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SCRIPT 18/07/2012 - 09h06

Na Estrada

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Hoje quem escreve a crítica da semana na coluna Script são dois bons amigos. Ambos, fãs do livro Na Estrada, de Jack Keruac, adaptado para o cinema e dirigido pelo brasileiro Walter Salles, obra que será analisada. Eu mesmo não conseguiria escrever com o mesmo peso e amor que vivem pelo livro.

Desde as primeiras cadeiras da faculdade de jornalismo, testemunhei André Victor Rodrigues sempre com o livro na mão. Lendo, relendo e citando. O que faz até hoje, como jornalista formado. Já o publicitário e professor universitário Claúdio Sena é admito fã e curioso sobre o “beatnik way of life”. E, desde já, pede desculpas aos que, como Kerouac, possam vir a repudiar a classificação de beat generation e suas variações. Vamos aos preciosos textos.

Cláudio Sena:


Digamos que você nunca tenha ouvido falar no livro On the Road/Na Estrada, que não conheça Sal Paradise, Dean Moriarty, Carlo Marx e Bull Lee, muito menos, Kerouac, Cassady, Ginbsberg e Burroughs. Que beat não signifique nada além de mais um verbete gringo. Mesmo sem nenhuma referência, é bem provável que o filme de Walter Salles cause em você o mesmo choque/estranhamento/identificação/descoberta que o livro causou em milhões de leitores.

 

Não há como assistir Na Estrada (On the Road, 2012) e passar ileso. O diretor Walter Salles acertou. Acertou no roteiro, na representação do tempo e do espaço, na trilha sonora, na narrativa - por vezes arrastada, por vezes frenética, como a escrita de Kerouac – e na composição dos personagens.


Ok, mas para aqueles que conhecem o livro e acompanham (acompanhavam?) a beat generation?

Para nós, claro, por mais que compreendamos a existência do livro e do filme como obras independentes, nossa mente nos conduz a uma inevitável comparação ou validação de tudo que imaginamos à primeira leitura. Mesmo assim a obra como filme se sustenta.

Não sofremos decepção nenhuma, o que vez por outra acontece quando assistimos adaptações de livros para o cinema. Pelo contrário, somos surpreendidos por um longa que faz jus ao livro no qual foi inspirado. Claro, acelera em alguns momentos e também pisa no freio. Vai além do que imaginamos (eu, pelo menos) em algumas cenas sufocantes de sex and drugs sections. Mas há bons intervalos para respirar e pensar na vida, como Sal gostava de fazer.

Enfim, que tenha lido o livro ou não, empreenda a viagem. Embarque Na Estrada de Kerouac e de Walter Sales e não volte do mesmo jeito que foi. NOTA: 9,0

*Claudio Sena (siga no Twitter @claudiosena) é Especialista em Teorias da Comunicação e da Imagem (UFC) e Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Porto, em Portugal. Seu site é www.claudiosena.com.br e seu contato é contato@claudiosena.com.br

André Victor Rodrigues:

Durante o outono de 1948, Jack Kerouac trocava cartas com seu novo grande amigo, Neal Cassady. O assunto central dessas correspondências era a ideia fixa de Kerouac sobre, simplesmente, dois loucos perdidos e sem destino pegando a estrada em busca de algo que eles não sabiam o que era, muito menos que conseguiriam encontrar.

As buscas inconclusas e a esperança em encontrar o caminho para a espiritualidade foram o fio condutor que guiou Kerouac para levar a prática os planos de escrever a sua obra maior. Em 1951, depois de anos cruzando as estradas dos EUA, o escritor pôs no papel (num insano período de três semanas) On the Road.

A obra, que viria a ser publicada somente seis anos depois, pela editora Viking, repercutiu prontamente entre os jovens leitores da época e se tornou uma das principais responsáveis pelo desencadeamento da contracultura que explodiria na década de 1960. O campo da arte absorveu o sentimento libertário, entorpecido e andarilho de Kerouac. Músicos, novos escritores, artistas plásticos... Cineastas.

Walter Salles, fã e profundamente influenciado pela escrita pulsante de Jack Kerouac, topou o desafio e dirigiu Na Estrada (On the Road, 2012).

Pela sua frente, o cineasta teve a difícil missão de dar vida, corpo e alma aos personagens e cenários descritos por Kerouac. O livro é escrito em parágrafo único, como em um surto discursivo regido por benzedrina. As vivências andarilhas e o registro proustiano do autor saltam ao leitor sem estabelecer compromissos com a coerência ou qualquer estrutura narrativa pré-estabelecida. Em entrevistas, o próprio escritor afirmava que a incoerência encontrava o seu lugar em uma página bem escrita. Suas descrições não estavam lá para convencer ninguém, apenas para constar o que ele sentira na hora. Aos loucos, aos sãos, a quem for: Jack Kerouac destilava sua prosa poética bebop sem a mínima preocupação de ser ou não compreendido.

Antes de falar do que vi (já algumas vezes) nos cinemas, preciso registrar: Walter Salles merece aplausos. Ele captou o recado. Durante pouco mais de duas horas, o filme transpassa a essência do movimento que Kerouac, Neal Cassady, Allen Ginsberg e outros protagonizaram. A liberdade sexual, a vida boêmia, o consumo de drogas e o eterno brilho no olhar de quem sonhava em encontrar o espírito que iluminava as ruas e hipsters de uma geração ferrada.

A fotografia é sensacional. As cenas que retratavam as viagens de Sal Paradise/Jack Kerouac (Sam Riley), Dean Moriarty/Neal Cassady (Garrett Hedlund) e Marylou/Louanne Henderson (Kristen Stewart) foram rodadas pelos Estados Unidos, Canadá e México, e traduzem bem o tom descrito por Kerouac quanto aos cenários pelos quais cruzou nas andanças e caronas.

Outro ponto forte foi a trilha sonora. O jazz foi o principal combustível da poesia e prosa beat durante os anos 50. Não poderia faltar o ritmo trôpego e dançante de clássicos do estilo que embalou os beats em suas viagens literárias.

A escolha dos atores foi decisiva para o sucesso da adaptação. Confesso que torci o nariz ao ver, principalmente, Sam Riley (que não parece em absolutamente nada com Jack Kerouac/Sal Paradise) e Kristen Stewart (dispensa apresentações). Quebrei a cara. Me deparei com um cast devoto, intenso a cada cena e dedicado em busca de incorporar o sentimento louco dos personagens de Na Estrada. Os destaques vão para Garrett Hedlund, que trouxe ao cinema um brilhante Dean Moriarty, e Viggo Mortensen, que praticamente se transformou em Old Bull Lee/William Burroughs.

O ponto negativo fica por conta de ter deixado de lado algumas histórias contadas por Kerouac. Entendo que, ao adaptar o vasto registro, Walter Salles precisou colher alguns momentos e sacrificar muitos. Só que transformar importantes vivências do livro em flashes não me agradou. Principalmente quando se trata da personagem Terry (Alice Braga), mexicana que Sal conhece na estrada e com quem vive uma paixão intensa. No filme, esse momento do livro passa como um relâmpago. Quanto à Kirsten Dunst, foi a mais apagada, no papel de Camille/Carolyn Cassady.

Momentos de anos de estrada foram fundidos e outros transformados em segundos. Seria tolo de minha parte afirmar que isso compromete o andamento da adaptação. No máximo, apenas desaponta o meu lado leitor. Mas o que eu não vi, sempre poderei ler e, assim, lembrar-me de traços do filme que dão contornos reais ao imaginário que alimentei durante anos.

Salles apresenta a geração beat aos que conhecem e desconhecem o movimento. De modo rico, diga-se de passagem. É possível perceber, em vários momentos da narrativa, intertextualidades e pequenos detalhes que só alguém que conhece e sabe da importância do pensamento beat poderia inseri-los no filme. Desde pequenas citações, como as dos terços de Neal Cassady (logo na apresentação de Dean Moriarty), até momentos importantes da carreira de Carlo Marx/Allen Ginsberg (interpretado por Tom Sturridge, que não deixou a desejar em momento algum), no amadurecimento deste que foi o principal nome da poesia da beat.

Quanto ao roteiro, Jose Rivera se perde em alguns momentos. E fez muito bem ao cometer tal feito. Sobre isto, apenas cito o próprio Kerouac: “a experiência da vida é uma série regular de desvios”. No livro, além do despejo de metáforas e construções extremamente ensandecidas, o escritor também descreve suas programações com extensão e riqueza de detalhes. E estão propícias ao retalho narrativo. Assim, o filme traz seleção de boa parte delas. Não há crime e nenhuma infração nisso.

O final me fez encher os olhos, confesso. Acima de tudo – neste tudo incluo a construção dos mitos da geração, das cenas de sexo, da devassidão, das drogas, da criminalidade – os beats eram um grupo de amigos, que desfrutavam da amizade em proporções que ultrapassavam qualquer barreira conservadora. Eles se adoravam, louvavam, se amavam como irmãos, amantes, companheiros que desfrutavam da mesma loucura, que respiravam o mesmo ar poluído dos pubs.

Nem vou entrar no quesito “chatice”. Não vi nada de chato na obra cinematográfica. Walter Salles contou a estrada, fez isso com competência. Clap, clap, clap. Na Estrada nos deixa um convite para relembrar as páginas de Kerouac e, para quem ainda não o conhecia, um apelo para adquirir o livro que mudou a vida de muita gente. NOTA: 9,0

* André Victor Rodrigues (siga no Twitter @andrevro) é jornalista formado pela FA7, é repórter do núcleo de cotidiano do Jornal O Povo e repórter no Portal O Povo On Line. Seu contato é andrevictor.ro@gmail.com

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