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Política 14/02/2012 - 01h30

O que realmente interessa

24 homicídios por dia foi a média de crimes registrados no Ceará entre os dias 1º e 3 de janeiro, durante a greve da PM

 

Não por acaso, a relação entre PT e PSB em Fortaleza é o principal assunto da política cearense no período pré-eleitoral. A manutenção da aliança significaria o surgimento de um candidato que larga como forte favorito à Prefeitura. Já o rompimento tornaria a disputa imprevisível, com formação de pelo menos dois grandes polos, e abriria espaço para surpresas. O PCdoB está decidido a ter candidato próprio. PMN, PHS, PSL e PRTB formaram bloco e dizem que também irão concorrer a prefeito. O PMDB dá sinais de profunda insatisfação na parceria com o PT municipal. Se o governador Cid Gomes (PSB) abandonar a coalizão governista, é quase certo que os peemedebistas farão o mesmo. Ou seja, em caso de rompimento com o PSB, há perspectiva real de o candidato da prefeita Luizianne Lins (PT) ficar quase isolado, abandonado pelos principais componentes do latifúndio partidário que hoje integra a base de sustentação da Prefeitura. É algo desse porte que está em jogo na discussão sobre a aliança eleitoral. No entanto, para o povão, isso não é o mais importante.


A Prefeitura de Fortaleza está certa ao cobrar da Cagece que, ao realizar obras em vias públicas, entregue o local nas condições em que estava antes. Assim como estava correta ao cobrar a preservação da estação da Parangaba. Tudo bem que se trata de réplica da original, mas já constituíra sua própria história. Fortaleza tem relação tão predatória com seu patrimônio que a maioria das construções mais antigas não datam de muito mais de meio século. No entanto, se não forem preservadas e caso seja mantido o ritmo de destruição dos prédios que completaram poucas décadas, nunca se constituirá acervo histórico algum. Por outro lado, o Governo do Estado está certo ao cobrar que a Prefeitura assuma a gestão do equipamento. Assim como tem razão em vários outros conflitos nos quais a solução poderia ser mais simples, a bem do interesse da população.


Se a aliança vai se manter ou não é assunto político da maior importância, decisivo para o resultado da próxima eleição. Mas, a despeito da relevância inegável, isso é, a rigor, problema da prefeita, do governador e dos partidos de um e outro. Para a população, o mais importante é a sintonia administrativa que permita tirar projetos do papel, sem sobressaltos. O crucial é que os humores políticos não atrapalhem as ações governamentais. O resto são projetos de poder que batalham para se sustentar. Nesse processo, mexem inevitavelmente com a vida de todo mundo. Mas são eles que devem se preocupar com esse assunto. Para o andar de baixo, importa o resultado.


PARA ALÉM DA BOATARIA

No O POVO de ontem, o repórter Tiago Braga mostra que, infelizmente, houve muito mais que a boataria - da qual o governador Cid Gomes reclamou - no descalabro que tomou o Ceará durante a greve dos policiais militares. Os números impressionam. A média de janeiro foi de assustadores 10 assassinatos por dia. Durante os três primeiros dias do mês, quando a Polícia Militar estava em greve, saltou para 24 homicídios/dia. O dado supera a média da trágica greve baiana, quando a média, em 12 dias, foi de 15 homicídios. A situação cearense é ainda pior se for levada em consideração a proporção em relação à população - a baiana é quase o dobro.

PARA GOVERNO, FALTA DO EXÉRCITO NA RUA FOI A DIFERENÇA

Para o Governo do Ceará, a diferença crucial entre a greve da PM no Estado e a paralisação na Bahia foi a postura do Exército. O Palácio da Abolição se queixa que as ruas não foram ocupadas, ao contrário do que se deu no caso baiano. Há inclusive reclamação de diferença de tratamento político - o governador da Bahia, Jaques Wagner, é do PT, partido da presidente Dilma Rousseff. O governo Cid chegou a disponibilizar 152 veículos zero quilômetro para as tropas. Os carros haviam sido adquiridos para a Secretaria da Saúde. Diante da situação emergencial, foram adesivados com o nome “Polícia” e entregues para uso do Exército na patrulha das ruas. Entretanto, 20 viaturas foram o máximo que chegou a circular simultaneamente em Fortaleza. Ainda assim, em comboios de cinco. Efetivamente, era como se houvesse apenas quatro veículos patrulhando a Capital, nos momentos de presença mais ostensiva. Praticamente nada. Daí ter se dado a situação de colapso. Caso tivesse havido presença e ocupação ostensiva do Exército, na leitura do governo, a dramática situação teria sido drasticamente minimizada. “O que aconteceu na Bahia era para ter acontecido no Ceará”, disse Eduardo Diogo, secretário estadual do Planejamento, que esteve na linha de frente das negociações que encerraram a greve. Ele destaca que, enquanto lá os manifestantes tomaram a Assembleia Legislativa, aqui eles se concentraram no quartel da 6ª companhia do 5º batalhão. Portanto, deveria ser muito mais simples cercar o local e isolar os grevistas. “Não houve boa vontade (do Exército). Deixaram o governador na mão”, disse Diogo. Ainda assim, o secretário defende que a postura adotada pelo governo cearense, mesmo sem suporte, mostrou-se a mais eficaz na resolução do problema. “Mesmo deixado na mão, o governador solucionou o problema de modo célere, eficaz, resguardando toda a sociedade”.

 

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