É difícil saber quão calculado foi o gesto, mas José Pimentel (PT) incorporou o figurino ideal ser para candidato a prefeito na condição de opositor de Cid Gomes (PSB). Há poucos dias, quando foi colocado na lista de alternativas para a sucessão municipal, o senador disse que seu objetivo é ajudar na parceria entre PT e PSB. No entanto, pode ter sido o responsável pelo fim da aliança. Se já era totalmente improvável, hoje não há a mais remota condição política de ele ser candidato a prefeito com apoio do Executivo estadual. Por outro lado, na cada vez mais factível hipótese de rompimento, é difícil o PT escolher um candidato que não ele. Pimentel questionou a capacidade gerencial do Estado, algo caríssimo ao governador e considerado artigo em falta na Prefeitura. Passou a incorporar, dessa forma, o contraponto petista em relação ao Governo do Estado. Conseguiu tirar o governador do sério como poucas vezes se viu. É bom lembrar que o discurso de campanha municipal tendo como foco a oposição à administração estadual não é novo. Foi repetitivamente usado na época em que a esquerda tinha como alvo favorito o “grupo do Cambeba”.
A GUERRA QUASE DECLARADA
Desde a semana passada, a Prefeitura está sob fogo cerrado dos Ferreira Gomes pela suposta inoperância administrativa. Como disse um influente petista, fosse em outros tempos, no dia seguinte partiria do PT um fuzil “AR-15 na imprensa, atirando para todo lado”. Curiosamente, o “tiroteio” vem sendo disparado por personagens normalmente apaziguadores: Cid e Pimentel. A tarefa de jogar água na fervura tem cabido a Luizianne Lins, justamente quem costuma dar as declarações que provocam as crises. O mundo político cearense parece mesmo de pernas para o ar. A Prefeitura tenta dar o tom de que nada teve com as críticas do senador. O Palácio da Abolição, contudo, entendeu como resposta às críticas feitas na semana passada. Depois que o Estado apontou o dedo para o Município, teve contra si apontado o dedo do Governo Federal.
Cid foi explícito: recebeu a manifestação como declaração de guerra. Se não houver competente, cuidadosa, intensa e cirúrgica ação para debelar a crise, a aliança PT-PSB irá irremediavelmente para o espaço. Com isso, os diversos fóruns da política estadual entrarão em pé de guerra. A eleição será um “salve-se quem puder”.
O CANDIDATO E O CRÍTICO
As declarações de Pimentel, e as reações que despertaram, precisam ser interpretadas dentro do contexto: elas surgem semanas depois de a prefeita Luizianne Lins colocar o senador como alternativa para concorrer a prefeito de Fortaleza. O efeito da entrada do senador no cenário sucessório foi lançar pressão sobre o Governo do Estado. Afinal, segundo Luizianne, ele seria alternativa para o caso de a aliança não vingar. E seu primeiro suplente é Sérgio Novais – apeado da direção municipal do PSB por movimento apoiado pelo Palácio da Abolição. Ou seja, diante do fim da aliança, a prefeita cogitou lançar um candidato que, caso eleito, teria como efeito colateral garantir seis doces anos no Senado para o inimigo jurado do grupo do governador.
O INGREDIENTE FEDERAL
Outro ingrediente do desencontro entre Cid e Pimentel tem a ver com Brasília. O senador é líder de Dilma no Congresso. Na recente viagem ao Ceará, na semana passada, a presidente se desentendeu com o governador. O assunto foi justamente investimentos federais. Há relatos desencontrados, mas circulou informação até de que o governador cearense teria abandonado a comitiva. Na discussão, ela teria questionado a competência da gestão estadual cearense. Mas não parecem ter restado sequelas. Afinal, o próprio governador anunciou a visita de Dilma a Fortaleza, no próximo dia 27. A agenda da presidente será fundamentalmente com o Estado, mas está reservado horário para conversa com Luizianne.O HISTÓRICO DE PIMENTEL E CID
Cid apoiou Pimentel para o Senado a contragosto. Já deixou claro que preferia a aliança com Tasso Jereissati (PSDB), mas o tucano se precipitou e atrapalhou sua estratégia. Na campanha, porém, o governador não fez corpo mole e foi decisivo para eleger o petista. Contudo, a relação da família Ferreira Gomes com o senador nunca foi das melhores. Críticas parecidas com as que Pimentel torna públicas agora já foram feitas em 2009, em entrevista às Páginas Azuis do O POVO. Na época, ele falava sobre a devolução de dinheiro do Orçamento da União para o Metrofor, tanto em 2008 quanto em 2009. No começo de 2010, Pimentel elencou as obras estaduais para as quais assegurou recursos quando foi relator do Orçamento federal de 2008. Ressaltou sua lealdade em relação à administração Cid e cobrou reconhecimento e reciprocidade. A reação veio de Ivo Gomes e foi indignada. “Nós não devemos nada ao Pimentel. Nada ao Pimentel. Nada!”, enfatizou, E ainda acrescentou: “Reconhecimento de quê?! O quê?! Qual é o reconhecimento?”
Érico Firmo
ericofirmo@opovo.com.br
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