cinema 16/05/2016 - 22h55

O POVO em Cannes: Loving e Paterson são exibidos nesta segunda-feira

Festival exibiu nesta segunda-feira, 16, os dois filmes
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Dois filmes americanos foram exibidos em competição nesta segunda-feira, 16. Loving marca a entrada de Jeff Nichols na seleção oficial de Cannes depois de ter sido premiado na Semana da Crítica (mostra paralela integrada ao festival) por O Abrigo em 2009; já Paterson é o segundo filme que Jim Jarmusch emplaca na competitiva principal em 3 anos, seu último longa, Amantes Eternos, saiu daqui em 2013 com a Palma de melhor trilha sonora.


Loving (de Jeff Nichols)

 

Uma mulher negra e um homem branco são sentenciados à prisão nos Estados Unidos por terem se casado. Isso aconteceu, na linha do tempo da história da humanidade, ontem, em 1958, no estado de Virgínia. Parece absurdo, mas até o fim da década de 60 ainda era proibido em diversos estados de solo americano o casamento inter-racial devido a uma lei de ‘anti-miscigenação’ criada no século XIX. Dirigido por Jeff Nichols (dos ótimos Amor Bandido e O Abrigo), Loving é inspirado na história de Richard e Mildred Loving, pioneiros na luta pelos direitos maritais nos EUA.

 

A sinopse não é das mais difíceis de explicar: Mildred (Ruth Negga) e Richard Loving (Joel Edgerton) viajam à cidade de Washington para oficializar seu casamento, já que no estado onde moram a união inter-racial é proibida por lei. A felicidade não dura muito pois na sua primeira noite como marido e esposa, eles são tomados de assalto pela polícia e condenados à prisão.

 

O aspecto que mais incomoda no filme, e que tem sido bastante citado pela imprensa internacional, é a abordagem light e um tanto pasteurizada de Jeff Nichols diante de uma temática tão séria e grave. O diretor opta por dedicar a maior parte narrativa no desenvolvimento do romance do casal e no nascimento de seus filhos, induzindo o espectador de forma cansativa a criar vínculos com os personagens e depositar esperança nos seus futuros.

 

Desse modo, é apenas quando está próximo ao clímax que Loving começa a tratar com mais contundência e efetividade da discussão central referente às conquistas de direitos civis e de igualdade racial, passando, aí sim, a se deter no longo processo do casal que transitou pela suprema corte americana e acabou culminando na extinção da lei de anti-miscigenação marital. Essa maneira de conduzir a narrativa e de transformar o feito heroico de Richard e Mildred Loving em cinema soft acaba secando a força do filme, dando aquela açucarada desnecessária e, infelizmente, o deslocando ao espaço do esquecimento.

 

Paterson (de Jim Jarmusch)

 

Paterson é um daqueles filmes raros em que logo nos primeiros minutos de projeção você já percebe estar diante de algo muito especial. O longa é, disparado, o meu favorito do festival até agora.

 

São muitos os trocadilhos e jogos de palavras que Jim Jarmusch, um dos cineastas americanos mais interessantes em atividade, diga-se de passagem, dispara no filme. Para ilustrar o mais óbvio deles, Paterson é o nome tanto da cidade onde a história se ambienta quanto do protagonista interpretado por Adam Driver. No inglês, pattern significa padrão, protocolo, ou, numa leitura ainda mais específica, estampa. Não haveria palavra melhor para tentar explicar a estrutura narrativa do longa, que acompanha, no espaço de uma semana, o cotidiano robótico e repetitivo de um jovem motorista de ônibus aspirante a poeta e sua namorada Laura, uma cozinheira e estilista que sonha em ser cantora country.

 

O espírito cômico – à essa altura já muito característico – de Jarmusch, que nos faz rir mesmo quando a piada é ruim, povoa todos os momentos do filme, desde os mais verborrágicos, quando há muitos diálogos e narrações, até os mais silenciosos (aliás, o silêncio é uma ferramenta fundamental no seu timing cômico). O poder das referências pessoais e identidade inconfundível do cineasta faz com que a Paterson (cidade real situada no estado de Nova Jersey) retratada em tela se transfigure num mero reflexo ou materialização de algo muito estranho e complexo que poderíamos apelidar aqui de “Jim Jarmusch Town”, uma cidade com toda sorte de gente excêntrica, cachorros serelepes e poesia.

 

Em certo momento de Paterson, o protagonista solta a seguinte frase num diálogo improvável com uma jovem poeta de 8 anos: “eu prefiro os poemas que não rimam”. Essa afirmação é engraçada e dotada de um certo cinismo, porque se fizéssemos um exercício de abstração e transformássemos o filme em poesia, ele estaria repleto de belíssimas rimas em cada verso e cada estrofe.

 

Pedro Azevedo é crítico de cinema, programador do Cinema do Dragão - Fundação Joaquim Nabuco e está em Cannes para O POVO

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