CINEMA 14/05/2016 - 11h53

O POVO em Cannes: primeiro dia no festival

Iniciado na última quarta-feira, 11, o Festival de Cannes vai até o próximo dia 22
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Ainda tentando entender a quais filmes assistir e me recuperando de dois voos atrasados que estenderam a jornada entre a porta da minha casa e do apartamento que me abriga aqui na França por mais de 24h, acabei vendo apenas três filmes da competição oficial neste primeiro dia de cobertura. São eles: “Eu, Daniel Blake” de Ken Loach; “Sieranevada” de Cristi Puiu e “Toni Erdmann” de Maren Ade. 
Não deixa de ser um exercício curioso notar que apesar de virem de países diferentes e serem dirigidos por cineastas com visões de cinema e mundo completamente distintos, os três longas, quando colocados em perspectiva, estabelecem alguns diálogos dignos de nota. No caso de “Eu, Daniel Blake” e “Toni Erdmann”, os próprios títulos apontam para a existência de dois protagonistas que conduzirão toda a linha narrativa, ambos os filmes se voltam completamente para seus personagens centrais e como suas ações modificam o meio em que vivem e como o meio os modifica. “Sieranevada” e “Toni Erdmann” ambientam-se na maior parte do tempo em Bucareste, capital da Romênia; e por último, todos os três tratam, cada um à sua maneira e atravessados por suas peculiaridades culturais, de uma certa noção de família e relação parental moderna. 
 
O diretor britânico Ken Loach, que há apenas dois anos estreava “Jimmy’s Hall”, volta ao festival com seu mais recente “Eu, Daniel Blake”, filme que sintetiza o gosto do cineasta em retratar o homem comum e suas agruras pela sobrevivência num sistema de flagrante desamparo do estado com seus cidadãos. Aqui acompanhamos a história de Daniel Blake (vivido por Dave Johns), um marceneiro que, afastado de seu emprego após um grave ataque cardíaco, perde o benefício do seguro desemprego e é obrigado a se reestabelecer diante das autoridades e burocratas do serviço social inglês. No meio do percurso ele acaba esbarrando com Katie (HayleySquires) e seus dois filhos, vitimados pela lógica do mesmo sistema desigual e sectário. A partir daí estabelece-se uma relação de pais e filhos, conduzida por meio de uma narrativa volátil muito comum à filmografia de Loach, que transita livremente entre o humor e o drama, fazendo o espectador rir e chorar com a mesma facilidade.
 
Cristi Puiu é um dos principais nomes do ‘novo cinema romeno’, alcunha dada pelos críticos de cinema para categorizar a produção cinematográfica recente na Romênia. Seu filme mais conhecido, “A morte do senhor Lazarescu” narra os momentos finais na vida de um homem idoso. Em “Sieranevada” o ponto de partida é o encontro de uma família para homenagear a memória de seu falecido patriarca. Repleto de longuíssimos planos sequência dentro do pequeno apartamento onde acontece a cerimônia, o espectador se vê exposto (como um verdadeiro voyeur) ao intenso fluxo de diálogos e interações gestuais entre os parentes dessa família visivelmente disfuncional. A montagem, que corta as cenas e muda a perspectiva do plano apenas quando necessita reestabelecer a lógica geográfica do espaço filmado e da interação dos atores, funciona no sentido de indicar uma noção de tempo contínuo, como se realmente estivéssemos acompanhando aquela história no curso de seu tempo real. Aos poucos vamos descobrindo as particularidades e motivações de cada personagem, e ainda que as situações apresentadas ao longo da narrativa pareçam banais ou meramente cotidianas, elas estão a todo instante reforçando e apontando para as complexidades inerentes às relações humanas.
 
Por último, “Toni Erdmann”, dirigido pela cineasta alemã Maren Ade (de “Todos os Outros”), é uma comédia sobre a relação de um pai com uma filha. WinfriedConradi (vivido por Peter Simonischek), cujo apelido ou codinome Toni Erdmann dá título ao filme, é um professor alemão entre a meia idade e a velhice que tenta se reconectar com sua filha ausente Ines, uma empresária de renome que vive na Romênia. Após a morte de seu cachorro, ele viaja à Bucareste para ficar com a filha, mas não demora muito para que sua falta de habilidades sociais e senso de humor peculiar crie ranhuras e ponha em xeque a relação dos dois. O filme foi muito bem recebido na sessão de imprensa, mas a impressão que fica é de que suas quase três horas de duração parecem excessivas, constatação que fica patente quando se percebe que o roteiro perde nitidamente o foco em diversos momentos ao acompanhar de formaparalela os personagens de Winfried e Ines, dando, paradoxalmente, toda e nenhuma atenção aos dois.

Pedro Azevedo é crítico de cinema, programador do Cinema do Dragão - Fundação Joaquim Nabuco e está em Cannes para O POVO

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