Cid Gomes (PSB) detesta ser contrariado e enfrentar oposição - isso até o rio Acaraú sabe. O problema do governador não é apenas sofrer críticas. As pessoas mais próximas conhecem bem sua dificuldade de romper com quem quer que seja. Ele próprio já disse o quanto lhe incomoda a ideia de demitir alguém, por exemplo, e espera nunca precisar fazê-lo. Recentemente, o governador - irritadíssimo - chegou a tomar a decisão de exonerar um auxiliar. Comunicou ao “padrinho político” da indicação que tal personagem seria afastado. No dia seguinte, de cabeça fresca, Cid voltou atrás. Por essa aversão ao embate é ainda mais surpreendente a forma como confrontou o senador José Pimentel. Poucas vezes em sua trajetória política ele foi tão duro em suas manifestações públicas. O governador não gosta de briga, mas está disposto a comprá-la, caso julgue necessário. Pode ser o caso. E, por mais que não lhe agrade a ideia de uma oposição fortalecida, Cid já admitiu tomar decisões que levassem a tal cenário, no passado bem recente. Em 2010, ele próprio declarou que toda sua movimentação tinha objetivo de garantir o apoio a Eunício Oliveira (PMDB) e Tasso Jereissati (PSDB) para o Senado. A estratégia foi atrapalhada pela decisão de Tasso - precipitada, na visão do governador - de romper e lançar candidato ao governo. Não fosse isso, já em 2010 teria se consumado o rompimento entre PSB e PT no Ceará. E, nesse caso, a vida do Palácio da Abolição seria bem menos tranquila.
A FRONTEIRA DO ROMPIMENTO
No entanto, a cúpula do Estado sempre fez qualquer movimento que pudesse afastá-la do PT de forma calculada. Interlocutores do governador apostam que há um núcleo crescente e cada vez mais importante no PT que não romperia com Cid em situação alguma - nomes como Francisco Pinheiro, Nelson Martins e Clodoveu Arruda. Uma alternativa vislumbrada para o caso de rompimento seria, passada a eleição, a repetição do processo que se deu com o PSDB. Passada a campanha de 2010, consumada a derrota do partido, a adesão à base governista foi generalizada. O cenário, no caso da eleição municipal, é considerado mais favorável. Afinal, seria mais simples personalizar o rompimento em Luizianne e na esfera municipal - e não na relação com o partido. Ainda mais diante da possibilidade bastante concreta de o Executivo estadual apoiar petistas à reeleição em prefeituras importantes, como Sobral e Juazeiro do Norte. Portanto, aposta-se que o naufrágio da aliança na Capital não significaria que o partido desembarcasse de mala e cuia na oposição. Mas essa estratégia esbarra em obstáculos nada desprezíveis. O maior deles, o fato de PT não ser PSDB. O nível de fidelidade à legenda é bem diferente em um e outro. Com a guerra aberta com Pimentel, a situação de complica consideravelmente.
O TRIUNVIRATO PETISTA
O poder no PT do Ceará está dividido entre três pilares: Pimentel, Luizianne e o deputado José Guimarães. A relação com o senador parece irremediavelmente comprometida, ao menos no curto prazo. No caso de rompimento, a relação com a prefeita também vai para o espaço. Resta Guimarães. Ele é o petista mais próximo de Cid. Mas é PT antes de tudo. Já deu mostras disso em outras oportunidades. Por exemplo, quando Ivo Gomes (PSB) fez suas primeiras críticas públicas a Luizianne. O chefe de gabinete foi duro. Guimarães integrou a comissão que foi ao Paço Municipal prestar solidariedade a ela. Portanto, a estratégia de isolar o possível rompimento na prefeita dificilmente seria bem-sucedida.
MOVIMENTOS OPOSTOS
A crise desta semana despertou reações opostas no PT e no PSB. Entre petistas, todo mundo virou bombeiro, na tentativa de evitar a propagação da crise. Entre os aliados do governador, a postura de Cid foi recebida como senha por aqueles que já eram contrários ao apoio ao candidato de Luizianne. A oportunidade vem sendo aproveitada por eles para transformar o conflito em rompimento consumado. A visita da presidente Dilma Rousseff, no próximo dia 27, deve ser o momento decisivo para o futuro da aliança - se é que haverá algum.
SOLIDARIEDADE
A notícia é do sempre bem informado Renato Maurício Prado, colunista do jornal O Globo. Entre a noite de quarta-feira e a manhã de quinta, 11 dos 12 governadores de estados onde haverá jogos da Copa de 2014 telefonaram para Ricardo Teixeira e tentaram convencê-lo a não renunciar à presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Não se sabe quem foi o único que não ligou. Dificilmente foi Cid Gomes. O chefe do Executivo do Ceará foi, em outras oportunidades, o mais enfático defensor de Teixeira. Em outubro passado, já diante das suspeitas que podem derrubar o comandante do futebol brasileiro, Cid declarou: “Independente de qualquer outra questão, pode chover acusação contra ele, eu serei sempre grato a ele pelo carinho que ele tem demonstrado pelo estado do Ceará”.
Ainda segundo Prado, todo mundo da política e dos negócios ligados ao esporte prestou solidariedade ao comandante da CBF, com duas exceções: a presidente Dilma Rousseff e o presidente da Fifa, Joseph Blatter.
Érico Firmo
Jornalista, editor-adjunto do núcleo de Conjuntura do O POVO
ericofirmo@opovo.com.br
Érico Firmo
ericofirmo@opovo.com.br
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