ESPECIAL LUCIANO CARNEIRO 15/03/2016 - 00h00

Jornalismo corajoso e humano

Sergio Burgi, curador de exposição sobre Luciano Carneiro em São Paulo, comenta sobre a importância do cearense para o fotojornalismo nacional
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Jáder Santana jadersantana@opovo.com.br

Na terceira e última parte da série sobre Luciano Carneiro, iniciada no último domingo, 13, conversamos com Sergio Burgi, coordenador de fotografia do Instituto Moreira Sales (IMS) e curador da exposição Do Arquivo de um Correspondente Estrangeiro: Fotografias de Luciano Carneiro, com 160 fotos do cearense, em cartaz na sede paulista do Instituto.

O POVO - Em matéria publicada recentemente, a revista Carta Capital apresenta Luciano como alguém que colocava o ser humano “acima de tudo”. Você concorda com essa definição?

Sergio Burgi - Sim, com certeza. Ele tem uma vertente muito próximo daquilo que a gente identifica como humanista, após a II Guerra Mundial. Há um estudo consciente de um fotojornalismo mais engajado, mais voltado pra questão da objetividade. Mesmo como correspondente na Coreia, você tem um acompanhamento da frente de batalha, de uma uma situação de guerra mais crua e, ao mesmo tempo, ele produz uma documentação da população, dos refugiados, procura não espetacularizar o conflito e ter sensibilidade para o drama das pessoas, dos civis. Isso transparece na leitura que ele faz da guerra. E ele também faz uma matéria excepcional sobre o Albert Schweitzer (importante médico alemão) na África, algo muito sensível mostrando a importância daquele trabalho para as populações afetadas.

OP - E sua produção escrita? Tinha a mesma qualidade?

Burgi - Ele pode ser interpretado pelo seu texto. Foi um grande fotógrafo, mas também um jornalista de texto. Nos expedientes, ele aparece nas duas posições. Muitos fotógrafos fizeram textos, mas ele começou como jornalista de texto e começou a fotografar. Quando você vê o texto, encontra uma tendência pela objetividade. Ele fez do jornalismo algo muito direto e onde o engajamento é uma preocupação muito evidente. Isso caracteriza o perfil do Luciano, e ele representou, talvez, uma nova vertente do fotojornalismo, mais engajado, que enfrentou outras visões e posturas de jornalismo, fez oposição a um jornalismo mais sensacionalista. Isso, quando ele faleceu, ficou.

OP -
As comparações com o Robert Capa são sinceras?
Burgi - Isso tá muito associado ao fato de que em ambos os casos houve uma morte trágica antecipada (Capa morreu em 1954, ao pisar uma mina terrestre durante a Guerra da Indochina). Ambos foram correspondentes de guerra, e o Luciano tem essa característica de ter sido piloto, jornalista, fotógrafo, paraquedista. Essa soma de recursos pessoais dele o colocou na Coreia em uma missão com o exército americano, onde ele salta efetivamente com os paraquedistas, e isso dá grande visibilidade a ele. Mas ele já vinha fazendo um trabalho na revista (O Cruzeiro). Fez, por exemplo, outros eventos políticos no período, como o Canal de Suez, no Egito, entrevistou o marechal Tito na Iugoslávia, entrevistou Fidel, na Serra Maestra, em Cuba, . Escreveu artigos levantando dilemas. Então, foi uma trajetória muito interessante ao longo de dez anos, e soma-se a isso a morte trágica.

OP - Como ele se relacionava com as pessoas que fotografava?
Burgi - Você olha as imagens e vê que as pessoas não percebem que ele está ali. A cena está acontecendo, mas as pessoas não estão olhando pra ele. É uma dinâmica, são imagens que contextualizam, se aproximam das pessoas. Nesses aspectos, existe muita proximidade com o Capa. No falecimento dele, uma nota de imprensa já usa essa figura do “nosso Capa”, “morreu o nosso Capa”. E isso no final de 1959! Não é uma figura de retórica posterior. Ela surge no momento do falecimento dele, já havia essa percepção.

OP - Qual foi sua cobertura de maior relevância?
Burgi - Acho que existem alguns conjuntos. A Guerra da Coreia, sua primeira grande cobertura internacional, causou um grande impacto. São umas dez matérias, muito significativas. Em paralelo, ele fez uma cobertura no Japão, transitando entre Japão e Coreia, com um olhar sobre uma sociedade distante. Ele procurava uma aproximação pela imagem de uma maneira muito poética, tentando entender um pouco dos costumes, da vida. Foi uma série muito sensível, pensando o Japão do pós-guerra pelo olhar do homem comum, um olhar que não é cobertura de guerra, um olhar que vai se repetir em 1958, em Moscou, onde ele fica por mais de 20 dias. Teve dificuldades para conseguir um visto de entrada, porque foi ligado ao exército americano, e passou muitos anos tentando, mandou uma carta ao Khrushchov. As matérias são excepcionais. São sobre a vida na União Soviética, a mulher na União Soviética, naquele ano em que a Rússia dava um passo adiante na questão espacial, na disputa com os Estados Unidos, a corrida armamentista, o lançamento do Sputnik, as questões tecnológicas de um país que tem uma trajetória de revolução. Ele faz uma leitura muito interessante das pessoas. Existe um paralelo, mas o material da Rússia é mais denso que o do Japão.

OP - Qual o seu pessoalmente favorito? Por quê?

Burgi - Todos eles têm o mesmo elemento de sensibilidade. Acho que a série dos refugiados na Coreia, porque são esses os retratos mais próximos do drama da guerra na sociedade civil.

OP - Vocês pretendem levar a exposição para outras cidades?
Burgi - A exposição está em São Paulo, mas em junho vai pra Poços de Caldas, no IMS de lá, e há um trabalho e conversas em andamento pra montagem em Fortaleza, possivelmente ainda em 2016


OP - Qual o legal do Luciano?
Burgi - Luciano era um fotógrafo absolutamente estabelecido, um dos principais de O Cruzeiro. Com a morte dele, o que você vê na imprensa é algo traumático. Ele é destacado pela imagem que ele já tinha construído ao longo daqueles dez anos. Por outro lado, você tem essa circunstância de que nos anos seguintes existem menos menções, o trabalho dele deixou de circular, foram pouquíssimas exposições. Esse processo é o de trazer de volta. Ele fez tudo isso dos 20 aos 30 anos, é a produção de um jovem. É muito importante representar esse trabalho com essa perspectiva de que foi um período de juventude.

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