CINEMA 15/05/2016 - 19h07

O POVO em Cannes: olhar feminino está presente em somente três filmes

Festival exibiu neste domingo, 15, filmes dirigidos por mulheres, como 'American Honey' e 'Mal de Pierres'
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AFP / Valery HACHE
Equipe de 'American Honey' posa para fotos após exibição do longa no festival de Cannes

Problemas de domicilio:
Dos 21 longas em competição neste ano, apenas três são dirigidos por cineastas mulheres, e destes três, dois foram exibidos neste domingo, 15, nas sessões principais (o terceiro título em questão, “Toni Erdmann” da alemã Maren Ade foi exibido neste sábado, 14). Pelo menos metade dos filmes da seleção oficial tem protagonistas femininas, basta reparar em “Julieta” (de Pedro Almodovar), “Neon Demon” (de Nicolas Widing Refn), “La Fille Inconnue” (dos irmãos Dardenne), “Mademoiselle” (de Park Chan Wook), “Ma Rosa” (de Brillante Mendoza), “Personal Shopper” (de Oliver Assayas) e “Aquarius” (de Kleber Mendonça Filho). Mas o olhar genuinamente feminino sobre seu próprio universo está impresso em, repito (e pasmem), somente três dos mais de vinte filmes selecionados. É um dado bizarro que aponta para o triste fato de que mesmo na indústria de cinema autoral e circuito de festivais voltados a esse tipo de obra, ainda há uma flagrante desigualdade de gênero.

“American Honey” e “Mal de Pierres” são dirigidos por cineastas que possuem vasta experiência como atrizes de TV e cinema, esse detalhe parece especialmente interessante quando se percebe que ambos os filmes encontram seus pontos altos nas performances das personagens centrais.

Da cineasta inglesa Andrea Arnold – diretora do ótimo “Fish Tank”, vencedor do prêmio do júri em Cannes no ano de 2009 –, “American Honey” parte do encontro de uma jovem de 18 anos (interpretada pela talentosíssima Sasha Lane) com um grupo de jovens nômades que viajam os Estados Unidos numa van vendendo assinaturas de revistas. Subsistindo num meio de extrema pobreza e aprisionada num relacionamento abusivo, onde se vê obrigada a catar comida do lixo e cuidar de duas crianças, que sequer são seus filhos, ela enxerga nesse grupo de outsiders um horizonte que aponta para a possibilidade de um futuro melhor, muito embora o percurso seja (e é) tortuoso e acidentado.

Composto por pessoas de todas as partes do país, essa caravana de desajustados opera numa lógica muito específica, seguindo alguns ritos e normas de funcionamento. Eles estão sempre escutando, dançando e cantando músicas de rap, promovendo combates físicos entre aqueles que arrecadam menos dinheiro, usando todo tipo de droga e transando entre si de forma indiscriminada.

“American Honey” é um road movie processado na lógica do imediatismo, detentor de uma narrativa fragmentada que tem como foco maior o momento presente, mais interessado em acontecimentos isolados e como eles se sobrepõem para compor um quadro maior do que necessariamente em “contar uma história”. Ao mesmo tempo que essa é a sua maior virtude, é também seu ponto mais frágil, já que espalhado em 2h40min de duração, o filme se dilata e se repete de forma muitas vezes maçante.

“Mal de Pierres"

Não se pode dizer que a liberdade e espírito genuinamente jovens de “American Honey” esteja presente em “Mal de Pierres”, longa dirigido pela veterana Nicole Garcia e um dos poucos representantes franceses na competição oficial.

Baseado no romance homônimo de Milena Agus, a história se passa no sul da França entre as décadas de 40-50 e traz Marion Cotillard interpretando Gabrielle, uma jovem obrigada por sua família a casar-se com um desconhecido apenas a troco de não ser internada em um manicômio.

O título do filme já aponta o caminho do seu conflito principal: portadora de cálculo renal – daí o mal de pierres, algo como “mal da pedra” em tradução livre para o português –, Gabrielle se interna nos alpes suíços para fazer um “tratamento de cura” vanguardista, onde acaba conhecendo e se apaixonando por um moribundo veterano de guerra (vivido por Louis Garrel), com quem começa (ou ensaia) uma relação extra conjugal.

O problema maior de “Mal de Pierres”, além de ser excessivamente tolhido a formalismos e jargões melodramáticos, reside no fato de que Nicole Garcia constrói uma personagem unidimensional que, interessante à primeira vista, vai se entregando paulatinamente a clichês e estereótipos que reduzem a complexidade de suas questões e a colocam numa categoria muitíssimo ingrata: a da mulher louca. Isso tudo somado a um desfecho absurdo que de tamanha breguice arrancou risadas desconcertantes da plateia do Grand Théâtre Lumière.


Pedro Azevedo é crítico de cinema, programador do Cinema do Dragão - Fundação Joaquim Nabuco e está em Cannes para O POVO

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