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Thomas Friedman 18/05/2012

Esta coluna não é patrocinada por ninguém

A maioria dos estádios tem nome de companhias e a riqueza se senta nos camarotes que custam dezenas de milhares de dólares, e o público comum fica sob a chuva
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Lendo o novo livro de Michael Sandel, filósofo da Universidade de Harvard, “What Money Can’t Buy: The Moral Limits of Markets” (“O Que o Dinheiro Não Pode Comprar: Os Limites Morais dos Mercados”, em uma tradução livre), eu me vi várias vezes virando as páginas e dizendo: “Eu não fazia a menor ideia disso.”


Eu não tinha ideia de que, em 2000, como Sandel pontua, “um foguete russo pintado com um gigantesco emblema da Pizza Hut fazendo propaganda no espaço”, ou de que, em 2001, a escritora britânica Fay Weldon escreveu um livro encomendado pela loja de joias Bulgari e que, com o pagamento, “a autora concordou em mencionar as joias da Bulgari no romance pelo menos 12 vezes”.


Sei que os estádios agora são batizados com nomes de corporações, mas eu não fazia ideia de que atualmente “até mesmo o ato de ir aos jogos envolve patrocínio corporativo”, escreve Sandel. “A seguradora New York Life Insurance Company fechou um negócio com dez equipes da primeira divisão de beisebol para ativar uma propaganda especial a cada vez que um jogador marca pontos. Quando ele está em segurança na base do campo, uma logomarca de uma corporação aparece na tela da televisão e uma voz diz: “Seguro em casa. Seguro. New York Life”.


E embora eu saiba que jogadores de beisebol aposentados vendem os seus autógrafos por US$ 15, eu não fazia ideia de que Pete Rose, que foi banido do beisebol para sempre por apostar, tinha um website que, Sandel escreveu, “vende objetos vinculados ao banimento dele. Por US$ 299, mais despesas relacionadas à embalagem e à remessa, você pode comprar uma bola de beisebol autografada por Rose com as desculpas: ‘Sinto muito por ter apostado no beisebol’. Por US$ 500, Rose vai enviar uma cópia autografada do documento que o baniu do esporte”.


Eu não fazia ideia de que, em 2001, uma escola de ensino fundamental de Nova Jersey tornou-se a primeira escola pública dos Estados Unidos a “vender os direitos sobre o seu nome a um patrocinador corporativo”, escreve Sandel. “Em troca de uma doação de US$ 100 mil de um supermercado local, ela rebatizou a sua quadra poliesportiva de ‘ShopRite of Brooklawn Center’... Uma escola de ensino médio em Newburyport, em Massachusetts, ofereceu direitos sobre o seu nome ao gabinete do diretor por US$ 10 mil... Em 2011, sete estados aprovaram a exibição de propagandas nas laterais de ônibus escolares”.


Vistos de forma isolada, essas operações de propaganda comercial parecem inócuas. Mas Sandel vê nelas sinais de uma tendência ruim: “No decorrer das últimas três décadas, deixamos de ser uma economia de mercado para nos tornarmos uma sociedade de mercado. Uma economia de mercado é uma ferramenta – um instrumento valioso e efetivo – para organizar a atividade produtiva. Mas uma “sociedade de mercado” é um lugar no qual tudo está à venda. Isso é um estilo de vida em que os valores de mercado governam cada esfera da vida”.


E por que se preocupar com essa tendência? Porque, Sandel argumenta, os valores de mercado estão erradicando as práticas cívicas. Quando as escolas públicas são cobertas por propagandas comerciais, elas ensinam os alunos a serem consumidores, não cidadãos. Quando terceirizamos a guerra para que ela seja feita por empresas militares privadas, e quando contamos com filas exclusivas e mais curtas na segurança dos aeroportos para aqueles que têm como pagar por isso, o resultado é que as pessoas afluentes passam a ter vidas separadas daquelas que têm menos renda, e as instituições de mistura de classes e os espaços públicos que forjam um senso de experiência comum e de cidadania compartilhada acabam erodidos.


Essa penetração dos mercados em todos os aspectos da vida foi, em parte, um resultado do fim da Guerra Fria, argumenta Sandel, quando a vitória dos Estados Unidos foi interpretada como uma vitória dos mercados irrestritos, alimentando, assim, a ideia de que os mercados são os instrumentos primários para a obtenção do bem público. Isso foi também o resultado do fato de os norte-americanos desejarem mais serviços públicos do que aquilo pelo qual estão dispostos a pagar na forma de impostos, o que convidou as corporações a preencher a lacuna com quadras esportivas como aquela fornecida pelo ShopRite.


Sandel é hoje um renomado professor da Universidade de Harvard, mas nós nos tornamos amigos quando crescemos juntos em Mineápolis na década de 1960. Os nossos pais nos levaram para os jogos da World Series de 1965, quando os Dodgers venceram os Twins em sete partidas. Em 1965, as melhores cadeiras para o Metropolitan Stadium custavam US$ 3; e as entradas para as arquibancadas comuns eram US$ 1,50. A entrada para uma cadeira na terceira fila, paga por Sandel para a World Series, custou US$ 8. Mas atualmente a maioria dos estádios tem nome de companhias e a riqueza se senta nos camarotes exclusivos ‘skyboxes’ – até mesmo em jogos universitários – que custam dezenas de milhares de dólares por temporada, enquanto o público comum fica debaixo da chuva.


Em toda a sociedade, estamos perdendo os locais e as instituições que eram utilizados para unir pessoas de diferentes classes sociais. Sandel chama isso de ‘skyboxização da vida norte-americana”, e a tendência é alarmante. A menos que ricos e pobres se encontrem na vida cotidiana, será difícil imaginar que possamos nos engajar em um projeto comum. Em um momento no qual, para consertar a nossa sociedade, precisamos fazer juntos coisas grandes e difíceis, essa “marketização” da vida pública acaba se transformando em mais uma força a nos separar.


“A grande discussão que está faltando na política contemporânea é quanto ao papel e ao alcance dos mercados”, anota Sandel. “Deveríamos estar questionando em que instâncias o mercado atende ao bem-estar público e identificar aqueles setores aos quais ele não pertence. E deveríamos também estar tentando descobrir como reconstruir as instituições que causam a mistura de classes.”


“A democracia não exige uma igualdade perfeita”, ele conclui. “Mas exige que os cidadãos dividam uma vida comum... É assim que nós aprendemos a negociar e a tolerar as nossas diferenças e aprendemos a dar importância ao bem comum.”

 

Thomas Friedman

Colunista de assuntos internacionais do New York Times, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo. É autor do best-seller O Mundo é Plano

 

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espaço do leitor
flavio 07/06/2012 11:04
Excelente texto !
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