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Thomas Friedman 15/06/2012

Quando o Facebook encontra a política

O Facebook está passando por uma semana ruim %u2013 no mercado de ações e no mercado de ideias
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Istambul - Eu acabei de concluir um painel de discussão sobre a Turquia a e Revolução Árabe em uma conferência aqui e, quando eu estava saindo, uma jovem egípcia se aproximou de mim. “Senhor Friedman, posso fazer uma pergunta? Em quem eu devo votar?”


Pensei: “Por que ela está me perguntando sobre Obama e Romney?” Não, não, ela explicou. Era sobre a eleição egípcia na semana que vem que ela estava perguntando. Ela deveria votar em Mohamed Morsi, o candidato da Irmandade Muçulmana islâmica, ou em Ahmed Shafiq, um general aposentado que serviu como último primeiro-ministro de Hosni Mubarak e concorre como candidato secular da lei-e-ordem? Eu sinto muito por ela. Como os ativistas egípcios a favor da democracia dizem: é como escolher entre duas doenças. Como é triste que, 18 meses após uma revolução democrática, os egípcios tenham de escolher entre um candidato ancorado em 1952, quando os militares egípcios tomaram o poder, e um candidato ancorado em 622, quando o profeta Maomé deu origem ao Islã.


O que aconteceu com a “Revolução do Facebook”?


De fato, o Facebook está passando por uma semana ruim – no mercado de ações e no mercado de ideias. Como um amigo egípcio liberal observou, “o Facebook realmente ajudou as pessoas a se comunicarem, mas não a colaborarem”. Não há dúvida de que o Facebook ajudou certa classe de egípcios com formação superior a divulgar a Revolução da Tahir. O mesmo para o Twitter. Mas, no fim, a política sempre se resume a duas coisas muito velhas: liderança e a capacidade de fazer com que as coisas sejam feitas. Quando chegou o momento dessas coisas, o Exército Egípcio e a Irmandade Muçulmana, dois velhos movimentos concretos, estavam muito mais capacitados do que a geração Facebook de progressistas seculares e islamitas moderados – cujos candidatos somados conquistaram mais votos do que Morsi e Shafik combinados no primeiro turno eleitoral, mas não chegaram ao segundo turno porque dividiram os votos entre candidatos concorrentes que não se aliaram.


Certamente, o Facebook, o Twitter e os blogs são ferramentas de comunicação e expressão realmente revolucionárias que trouxeram muitas novas vozes à tona. Em seu melhor aspecto, elas estão mudando a natureza da comunicação política e de notícias. Mas, no pior aspecto, podem se tornar substitutas viciantes de uma ação real. Com que frequência você já ouviu recentemente: “Ah, eu tuitei sobre isso”. Ou “Eu postei isso na minha página do Facebook”. Sério? Na maioria dos casos, isso tem tanto impacto quanto disparar um

morteiro na Via Láctea. A menos que você saia do Facebook e entre em contato com alguém na vida real, você não agiu realmente. E, como o regime perverso da Síria nos recorda: tiros superam tweets todos os dias da semana.


Comentando sobre a incrivelmente corajosa geração Facebook do Egito, o cientista político Frank Fukuyama recentemente escreveu: “Eles organizaram protestos e manifestações, e agiram frequentemente com coragem temerária no desafio ao velho regime. Mas não conseguiram se unir ao redor de um único candidato, e então realizar o trabalho lento, chato e cansativo de organizar um partido político capaz de disputar uma eleição distrito por distrito (...). O Facebook, ao que parece, produziu um forte clarão cegante na lareira, mas não gerou calor suficiente por um período prolongado para aquecer a casa”.


Vamos ser justos. Os jovens de Tahrir enfrentavam duas redes bem entrincheiradas de patronagem. Eles tiveram pouco tempo para construir redes de base em um país tão grande quanto o Egito. Isso dito, eles aprenderam sobre liderança e a importância de conseguir com que as coisas sejam feitas estudando o Partido Justiça e Desenvolvimento islâmico da Turquia, conhecido como AKP. Ele está governando aqui desde 2002, vencendo três eleições consecutivas.


O que até mesmo os maiores críticos do AKP reconhecem é que ele transformou a Turquia, no período de uma década, em uma potência econômica, com uma taxa de crescimento menor apenas do que a da China. E fez isso destravando a energia de sua população – com boa gestão econômica e atendimento universal de saúde, removendo obstáculos e criando incentivos para as empresas e investimento estrangeiro, e construindo novos aeroportos, ferrovias, estradas, túneis, pontes, redes sem fio e esgotos por todo o país. Uma jornalista turca que detesta o AKP me confessou que desejava que o partido tivesse vencido a eleição municipal, porque ela sabia que ele melhoraria o bairro.


Mas aqui eis o problema: o primeiro-ministro impressionantemente eficiente do AKP, Recep Tayyip Erdogan, não foi eficiente apenas construindo pontes, mas também eliminando um Judiciário independente na Turquia e intimidando a imprensa turca, para que não exista mais fiscalização nem controle aqui. Com o declínio econômico da União Europeia, o abandono dos esforços da Turquia para ingressar na União Europeia e a necessidade dos Estados Unidos de terem a Turquia como aliada na gestão do Iraque, Irã e Síria, também não existe fiscalização e controle externo ao crescente autoritarismo do AKP. (Erdogan anunciou do nada na semana passada que pretende aprovar uma lei restringindo severamente os abortos.)


Assim, muitas conversas que tive com os turcos aqui terminaram com eles me dizendo: “Por favor, não cite meu nome. Ele pode ser bastante vingativo”. É como na China.


Isso não é bom. Se a “sultanização” da Turquia por Erdogan continuar não contida, ela vai macular o retrospecto dele realmente significativo e certamente prejudicará a democracia turca. Também será ruim para a região, porque quem quer que vença a eleição no Egito, quando procurar por um modelo para seguir, verá a União Europeia em pedaços, o governo Obama dando passe livre para Erdogan e a Turquia prosperando sob um sistema que diz: dê crescimento às pessoas e você poderá coibir gradualmente as instituições democráticas e impor mais religião como você quiser.


Tradução: Daniela Nogueira


danielanogueira@opovo.com.br

 

Thomas Friedman

Colunista de assuntos internacionais do New York Times, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo. É autor do best-seller O Mundo é Plano

 

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