O que é, enfim, o lulismo, aplaudido e criticado na base e no vértice da pirâmide social? De historiadores a cientistas políticos e de jornalistas a sociólogos, há interpretações bem próximas do que revela a sociedade a pesquisadores dos institutos de opinião. À semelhança do getulismo, o tema, sublinhada a época e distinguida a forma da conquista do poder, é um capítulo de referência da República Surrealista dos Trópicos. Para o leitor, sócio remido do democrático clube da pluralidade político-ideológica, o birô da coluna selecionou duas análises. Prevaleceu na escolha a preferência pelo contraditório e o reconhecimento ao prestígio da assinatura dos autores. Uma é do bom jornalista André Singer (secretário de Imprensa no primeiro governo Lula); a segunda, do estudioso cientista político Luiz Werneck Vianna. Para a ordem de apresentação, o critério foi a ordem alfabética dos depoentes.
Lulismo, segundo Singer, é a representação majoritária do povo que não consegue construir, “desde baixo”, forma própria para organizar-se. É gente, descreve, que tem a expectativa de um Estado suficientemente forte para diminuir a desigualdade, “mas sem ameaçar a ordem estabelecida”. Para o professor de jornalismo, “desde o escândalo do mensalão”, o apoio ao antigo líder sindical deslocou-se de parte da elite e de setores da classe média “para os brasileiros de menor poder aquisitivo e de pouca instrução”. O conservadorismo da gente simples – “avessa aos radicalismos” –, o carisma do presidente de dois mandatos consecutivos e os programas de transferência de renda do governo dele “construíram e consagraram o Lulismo”, observa o paulista André Singer.
Werneck prefere caracterizar o Lulismo como “um condomínio entre contrários”. Entende que “os setores subalternos da sociedade” foram incorporados de forma passiva.
Mais:
“O processo iniciou-se com a cooptação de lideranças dos movimentos sociais e dos sindicatos pelo governo Lula. Partidos de esquerda, de centro e até de direita compartilharam o poder com ele. O mesmo ocorreu com as corporações da alta burocracia e com os grandes empresários, principalmente do mercado financeiro.”
Luiz Werneck Vianna prevê, no entanto, que “o modelo Lula não sobrevive sem ele”.
Pós-escrito: talvez por isso já se use, no palco do teatro de fantoches, um neologismo do novo tempo político – o “dilmismo”.
OS PORTA-VOZES
Liderança de bancadas no Senado.
As quatro grandes siglas na Casa definiram quem vai orientá-las neste ano eleitoral.
Três continuam sob o comando dos líderes que se repetem.
PMDB: Renan Calheiros (AL); PSDB: Álvaro Dias (PR); e DEM: Demóstenes Torres (GO).
O PT ficou com o baiano Walter Pinheiro.
ESTÁ NA GUERRA
Aécio Neves diz-se decepcionado com o governo central.
Sublinha dois pontos de desencanto, “embora pudesse ampliar a lista”:
1. “Dá a impressão de rotina tática a troca de ministros. O que mais me surpreende é a naturalidade da ação palaciana”;
2. “A fria e inconveniente declaração da presidente Dilma sobre direitos humanos, em sua visita a Havana. Foi um retrocesso na política externa do Brasil.”
O ano político-administrativo “começou mal”, exclama o senador mineiro, ao avançar na pré-campanha da provável candidatura à Presidência da República.
CORRIDA AO VOTO
Em março, no Rio, reunião dos cinco governadores peemedebistas.
O fluminense Sérgio Cabral, filho, será o anfitrião dos colegas Roseana Sarney (MA), Silval Barbosa (MT), André Puccinelli (MS) e Confúcio Moura (RO).
Pauta: eleição municipal de outubro.
É BOM DUVIDAR
Acordo dá a Jilmar Tatto, de São Paulo, a liderança do PT na Câmara.
Ele disputava a posição com o cearense José Guimarães, irmão de José Genoíno, quadro emblemático da sigla.
Cláusula sublinhada do acerto: em fevereiro do próximo ano, Tatto, sucessor do líder Paulo Teixeira, também paulista, transfere (?) o comando da bancada a Guimarães.
O NEGÓCIO É O SEGUINTE
Segundo a ministra do Desenvolvimento Social, Teresa Campelo, até o fim de 2013, véspera do ano eleitoral, o Rio de Janeiro não terá nenhuma família na faixa da miséria absoluta. Será o décimo estado a obter “tamanha vitória”.
Dimas Ramalho (PPS) e Vanderlei Macris (PSDB) querem trocar o plenário da Câmara Federal pelo do Tribunal de Contas de São Paulo.
O senador Demóstenes Torres (GO) nega-se a entrar na disputa pela Prefeitura de Goiânia. Dispõe-se, no entanto, a concorrer ao Planalto, em 2014.
De 9 a 13 de abril, Dilma Rousseff cumpre agenda político-comercial nos Estados Unidos (Washington e Nova York). A presidente da República vai tentar a ampliação das exportações brasileiras para o Império do Norte.
Fechada, praticamente, a aliança DEM-PSDB em quatro capitais do Nordeste, para a eleição de prefeito – Aracaju, Fortaleza, Natal e Salvador. Chance real de vitória só na de Sergipe. Sob a bandeira dos democratas, o ex-governador João Alves, filho, é bem cotado.
Vem ao Brasil o chefe do governo da Espanha, Mariano Rajoy. A visita de Estado será este ano, mas a data depende de acerto entre as chancelarias dos dois países.
Para refletir: “A glória deve ser conquistada; a honra, por sua vez, basta que não seja perdida” (Arthur Schopenhauer, filósofo alemão).
Walter Gomes
waltergomes@opovo.com.br
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