que ficou no limbo do razoável; o de ator e roteiro para o péssimo The Salesman (de Asghar Farhadi), filme maniqueísta que reprisa os piores cacoetes do cineasta iraniano; e melhor atriz para o quase ruim Ma’Rosa (de Brillante Mendoza), que, enfim, tirou a palma mais do que merecida à Sônia Braga.

É uma pena que num ano com uma competição repleta de filmes instigantes e desafiadores, o júri de Cannes tenha premiado apenas aqueles que estão da metade para baixo na escala de grandeza e desprovidos de potencial para deixar qualquer marca (positiva ou mesmo negativa) na história do cinema, filmes que você, a exemplo de mim, provavelmente vai esquecer daqui a duas semanas. A parte boa é que o tempo é implacável e, com prêmio ou sem prêmio, vai ser justo com todos os grandes filmes. Aliás, quem foi que ganhou a Palma de Ouro no ano passado mesmo, hein?

Pedro Azevedo é crítico de cinema, programador do Cinema do Dragão - Fundação Joaquim Nabuco e está em Cannes para O POVO

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