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Ruy Lima 23/02/2012 - 01h30

Paradinha

Hoje, o desfile das escolas é transmitido pela TV Globo para mais de 100 países. Nem sempre foi assim

 

Assistia ao desfile das escolas de samba pela janela do escritório de meu pai, na avenida Presidente Vargas, no Rio. Quando a Mangueira se preparava na armação, meu pai me pegava pelas mãos. Descíamos pela escada o que eu imaginava fossem mais de 20 andares, para ver de perto a verde e rosa passar. Naquele tempo, sempre havia um jeito de entrar na avenida. Não sei como, mas meu pai devia saber. Pura emoção. Pela televisão, não tinha a menor graça. Acho que nem havia transmissão na época.


Hoje, o desfile das escolas é transmitido pela TV Globo para mais de 100 países. A audiência em todo o mundo é estimada em estratosféricos 300 milhões de telespectadores. Nem sempre foi assim.


Por puro ódio pessoal, os donos da TV Globo não só ignoravam como também combatiam ferozmente o projeto do sambódromo da Marquês de Sapucaí. Acusavam a obra de populista, desnecessária, faraônica. O governador do Rio era Leonel Brizola, inimigo número um da Vênus Platinada. Brizola, o perigoso socialista que ousava desafiar o poder de Roberto Marinho. E que venceu a eleição depois de denunciar o esquema que estava sendo posto em prática, com a cumplicidade da TV Globo, para fraudar a apuração dos votos e impedi-lo de chegar ao poder.


O grande idealizador do sambódromo, no entanto, foi Darcy Ribeiro, que encomendou o projeto a Oscar Niemeyer. Darcy, educador visionário, fez do sambódromo o embrião do mais ousado projeto educacional do século: o Ciep – as escolas públicas em tempo integral que os governos seguintes desmontaram de forma criminosa.


O primeiro ano de desfile na Sapucaí entrou para a história da televisão brasileira como o ano em que a TV Manchete derrotou a TV Globo na guerra pela audiência. Em 1984, Brizola quebrou o monopólio da Rede Globo nas transmissões de Carnaval, concedendo o direito também à Rede Manchete. A emissora da família Marinho desistiu então de cobrir o desfile. Eu era repórter da Manchete e vivi meus dias de glória, transmitindo o maior espetáculo da terra. Foi o ano do supercampeonato da Mangueira. Samba enredo em homenagem a Braguinha, que desfilou no carro abre-alas, sentado num banco de praça, esbanjando simpatia do alto de seus 80 anos. Darcy Ribeiro assistiu a boa parte do desfile sozinho, sobre as nádegas da sambista, o arco monumental desenhado por Niemeyer na praça da Apoteose, que se assemelha à bunda de uma passista. Darcy queria que a praça da apoteose fosse o grande desfecho do desfile, onde as escolas desfilariam em círculo para o povo nas arquibancadas. A manobra se mostrou inviável pelo tamanho dos carros alegóricos, que não conseguiam fazer a curva. Última escola a desfilar, a Mangueira deu um show na avenida. Darcy não se conteve. Desceu para a área de dispersão, mandou os sambistas circularem e voltarem pela avenida. A Mangueira foi a única escola até hoje a fazer o trajeto de ida e volta no sambódromo. Atrás dela, o povo das arquibancadas, garis, trabalhadores e nós, jornalistas e técnicos da Manchete.


Escrevo antes de sair o resultado da campeã do Rio. Mas depois daquele desfile de 1984, só agora a Mangueira me fez arrepiar outra vez, com aquela paradinha de tirar o fôlego.

 

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