LITERATURA. DIVERSIDADE 06/04/2016 - 00h00

Um amor adolescente

Lançamento da Fábrica 231, novo selo de entretenimento da editora Rocco, Lucas e Nicolas acompanha conflitos e paixões de um adolescente homossexual
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Jáder Santana jadersantana@opovo.com.br
divulgação

Gabriel Spits é o cara da ilustração ao lado. Averso a aparições públicas e estratégias de autopromoção, é difícil encontrar informações sobre ele. Fotos, então, nem pensar. Dele, só se sabe que é um “jovem escritor paulista, fã de games, HQs e faixa marrom de caratê”, de acordo com a descrição oferecida pela editora Rocco, que acaba de lançar seu primeiro romance, Lucas e Nicolas.

Direcionado ao público jovem, Lucas e Nicolas sinaliza para um filão de mercado editorial que ainda encontra poucos representantes no País: o da literatura com temática LGBT pensada para crianças e adolescentes. Enquanto nos Estados Unidos e na Europa o número de títulos lançados nos últimos anos deu um salto considerável - em quantidade e qualidade - no Brasil ainda são tímidas as iniciativas do gênero.

O romance de estreia de Spits aparece como seu autor - discreto, sem fazer barulho - mas indica ter potencial para se tornar um dos títulos fundamentais na representação das dúvidas e anseios de uma geração hiperconectada. Lucas, protagonista da narrativa, é um adolescente “como qualquer outro” que descobre na internet o abrigo e a ajuda que não encontra na vida real. Homossexual, tímido e muito inteligente, é alvo certo da gozação dos alunos mais populares.

“Os jovens buscam tudo na internet, inclusive ajuda. No caso do Lucas, ele mora numa cidade pequena, mais mente fechada. A internet é uma forma de ele conhecer gente diferente, ampliar horizontes”, explica o autor, que recheia seu texto com a linguagem virtual e abusa das referências a redes sociais, como no capítulo “A Felicidade Só Existe On-line”, no qual Lucas conta o número de curtidas em uma de suas postagens.

A história ganha nova dimensão quando aparece Nicolas, um aluno recém-chegado da capital que é tudo o que Lucas não pode ser: bonito, atlético e popular. Péssimo nos estudos, começa a ter aulas particulares com o CDF do colégio, Lucas, e é a partir desse contato que nascem os conflitos da narrativa em relação a temas de sexualidade e aceitação.
“Como eu estava tratando o tema na adolescência, com um personagem que é inclusive virgem, a questão do afeto aparece antes do sexo. É uma fase em que está mais se discutindo o primeiro beijo”, justifica o autor, que em outra oportunidade afirmou que seu livro fala mais sobre homoafetividade e menos sobre homossexualidade.

Apesar das características básicas que distinguem os personagens e os separam em polos opostos do imaginário adolescente - o típico loser inteligente versus o bonitão popular - o livro de Spits ainda ganha pontos por estabelecer que a solidão e o sentimento de inadequação são universais, independendo de orientação sexual e estilo de vida. Se Lucas busca refúgio e compreensão nas relações virtuais, Nicolas esconde sua fragilidade atrás da imagem de fortaleza que exibe. Pouco a pouco conhecemos sua família desajustada e as dificuldades de adaptação que enfrenta.

“Você vê os casos de homofobia que surgem por aí? São jovens apanhando de outros jovens. Então, pode até ser uma nova geração mais mente aberta, mas ainda não aberta o suficiente”, afirma Spits para destacar que seu livro, apesar de ter sido escrito para o público adolescente, pode ser bem aproveitado por pais e professores.

Para uma provável continuação, que já está sendo preparada, pretende abordar questões relacionadas ao contato com a família e cuidados durante o sexo.

ENTREVISTA COM O AUTOR

O POVO - A história de Lucas e Nicolas é a sua história?
Gabriel Spits - É, porque eu escrevi. Eu não sou exatamente o Lucas nem o Nicolas, mas tenho um pouco dos dois. Eles também têm muito de outros meninos que conheci. Não é uma biografia, até porque não vivi tanto e não tive uma vida tão interessante assim. Enfim, acho que o que importa é ser verdadeira como história.

OP - Existe a ideia de que as novas gerações são mais mente aberta. Isso procede ou há homofobia e preconceito entre essa turma mais jovem?
Spits - Você vê os casos de homofobia que surgem por aí? De moleques que levam lâmpada na cara e apanham na rua? Bom, esses caras não estão apanhando dos tiozinhos, né? São jovens apanhando de outros jovens. Então pode até ser uma nova geração mais mente aberta, mas ainda não aberta o suficiente. Ao mesmo tempo que tem mais gente se expondo, botando a cara no sol, surge mais gente contra. Basta ver qualquer matéria ou vídeo na internet sobre homossexualidade, tem sempre uma porrada de comentários de homofóbicos e crentelhos dizendo que aquilo é um absurdo.
 
OP - O Lucas busca ajuda na internet. É isso que os jovens estão fazendo? Eles procuram por identificação na internet?
Spits - Os jovens buscam tudo na internet, inclusive ajuda. No caso do Lucas, ele mora numa cidade pequena, mais mente fechada. A internet é uma forma de ele conhecer gente diferente, ampliar os horizontes.

OP - Qual você diria que é o público alvo do livro? Adolescentes? Adultos? Pais?
Spits - Eu escrevi para os adolescentes. Algumas pessoas, inclusive da editora, me disseram que o livro poderia funcionar bem também para pais e professores, que era um tema bacana para ser discutido na escola. Mas para mim o mais importante é que chegue aos jovens, que os gays se identifiquem e que os héteros possam entender um pouco mais do que se passa na mente de um gay.
 
OP - Os pais sabem como lidar com a homossexualidade? Estão aprendendo ou ainda é um tabu? Eu que medida seu livro pode ser útil para isso?
Spits - Os pais não sabem lidar com a "sexualidade" do filho. Não estão preparados para entender que o filho tem gostos independentes. Para mim o mais importante é a autoaceitação do jovem. Se o livro ajudar nisso, já fica mais fácil o moleque discutir isso com os pais. Ou não, né? Nem tudo precisa ser discutido com os pais. Às vezes, o melhor é o cara seguir com sua própria vida. Quando sai de casa e ganha seu dinheiro a opinião dos pais não importa tanto assim.

OP - Você não aparece muito, diz que seu livro tem que falar sobre você. Não é contraditório permanecer anônimo e defender que as pessoas vivam sua liberdade?
Spits - Liberdade não tem nada a ver com exposição, liberdade é estar bem consigo mesmo. Não gosto de dar entrevistas porque acho que o melhor que tenho a dizer sobre o tema está no livro. Acho tão estranho hoje termos autores que são mais conhecidos do que suas obras. O foda é que se você não gosta de aparecer isso também vira uma questão, como se fosse marketing, "o autor que não gosta de aparecer".

OP - Você já disse que seu livro tem ”mais homoafetividade e menos homossexualidade”. Pode explicar?
Spits - Quando se quer desmerecer a sexualidade, sempre se remete ao sexo anal, à questão anatômica, como se só homossexuais fizessem isso, e como se os homossexuais só fizessem isso. O homossexual não é o cara que gosta de dar o cu, é o cara que gosta de outro homem, então busca formas de realizar esse amor. E sexo anal é só uma delas. Como eu estava tratando o tema na adolescência, com um personagem virgem inclusive, a questão do afeto aparece antes do sexo. É uma fase em que está mais se discutindo o primeiro beijo.

OP - Pode adiantar algo sobre a continuação que você está preparando?
Spits - A discussão com os pais, que você mesmo colocou, ficou de fora desse livro. Foi mais uma questão dos personagens se aceitarem. No próximo haverá a discussão com os pais. E talvez eu possa entrar um pouco mais na questão do sexo em si, no uso da camisinha e tal.

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